Ouro, incenso, mirra… e amor

Guilherme, Cecília e Adilson Luiz (*)
Tempos atrás, seguindo aquela infantilidade que caracteriza os pais em épocas natalinas, perguntei a meu filho se ele já havia feito seu pedido para o Papai Noel: Confesso que fiquei meio frustrado quando ele respondeu, sorrindo, que Papai Noel não existia e que eu sabia disso!Lembrei do Natal de 1968, quando – aos oitos anos – meu pai, com todo o cuidado possível, deu-me a trágica notícia: ” Papai Noel não existe, filho!”. Pouco depois, assistindo a um evento religioso, fui confrontado com outra péssima notícia: “Preparem-se, pois o mundo vai acabar!”. Para entornar de vez, várias pessoas, de várias religiões, também contribuíram para aumentar minha angústia de criança, falando – mesmo sem eu perguntar – mais de castigo e sofrimento, do que de amor e redenção, e condicionando minha “salvação” à compra de livros, mudança de religião e a negar tudo o que hoje aceitam (esportes, televisão etc.).
O curioso é que a maioria dessas pessoas, que também anunciavam “a boa nova”, tinha a expressão pálida e triste, parecendo não acreditar no que falavam, repetindo sempre o mesmo discurso. Talvez, devessem perguntar a si próprias, antes de iniciar suas pregações: “Sou, realmente, feliz e quero repartir essa felicidade com todos; ou preciso ver mais gente fazendo o que me obrigam a fazer, sem questionamento, para me sentir conformado e confortado?”.
Apavorado com a súbita transformação de meu mundo infantil – antes calmo e feliz – e tentando descobrir se eu tinha, realmente, alguma culpa naquilo tudo, fui para casa, abracei minha família e passei umas boas semanas olhando para o céu, à noite, esperando que os “Cavaleiros do Apocalipse” surgissem dentre relâmpagos, para iniciar o estrago, e entidades infernais, como as dos quadros da casa de meus avôs paternos, viessem buscar as almas dos pecadores. E eu nem sabia o que era isso! Só aprendi depois, quanto comecei a comparar os discursos que ouvia com a prática de quem os fazia.
Deveria ser proibido dar más notícias para crianças! Afinal, se Jesus pregava o amor e o perdão, e dizia aos que censuravam o assédio festivo e informal dos meninos e meninas que o procuravam, que qualquer um que não recebesse o reino de Deus como um deles não faria jus a ele; porque lhes tirar o brilho e a esperança da inocência, com frustrações, rancores, sadismo, viagens de ego ou desejos de grandeza e ascensão social, típicos de adultos neuróticos ou mal-resolvidos?
Pois é! Tem gente que prefere o temor, que escraviza, ao amor, que liberta; em vez de celebrar a vida, pensa na morte; vê malícia em tudo; e suprime a espontaneidade do gesto pela métrica hermética da retórica!
Meu Deus! O que há nisso, a não ser uma enorme e pesada carga de preconceito e falta de amor ao próximo e a Seu maior dom: a vida?
Meu pai, quando me deu a “má notícia” sobre Papai Noel, o fez – hoje eu compreendo – em meio aos tempos difíceis da Ditadura, com o patrulhamento e a ameaça de desemprego pairando sobre a cabeça de várias famílias. Tinha receio de não poder sustentar minha fantasia e a de meus irmãos por muito tempo: ele como operário, trabalhando em dois empregos, doze horas por dia, e minha mãe, como costureira e dona de casa, ininterruptamente.
Para quem trazia, como ambos, traumas de infância sobre o tema (sapatinhos roubados da janela e a única boneca desfeita pela chuva), eles já fizeram muito em não repassar suas frustrações aos filhos, embora seus rostos demonstrem a proverbial melancolia lusitana, legítima ou herdada. Em vez disso ensinaram-nos humildade, respeito para com as opiniões e crenças dos outros, e coragem para viver a vida honestamente e ter opinião própria. Isto compensou, largamente, minha temporária frustração natalina e permitiu que eu e meus irmãos mais velhos fossemos o “Papai Noel” de nossas irmãs temporãs, deixando que o tempo, sem pressa, desfizesse a fantasia.
Minha mulher e meu filho adoram – “êta” verbo bem empregado! – o Natal e incorporam seu espírito cristão e infantil, não apenas nessa época, mas durante todo o ano! Como eles existem várias pessoas no mundo e é sua presença que nos dá esperança de tempos melhores, com promessas de luz e não ameaças de trevas.
Para dizer a verdade, talvez acredite mais em Papai Noel, hoje, do que naquela época! Creio nele, agora, como um dos reis magos, que seguindo a luz de uma fé universal, independente de suas religiões, levaram ouro, incenso e mirra para um rei que encontraram em uma manjedoura. Poderiam ter questionado sua condição social ou crença, mas, em vez disso, adoraram-no humildemente! A fé e a alegria que os uniu triunfou sobre as diferenças que, por pura estupidez, poderiam afastá-los entre si e do menino!
Assim foi e assim é que, ainda hoje, cada criança que nasce é um salvador do mundo, ao menos até que nossos preconceitos e intolerâncias destruam essa pureza natural.
Então, o Natal deve ser um tempo de superação de mágoas e barreiras; de confraternização e doação, por amor e pelo bem do próximo. Época de reassumir o compromisso com a vida!  Esse foi o principal exemplo e mandamento que Cristo nos deixou! Amém!
Portanto, sem preconceitos, imposições, discussões sobre autenticidade de data ou maneira “correta” de celebrá-la, e princípios ambíguos – que só servem para dividir e rivalizar – ofereçamos, como crianças, junto com o ouro, o incenso e a mirra, o supremo presente de desejarmos a todos os filhos do mesmo Deus e irmãos no mesmo Cristo, um Feliz Natal!
“Taí” uma data que vale a pena comemorar várias vezes! Ouça textos do autor em: www.carosouvintes.org.br (Rádio Ativa / Comportamento) | Caso queira receber gratuitamente os livros digitais: Sobre Almas e Pilhas, Dest’Arte e Claras Visões, basta solicitar pelos e-mails: [email protected] e [email protected] | Conheça as músicas do autor em: br.youtube.com/adilson59 | (13) 97723538 | Santos – SP

(*) Como a coluna hoje é assinada pela família o autor do texto ficou dispensado da narração e da música-tema.

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