O nascimento da televisão do Paraná – 21

A disponibilidade de apenas duas câmeras para todas as necessidades era uma preocupação constante, pois a qualquer momento, poderíamos ter problemas. E foi o que aconteceu durante uma apresentação teleteatral. Uma das câmeras pifou e tivemos que concluir o programa com a que restou, fazendo as tomadas de maneira totalmente diferente do que fora ensaiado.

Essa experiência acabou inspirando o uso de uma nova técnica e nos impulsionou a alterar a forma das encenações de teleteatro. A partir daquele dia, o programa passou a chamar-se Uma Câmera em Suspense. Ou seja, do começo ao fim, todas as tomadas de cena eram feitas com apenas uma câmera e isso nos permitiu desenvolver um processo de trabalho perfeito nas transposições de cena, ao vivo, equivalente ao que hoje se faz com a edição em VT. A direção ficava ao meu cargo e a câmera era operada com competência pelo Abílio Bastos.

Para melhor exemplificar, em um dos capítulos, a câmera focalizava um casal que, numa noite de dezembro, aguardava o exato momento de comemorar a passagem de ano. A mulher ficara paralítica num acidente de carro e vivia numa cadeira de rodas, o que lhe causava descontentamento e revolta. Isso motivou o marido a tomar uma atitude condenável e egoísta. Ele estava somente de camisa, sem paletó, como normalmente costuma-se ficar dentro de casa. Ao aproximar da meia noite, apanha duas taças e as enche de champanhe. Ficou com uma taça e ofereceu a outra para a mulher. Na taça dela ele colocou uma porção de veneno, sem que ela percebesse.

A câmera focalizava ambos em médio, enquanto brindam e cada u serve o conteúdo de sua taça. Em seguida ela sai e vai de encontro à lente da câmera e retorna, em aproximadamente três segundos, descortinando mesmo plano do foco anterior. No retorno, ele já está vestindo traje completo, sobre o qual tem uma capa de chuva e chapéu, ambos encharcados. Ela caída no chão, morta. A trucagem insinuava que a cena tivera andamento como se houvesse acontecido um corte, voltando depois, mas, na realidade, tudo fora uma seqüência só, bem produzida e executada.

Em cada programa ou situação, éramos obrigados a encontrar uma maneira de driblar as dificuldades para colocar no ar um programa o mais atraente possível.
Quinta-feira era para nós o dia mais difícil da semana, pela seqüência de atividades. A maior parte do horário nobre era ocupada por programas ao vivo e quase todos com muita produção. Iniciavam às 18 horas, com Tevelândia, que se compunha de vários pequenos quadros, com um determinado espaço para cada um, durante os seus sessenta minutos, sem contar os diversos comerciais ao vivo. Em seguida era apresentado um boletim esportivo e o principal noticiário, o Repórter Real. Após, entrava um seriado filmado de trinta minutos e o programa Jantando com as Estrelas.

Para a realização desse programa era precisa ser retirado do estúdio duto o que havia sido usado até então nos programas anteriores, e montado um novo cenário, com uma mesa para acomodar dez a quinze pessoas, que eram semanalmente convidadas. Normalmente, os convidados desenvolviam alguma atividade que seria o assunto da semana. Havia os números musicais. E o jantar era servido ao vivo e vinham sempre de um dos melhores restaurantes da cidade.

Em um canto do estúdio era montado o set para as apresentações artísticas procedentes de São Paulo. Noutro, o conjunto musical que dava acompanhamento à parte musical, e outros três eram reservados para os patrocinadores. Isso resultava na quase total impossibilidade de movimentação das câmeras, sobretudo em função da variedade de detalhes que deveriam ser captados.

Eram entrevistas, entremeadas com música, enquanto servia-se o jantar para os convidados. Além disso, todos os panelões de luz precisavam ser acesos, gerando um calor insuportável, desesperador, que beirava o de uma sauna. O desconforto era total e extremamente desgastante, motivando queixas, inclusive d parte dos convidados.
Diante disso, pleiteamos do doutor Nagibe Chede outro local para os estúdios. Aquele em que iniciáramos os nossos trabalhos e imaginávamos poder ainda usar por muito tempo, chegara ao seu limite. Ele, finalmente, concordou. E foi iniciada a procura de outro que pudesse acomodar satisfatoriamente uma emissora de TV, sem as dificuldades de então.

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