Terei saudade da vida? Parte 2

Ah! Quintana que se foi tão cedo, aos cem anos de idade: amigos, não consultem os relógios quando um dia em me for de vossas vidas, em seus fúteis problemas… Tão perdidos dias, que até parecem maus uns necrológios porque o tempo é uma invenção da morte. Não conhece a vida, essa tal de morte, a verdadeira vida, em que basta um momento de poesia para nos dar a eternidade inteira. Inteira, sim, porque essa vida eterna somente por si mesma é dividida, não cabe a cada qual, uma porção. E os anjos entreolham-se espantados quando alguém – ao voltar a si da vida acaso lhes perguntam que horas são…

Mas não é por aí que eu queria ir. Queria saber por que existem tantas pessoas que ainda sonham não compreendendo porque famílias inteiras se dissolvem nas fumaças das grandes chaminés das grandes cidades, quando juntinhos era bem melhor.

Por que, Senhor, se aquela casa era tão grande, hoje não cabe uma pessoa que ainda sonha, que tenta cantar, que tenta escrever, que tenta viver os finalzinhos dos capítulos mal escritos da sua novela que não chegou a Best Seller.

Claro que quero falar da velhice. Da velhice que todos cantam belezas, de amparo constante, de famílias ainda reunidas em torno do fogão de lenha ouvindo as suas histórias tão estapafúrdias.

Não. Não é dessa vida, nem desses privilegiados velhos, desses felizes velhos que não são agredidos, cujas aposentadorias não lhes são tomadas até por filhos e netos que precisam consertar uma goteira.

– Vovô… No final do mês eu devolvo.

Nunca vi devolver. Mas esse é outro capítulo destes escritos e vai lê-los quem assim o desejar. Vai lê-los quem foi ao banco com a sua carteirinha de aposentado e tirou trinta por cento. Dinheiro que vai fazer falta na compra dos seus comprimidos obrigatórios para garantir uma sobrevida.

Tem dois caminhos quando se envelhece: um que pouca gente tem, descrito há pouco. E, outro, bem diferente daquilo que está escrito no Estatuto do Idoso. Aquele que está escrito na pele de cada um, na forme de cada, no abandono de cada um.

Não estou fazendo exercícios com palavras de efeito, de frases inventadas de histórias que ninguém conhece. Estou falando de coisas que vi, apalpei, gritei ou chorei.

Alguns têm a felicidade de encontrar meios de praticar, ainda, ações que fazem bem ao coração.

Sei de um comunicador incansável chamado de J. J. Duran: inspirado numa passagem bíblica adotou 16 crianças e, hoje, aos 80 e poucos anos, continua escrevendo suas matérias e lutando pela saúde. Segundo ele, adotar crianças foi só uma resposta da passagem bíblica, onde Jesus disse aos discípulos: deixem as crianças chegarem a mim.

Desse modo recebeu os filhos dos outros e com muito carinho educou-os com seu amor, evitando assim que eles fossem atingidos pela violência e pelo abandono.

Outros fazem outras coisas. Quando a velhice chega, para alguns uma nova etapa da vida começa e com ela rastros de uma vida cheia de habilidades, ações e fidelidade sem perder a agilidade, na medida do possível.

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