Os rouxinóis sempre retornam

Ao entardecer, o sol avermelhado parecia imensa cortina de ribalta pronta a ser descerrada. Os derradeiros fulgores refletiam nas águas da então romântica lagoa, convidando “seu” Natálio a abraçar carinhosamente seu violão e cantar para dois irrequietos meninos sedentos de arte…
Por Agilmar Machado

Assim foram os dias naquela exígua vila, sem outra novidade que não fosse o cotidiano modorrento do tempo, o dia-a-dia rotineiro do trabalho, dos eventuais bailes e festas religiosas – e somente isso – para quebrar a monotonia.
Talvez essa mesma nostalgia, emanada de uma vida travada pelo tempo
que teimava em não andar, era o motivo inspirador de “seu” Natálio:
“criar” seu mundo familiar banhado pelo toque suave das plangentes cordas do violão.
Dois meninos, desses comuns que freqüentam escola pública e deslancham suas energias nas coisas típicas do interior, eram os únicos “habitues” da platéia familiar do velho mestre do pinho… E foi graças à inspiração dos bemóis daquele velho instrumento que a pequena dupla foi enveredando para a arte musical.
As décadas de 1950/1960 encantavam a todos pela música e canções brasileiras, mas tinham sabor especial as que emanavam da inspiração de famosos  compositores latino-americanos de idioma espanhol: o imortal bolero. Eram ídolos imbatíveis nesse gênero, Gregório Barrios, Chucho Martinez Gil e Trio Los Panchos.
Após relativa experiência e já encaminhados à vida pelo “seu” Natálio, eis que esses já então moços arrumaram as modestas malas com o necessário para suas subsistências e resolveram alçar vôo mais ousado!
O mercado artístico de São Paulo fervilhava. A disputa em estúdios de gravação, agentes, compositores, rádios, discotecários e pessoas influentes formavam um torvelinho que, de início, os deixou meio zonzos. São Paulo, a grande São Paulo tão decantada, era – na verdade – uma “praça de guerra”, com muitos “contendores” em busca de um lugar ao sol.
Procuraram uma pensão de preço módico e que pudesse satisfazer suas necessidades básicas para comer e dormir. E acharam uma onde já conheceram gente que cheirava a arte e que eles já admiravam de muito antes: o velho compositor paraguaio Hermínio Jimenez, autor de várias de famosas guarânias, de quem conquistaram a sólida amizade, nesta altura altamente válida para seus propósitos.
E os meninos a quem o “seu” Natálio dera o passaporte para a vida independente não decepcionaram: após vitórias e percalços, admiração, aplausos e tropeços, acabaram impondo a sua arte, o dom sublime com que o Supremo Arquiteto os dotou, formando a dupla que neste 2008 completa exatos 50 anos de atuação.
Mas como terminar uma homenagem a duas tão marcantes personalidades, cantores, artistas de renome, compositores e músicos inspirados, sem dizer quem são e sem ouvi-los?
Tão queridos são, que no dia 31 de maio próximo receberão comovente homenagem na sede daquele que é seu torrão natal, Sombrio.
Queridos leitores, eu vos apresento, com orgulho de ser deles conterrâneo e amigo desde sempre: ADÃO e ANTONINHO VIGNALE!
Nada mais, nada menos que: LOS VIÑALES, cujas obras jamais deixaram de ternamente temperar com muita ALMA, CORAZÓN Y VIDA!
… Eles retornaram às origens. Do “seu” Natálio – hoje na eternidade -, resta a saudade.
 Na sua sapiência, entretanto, olhando o comportamento dos pássaros canoros da orla da velha lagoa, ele intimamente sabia que…OS ROUXINÓIS SEMPRE RETORNAM…
E deve estar sorrindo neste momento, onde quer que esteja…

[ ALMA, CORAZÓN Y VIDA ]

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