Uma prece inegociável

No auge dos seus radiodramas, a Guarujá tinha como patrocinadores A Modelar, A Soberana, Brito Alfaiate, Lojas Pereira Oliveira, Eletrolândia, Eletrotécnica e Drogaria e Farmácia Catarinense.
Por Ricardo Medeiros

Nesta lista bem que poderia estar uma empresa multinacional, a Colgate Palmolive, que buscava bancar novelas em Florianópolis. Segundo o ex-diretor da emissora Acy Cabral Teive, o negócio estava praticamente consolidado e para os cofres da Guarujá entraria uma soma financeira considerável. A intenção dos anunciantes era veicular novelas, e consequentemente seus comerciais, na segunda, quarta e sexta-feira, das 18h às 18h30, horário tradicionalmente reservado para o Instante da Prece, o momento religioso da emissora, transmitido diretamente da catedral pelo Monsenhor Frederico Hobold.

Na hora de fechar o acordo com a Colgate Palmolive o diretor da ZYJ-7 descobriu uma promessa de Santa Ramos, mãe do político e proprietário da estação. Dona Santa fez uma promessa de que se o filho voltasse da Suíça curado da tuberculose, ela pediria a Aderbal Ramos da Silva para nunca tirar do ar o Instante da Prece. E foi isso que aconteceu. Aderbal Ramos da Silva voltou da Europa recuperado e a Guarujá não selou a parceria com a multinacional, que foi conseguir irradiar seus spots e jingles nos melodramas só mais tarde, pela Diário da Manhã. 

Mesmo sem o patrocínio de uma empresa do porte da Colgate-Palmolive a Guarujá irradiou centenas de novelas, entre as quais figuravam 15 textos de autoria de Gustavo Neves Filho : Nuvem Negra em Céu Azul, Cerra a Cortina do Passado, Quando Voltar a Primavera, O Grande Inimigo, Sonhamos Outra Vez, O Destino que Deus nos Deus, Terra Maldita, Também se Chora no Céu, Mocambo, A Vida Conta uma Estória, Maria e Sua Tragédia, O Homem de Negro, O Amor que não Morreu, O Cavaleiro da Rosa e A Caminho do Céu.

Na novela Mocambo, as senhoras e senhoritas da cidade tinham muito a comentar. Amor, ódio, estupro, mortes e um final feliz num ambiente do Brasil-escravocrata do século 19. Em 84 capítulos,o público acompanhou a história que envolveu Margarida, os médicos Eduardo e Fernando, e a escrava Liduína – eternamente apaixonada por Eduardo. Margarida e Eduardo tornaram-se noivos num enlace de interesses familiares.

A jovem Margarida, mesmo com o coração batendo forte por Fernando, aceitou desolada sua união a um outro homem, num tempo em que quem escolhia com quem seus filhos iriam se casar eram os pais. Desesperado com a situação, um dia Fernando invadiu o quarto de sua amada e, bêbado, forçou Margarida a fazer amor com ele. O noivo da mocinha, Eduardo, certo dia desapareceu na floresta e foi tido como morto. Com isso o que parecia impossível tornou-se realidade para os outros dois personagens : Margarida e Fernando casaram-se. Porém, Eduardo não estava morto. Ele foi mordido por uma cobra, passou mal e como consequência amputou uma perna. Este médico teve a sorte de ser encontrado pela escrava Liduína, que lhe contou a nova vida de Margarida. Magoado e sentindo-se traído, Eduardo, com a cumplicidade de Liduína, planejou dar um fim na sua ex-noiva. Ele pediu, então, para a escrava atrair Margarida até uma cachoeira, lugar ideal para sacramentar a sua vingança. Mas quem acabou morrendo foram Liduína e Eduardo, que caíram na cachoeira. Assim Fernando e a mocinha terminaram juntos no final da novela Mocambo. 


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