Trio de Ouro, uma lembrança realmente “áurea”

Quando por volta de 1939 o “speaker” César Ladeira anunciou em um programa de auditório da Rádio Mayrink Veiga, no Rio de Janeiro, que aqueles três integrantes de um conjunto vocal formavam no palco, com suas vozes, um verdadeiro “trio de ouro”, estava lançado oficialmente o nome do grupo que ficaria na história do cancioneiro do Brasil como um dos mais sonoros e aplaudidos: o Trio de Ouro!

Na verdade, o palco da antiga Mayrink abrigava naquele momento um compositor e cantor chamado Herivelto Martins, que antes havia formado com Francisco Sena e depois, quando este morreu, com Nilo Chagas, um dueto batizado de Dupla Preto e Branco, alusão à epiderme dos seus integrantes. Ao lado de Herivelto estavam uma cantora iniciante chamada Dalva de Oliveira e o companheiro de duetos, Nilo Chagas. Era o primeiro trio vocal brasileiro onde se sobressaia uma voz feminina. O sucesso deste trio foi imediato e em 1942 Herivelto, Dalva e Nilo passaram a integrar o elenco musical da Rádio Nacional, que já despontava como o melhor prefixo radiofônico do pais.

Dalva e Herivelto casaram, mas a medida em que o sucesso chegava, eles se desentendiam, tanto artística como maritalmente. Eram brigas homéricas que a imprensa explorava a exaustão. Tanto assim que o Trio de Ouro teve várias formações: a primeira com Dalva, Herivelto e Nilo; a segunda, com Herivelto, Noemi Cavalcanti e Nilo; a terceira formação trazia Herivelto, Raul Sampaio e Lourdes Bittencourt, esposa de Nelson Gonçalves. Aí nem Dalva, nem Nilo Chagas estavam mais integrando o trio.
A última e definitiva formação trazia Herivelto, Raul Sampaio e Shirley Dom. A despedida deste Trio de Ouro aconteceu em 1992, quando Herivelto completou 80 anos e Ricardo Cravo Albin organizou uma homenagem para ele em sua casa.
Quem quiser saber um pouco mais desta história de amor e ódio, deve sintonizar a Globo esta semana para assistir a minissérie “Dalva e Herivelto”.

Reminiscências da infância

Quando eu era garotinho, ouvia muito uma tia minha contar sobre o que ela via no Rio, durante programas de auditório de rádio que ia assistir com as amigas.
Tia Nahyde fora morar na antiga capital da República nos anos 30. Era chapeleira, numa época em que 99% das mulheres usavam chapéus no Brasil. Instalou seu atelier em Copacabana e vivenciou a era de ouro do rádio carioca.

Ela contava que era muito estranho ver o Trio de Ouro cantando no palco e assistir alguns safanões que Herivelto dava na companheira, em frente do público, como se fosse um maestro a orientá-la, aos empurrões… Ficou a marca de que devia ser em casa um homem bruto, sem escrúpulos…
O desentendimento entre eles foi comprovado com a separação, que logo veio. O filho do casal, depois também cantor, adotou o nome artístico de Peri Ribeiro.

Minha juventude como locutor

Um dia, lá pelos anos 50, Peri Ribeiro, já um ídolo da juventude, veio apresentar-se em Blumenau e o seu show, que aconteceu no palco do Cine Busch, foi transmitido pela PRC-4 Rádio Clube de Blumenau, onde eu era locutor. Tivemos, então, por força da profissão, um breve relacionamento de amizade, que ficou na minha lembrança
.
Também naqueles anos de rádio, por volta de 1956, 57, conheci pessoalmente Nilo Chagas.
Um senhor preto, alto, forte, chegou no escritório da emissora e disse que queria apresentar um programa de serestas; que ele iria conseguir patrocinadores e queria saber quanto a rádio  cobraria por meia hora, a noite. Apresentou-se como o titular de um duo chamado Dupla Ouro e Prata. Se a memória não me falha, era este o nome.

Coube a mim apresentar o programa.. A sonoridade de Nilo Chagas, e de uma cantora que o acompanhava, deixaram claro que aquelas vozes, aquela sonoridade,  faziam lembrar, e muito, o Trio de Ouro original. Não era uma imitação, era um cantar igual, só que em duas vozes.

Ao final do programa, os dois ficaram conversando conosco no estúdio e quando encerramos as transmissões, às 23 horas, eu os acompanhei até o antigo Hotel Pauli, que ficava perto e era bem modesto, isto porque Nilo me pediu que indicasse um hotel baratinho…

Depois, nunca mais ouvi falar de Nilo Chagas e da continuidade de sua carreira artística.

Talvez agora, quando a Rede Globo está lançando a minissérie “Dalva e Herivelto”, alguns pesquisadores animem-se a ir mais longe e descubram mais particularidades das vidas destes personagens, que ajudaram a construir a história musical do Brasil.

Quem sabe, o que escrevi aqui sirva para incentivar alguém a “desentocar” lembranças!

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