UMA EDUCADORA BRASILEIRA EM TIMOR-LESTE

O que faz um dos menores, mais novos e menos conhecidos paises do mundo num site de rádio? É que o rádio, também lá faz uma diferença enorme. A matéria chegou à redação indicada por Giane Severo – uma das sócias-fundadoras do Instituto Caros Ouvintes – e que sempre está de olho no nosso trabalho. Trata-se de uma entrevista de Dauro Veras com a professora Maria Inês Amarante e dedica 1/5 do texto à importância do rádio na educação dos timorenses. A matéria completa está no site relacionado abaixo. A seguir, o trecho que destacamos.
Da Redação

Que papel as rádios comunitárias podem ter na educação dos timorenses?
Pensamos em trabalhar o ensino de língua portuguesa pelo rádio, que cobre todo o território nacional e ainda não é muito usado para esta finalidade. Logo que os professores cubanos chegaram no não-formal para implantar o programa de alfabetização que está sendo adotado em muitos países, inclusive no Brasil, pensamos também que seria interessante conhecer as possibilidades de uma divulgação ampliada pelo rádio. Eles estudavam a possibilidade de preparar os professores a distância mesmo. Falei sobre isso em uma Conferência que a Unesco promoveu em Dili. E também participei de algumas bancas de avaliação de trabalhos de Licenciatura em Língua e Cultura Lusófonas na UNTL – Universidade Nacional de Timor-Leste. Eram os primeiros formandos depois da Independência. Professores que tiveram que parar os estudos em 1975 e que, 30 anos depois, estavam ali falando português, defendendo suas monografias. Fatos históricos.
O que sua pesquisa constatou sobre os meios de comunicação do país?
A minha pesquisa está apenas começando, mas já para se traçar um pequeno quadro da realidade dos meios de comunicação. Os currículos universitários de comunicação estão sendo implantados agora, de modo que é algo a ser planejado para o futuro, quando houver mais profissionais e estudiosos. Não existe uma indústria cultural em Timor-Leste. A rede de televisão não cobre todo o território – e mesmo que cobrisse, a população não teria condições de comprar aparelhos – e passa boa parte do tempo sem eletricidade. Eles recebem muitos produtos pirateados e baratos da Ásia, do Brasil ou dos Estados Unidos. Principalmente cassetes, CDs e DVDs de todo tipo, da China, da Índia, da Indonésia, em geral em inglês ou indonésio. Ouvem e cantam muita música brasileira nas rádios, transportes públicos, festas e reuniões sociais. Principalmente Roberto Carlos. Mas tem também nossos forrós machistas que chegaram por lá e nem sei se eles entendem tudo aquilo.
Para você ter uma idéia, 80% da população está concentrada na zona rural e nas cidades apenas 20%. E capital é sempre o lugar das novidades, de gente estrangeira que chega para trabalhar. No país todo, somente 30% das casas têm um aparelho de rádio e 10% possuem televisão, é bem pouco como recepção. Só existe uma emissora de televisão local, a TVTL, que possui cobertura limitada aos Distritos de Dili e Baukau, os mais importantes. Não podemos saber qual é o poder de penetração dessa emissora nascente. E a programação diária é quase que só informativa, nas duas línguas nacionais, o português e o tétum. Até há pouco tempo, havia programas em bahassa indonésio. Para cobrir o tempo de transmissão, ela passa programas e VTs cedidos pela televisão portuguesa. Às vezes parece que você está em Portugal e não em Timor.
Para quem pode pagar, existe a televisão via satélite, através de antena parabólica, que capta o mundo todo. Não existem editoras, os livros são importados. Mas em Dili havia 7 jornais diferentes em circulação, da imprensa oficial e privada, editados principalmente em tétum, malaio (bahassa indonésio) e português. Entre eles também um semanário em inglês que é distribuído gratuitamente para a comunidade internacional. O jornal bilíngüe de oposição (português-tétum) Lia Foun, que líamos muito, circulou por um curto período e, por falta de anunciantes e uma certa pressão, fechou.
O rádio é então a mídia mais popular e de mais fácil acesso?
Sim. Ele ajudou a fazer a história recente de Timor-Leste, pois servia à resistência. O invasor indonésio controlava a mídia oficial e perseguia essas rádios clandestinas. Uma rádio do movimento sobreviveu até o final de 1999. Hoje, ela serve ao público para divulgar músicas e notícias. Entre 2001-2003, organismos internacionais financiaram a instalação de estúdios e equipamentos de transmissão radiofônica comunitária em diversos Distritos e ofereceram capacitações aos comunicadores voluntários. Isso é um sonho que nem no Brasil conseguimos realizar. Mas, a manutenção dos equipamentos e a falta de pessoal prejudicam os serviços de transmissão.
Existem hoje em Timor-Leste, 16 emissoras comunitárias, emitindo em FM, que cobrem parte importante do território. Transmitem em língua tétum, bahasa indonésio e estão introduzindo o português lentamente em parte de sua programação. E há duas associações que apóiam estas rádios, uma delas com fundos norte-americanos e australianos.

Os parceiros são os Ministérios da Agricultura, Saúde e Educação. Há também rádios que emitem em inglês, emissoras de ondas médias e FM, uma católica, outra evangélica; uma Rádio livre e a RDP Internacional (Rádio Difusão Portuguesa). A emissora oficial, Rádio Timor Leste, pertence à RTTL. Um serviço da BBC foi inaugurado no ano passado para transmissões em português e inglês. Pela proximidade territorial, pode-se também ouvir emissoras estrangeiras em FM, como a Rádio Austrália.
Visitei uma dessas rádios comunitárias, a Rádio Café, no Distrito de Ermera e percebi uma grande participação da juventude na programação. Não consegui ouvir um programa gravado, mas lá há alunos de uma escola fazendo até radioteatro sobre saúde, higiene, campanhas de aleitamento materno, contra a violência familiar. O diretor é artista plástico e, além de ensinar os jovens, ele decora a rádio com lindos quadros. Quando a gente vê esse idealismo e empenho, tem uma idéia do potencial daquele povo que precisa ser incentivado e desenvolvido.
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