O kamikaze & o homem-bomba

selo-apontamentosÉ fatal: basta um maluco qualquer, em qualquer parte do mundo, fazer qualquer provocação que parte do mundo muçulmano se convulsiona em termos que, para nós, os pecadores ocidentais, parece o fim do mundo. É outro motivo de angustia, mesmo estando longe. Foi assim com as polêmicas caricaturas do jornal dinamarquês Jyllands-Posten sobre Maomé em 30 de Setembro de 2005, que satirizavam a figura do profeta e é agora com o cineasta estadunidense com seu filme tido como de baixa categoria e vai ser assim enquanto as motivações de hoje não forem superadas. Não é fácil entender o fenômeno com profundidade, pois acho que agora a crise econômica também pesa. Alguns tópicos, porém, são possíveis. Um deles, o mais óbvio, é que, nessas ocasiões, o antiamericanismo barato aflora de modo mais primário e nos cega.

Para quem acredita que as reações dos malucos de lá só se destinam a abater os Estados Unidos é bom recordar a frase de Osama Bin Laden após os aviões liquidarem o World Trade Center: “Os valores da civilização ocidental sob a liderança da América foram destruídos. Aquelas impressionantes torres simbólicas que falam de liberdade, direitos civis e humanos foram destruídos. Desapareceram na fumaça”.

Outro aspecto: as reações ensandecidas de queimar símbolos e assassinar pessoas que representam o demônio (ou seja, instalações americanas e cidadãos americanos) é alimento nutritivo para os interesses de quem governa com mão de ferro. Lembro-me da emoção que tomou conta de mim quando vi queimar (no fogo vermelho da purificação) a primeira bandeira dos imperialistas. Entendeu, cara-pálida?

O processo de fanatização é mais simples do que se imagina. Basta botar goela abaixo do cidadão (melhor é iniciar o processo no berço) uma verdade incontestável (Deus exige?), determinar recompensa extraordinária (dezenas de virgens com lábios de mel) para quem segui-la ao pé da letra (mesmo que seja na base do faça o digo, não o que faço) e escolher um inimigo grandão, quanto maior, melhor (no caso os EE.UU, ou melhor, o ocidente). Ai está a receita para o homem-bomba (já tiveram noticia de algum aiatolá-bomba?).

E isso tudo continuará e inclusive se exacerbar enquanto nessa parte do oriente não for possível, ao devoto, fazer distinção entre política, economia, ciência e religião. Essa visão homogeneizada, pasteurizada, ou seja, fazer da sociedade e do cidadão uma coisa só (mistura de coisas distintas que se torna algo explosivo), é traço comum nos estados totalitários: Alemanha de Hitler, Itália de Mussolini, Japão de antes da II Guerra, China de Mao, Rússia de Stálin, Cuba de Fidel, Coréia do Norte dos Kim…

Um lado esperançoso desses acontecimentos está no fato de que as coisas, por mais trágicas que pareçam, podem mudar. Lembram dos kamikazes? Os pilotos de caça e os homens-torpedo do Japão? Pois é, os japoneses, que odiavam tudo o que era do ocidente e se matavam como moscas na esperança de liquidarem o demônico construído em suas mentes por seus lideres e intelectuais, superaram essa cultura da morte e se tornaram exemplo de paz para todos. Isso pode acontecer nessa parte do oriente, com os povos de lá viverem como desejam, mas aceitando as diferenças? É o que esperamos.

Ivaldino Tasca, jornalista | [email protected]

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