O mundo encantado do disco – 1

Tem suscitado muita polêmica acirrada e eventuais opiniões adversas o lançamento dos primeiros discos no Brasil. O que de verdade se sabe é que Fred Figner, nascido em Milesko u Tabor, Boêmia, atual República Tcheca, foi o fundador da legendária Casa Edison, do Rio de Janeiro. Ele montou o estabelecimento no ano de 1902, na Rua do Ouvidor, 107, na então Capital Federal. Começou seu negócio revendendo variados artigos. O fonógrafo, que conheceria somente sete anos depois, em San Diego, Texas EUA e, mesmo sem jamais ouvir o som do aparelho até aquele momento, aguçou seu espírito refinado de empreendedor. Associou-se com um seu cunhado para adquiri-lo.

Nessa mesma oportunidade viu e adquiriu uma relativa quantidade de cilindros em branco, no intuito de usá-los para fins de gravação. Por mais de um ano andou pelos países sul-americanos, sondando a possibilidade de se estabelecer definitivamente.  Foi quando optou pelo Brasil.

No início os artigos que oferecia à venda eram os mais variados e atrativos para aquele tempo: refrigeradores (certamente os primeiros e muitos à querosene), máquinas de escrever de intrincado manejo, porém modernas para a época, além dos gramofones, aparelho que eventualmente se encontra, ainda hoje, em museus e com alguns colecionadores.

O som era captado do sulco do disco (através da agulha, primaria e substituível a cada duas ou três vezes de uso, pois gastavam rapidamente). A vibração era transmitida, em forma de som, para uma imensa bocarra, geralmente em forma de um grande “lírio”, através da qual os ouvintes se deliciavam. Como os velhos relógios despertadores, eram movidos à corda (um caracol em espiral confeccionado em aço que requeria a sucessiva girada de manivela para manter o “prato”, sobre o qual estava rodando o disco, sempre girando em velocidade real de 78rpm).

Aqui cabe um parêntesis para chamar a atenção dos aficionados do tema para uma particularidade bastante curiosa (mas que até tinha certa lógica): os primeiros discos eram gravados e prensados em uma só face, pois entendia-se que, se utilizassem os dois lados uma gravação poderia prejudicar a outra. No lado oposto havia (prensado também) uns arabescos de tradução histórica indefinida.

O nome do estabelecimento, não é difícil deduzir, foi adotado em homenagem ao cientista americano, Thomaz A. Edison.

Inicialmente os cilindros recebiam a gravação e eram remetidos ao exterior para terem seu conteúdo prensado em cera.

A primeira gravação registrada (assim mesmo passível de polêmica) teria sido “Isto é bom”, gravado então por um festejado cantor da época que usava o pseudônimo “Baiano”.

Em minha coleção de relíquias do passado, possuo pelo menos dez temas do cantor Baiano: “A conquista do ar”, “A espingarda”, “A pombinha de Lulu”, “Ai amor”, “Lundu do Baiano”, “O angu do Barão”, “Meu boi morreu” (clássico), “Papagaio come milho” (clássico – expressão usada até hoje, aduzindo-se “…e o periquito leva a fama”),  “Pelo telefone” (este muito polêmico, pois a história registra como o primeiro samba gravado no Brasil), e “Regente de orquestra”.  “Isso é bom”, que é causa principal da polêmica contrapondo-se ao “Pelo telefone”, eu também o possuo, somente que na voz de Eduardo das Neves, destacado cantor do início do século XX. Este último (Pelo telefone) eu tenho no original do cantor Baiano. Particularmente, opto pelo último como primeiro samba gravado no Brasil pela Casa Edison. Pelo menos na minha trajetória pesquisando temas ligados à comunicação, sempre tive Pelo telefone* nessa privilegiada posição.

* Samba de Donga e Mauro de Almeida gravado em 1917 pela Casa Edison do Rio de Janeiro com selo Odeon.

 

1 responder
  1. Tzinha Azeredo says:

    O Mundo Encantado do Disco nos transmite o conhecimento sobre a história do fonógrafo
    e da origem do disco. É uma pesquisa muito refinada, rebuscando o passado com datas e
    locais especificados.
    Parabéns ao autor Agilmar Machado

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