O rádio do meu filho e outras histórias

Meu filho pediu um rádio de aniversário. Isso mesmo, não foi um videogame. Terminamos o almoço de domingo e corremos para casa para ver o Fla-Flu. Por Soares Júnior*

Eu corri e liguei a televisão, ele ligou o rádio. Fiquei orgulhoso e espantado com a resposta: “quero ouvir o jogo”.  Enquanto a gente ouve rádio, a mente constrói várias histórias e ele adora criar histórias.

Peço perdão pela demora entre um post e outro. Terminou o verão e fiquei um pouco mais triste. Além disso começou a temporada de fungadas, tosse e espirros aqui em casa. Até setembro acontece um revezamento de narizes escorrendo. Agora, por exemplo, é a minha vez.

Andar na rua sempre é um combustível para mim. Desde pequeno gosto de inventar histórias andando pela rua. Mais que observar, gosto de interpretar expressões e jeitos de andar. Chego a concluir fragmentos de conversa. Acho que meu filho tem a quem puxar (expressão batida, mas escrita com indisfarçável orgulho).

Cena carioca observada neste chuvosos e calorento outono. Esquina das ruas Coelho Neto e Pinheiro Machado, em frente ao campo do Fluminense um homem vende amendoim torradinho no sinal. Como diria meu amigo Edson Mauro, o detalhe é que vale e neste caso, o detalhe é que ele traja um alinhado terno bege. A imagem é tudo.

Outra cena que me chamou atenção. Parado no sinal da Jardim Botânico com Maria Angélica vejo três cachorros em desabalada carreira, com as coleiras ao vento. Logo depois vem um homem tentando alcança-los. Essa é uma daquelas histórias que a gente observa na rua e não sabe o fim. Como tenho um cachorro, gostaria que o final tivesse o bípede abraçado aos três cães.

Cachorros me lembram uma história que não é minha e por isso não darei nomes. Repórter entrevista presidente da Cedae ao vivo. Nisso, um desinibido cachorro que passeava na Lagoa resolve fazer da perna da respeitável profissional um poste. Na maior classe ela encerra a entrevista e dá um jeito de secar a barra da calça.

Esse texto foi um exercício de desenferrujamento (neologismo). Melhor do que dizer que fiquei olhando para o papel e escrever sobre isso. Isto é uma pequena idiossincrasia (consegui usar esta palavra).

No mais, que meu filho continue ouvindo rádio e espalhe entre os amiguinhos esse hábito.

*Jornalista desde 1996. Depois de passagens pela TV Bandeirantes e Rádio Tupi ingressou na rádio CBN. Durante os 9 anos no Sistema Globo de Rádio, ele apresentou e redigiu O Globo no Ar, fez cobertura aérea de trânsito, ancorou e foi chefe de reportagem. Soares Júnior é professor da PUC e da Escola de Rádio.

Fonte: http://www.sidneyrezende.com/noticia/35640+o+radio+do+meu+filho+e+outras+historias

1 responder
  1. j.Pimentel says:

    Usar a palavra é um dom, mesmo que nos iniba o papel ou a tela do computador. O radialista, talvez, seja o profissional que mais precise desse dom porque, ao acender a luz NO AR ele precisa de inteligência, conteúdo intelectual, dominio da língua e do tema, além de especial talento para repassar tudo isso ao mesmo tempo com simpatia e jeito.O rádio do seu filho é a caixinha de imaginação, o sonho e a realidade num só momento, como o inesperado cão ao pé do repórter, ou o inusitado vendedor de amendoim de terno bege.No ar, somos como aquele bípede atrás dos cachorros.Sabemos o que queremos e o que buscamos, só não temos absoluta certeza de que vamos conseguir alcançar. Ao final seremos abraçados pelas sensações que conseguimos produzir em nossos ouvintes.

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