O Jobe, a Conceição e a Ponte Hercílio Luz

O seo Deba era o poderoso “Dr. Aderbal” a velha raposa, o mandachuva da Província.

O Jobe e a Conceição eram como a corda e caçamba, o Romeu e a Julieta, o Abelardo e a Heloísa, a Nina e o Gustavo, a Minerva e o Joaquim. Inseparáveis. Estavam sempre juntos. Moravam numa casinha muito pobre, lá pros lados das salgas de pescado, embaixo da Ponte. Do Jobe e da Conceição eu me lembro bem. Almoçavam todos os dias no Mercado Público.  Morar embaixo da Ponte tinha, naquele tempo, um significado diferente de hoje. Significava morar lá para os lados do Continente, na beira da praia, próximo dos pilares de sustentação da cabeceira da Ponte.  Era morada de gente pobre, sem dúvida, mas de gente trabalhadora, que aqueles eram outros tempos.

A Ponte também não era uma ponte qualquer e nem uma entre outras, coisa que, aliás, para quem é daqui, esta Ponte jamais será. Ela era a única ponte desta Capital provinciana, uma obra de arte a ligar a Ilha ao resto do mundo, daí porque a gente se referia a ela apenas como a Ponte.

Só com a construção da segunda ponte é que começamos a chamá-la de Ponte Velha para diferenciá-la da Ponte Nova, feita de concreto. Eficiente, pragmática, cartesiana e feia. Antes disso só tinha ela e por ali transitavam todos, de carro, de ônibus ou a pé. E isso é o que fazia, diariamente Aurelina, aquela que um dia viria a ser minha mãe.

Quando jovem, ela atravessava a Ponte a pé, a caminho do trabalho na Fábrica de Bordados Hoepcke, onde, moça bonita e caprichosa, recortava os bordados que iam adornar os enxovais das moças de família do Rio de Janeiro e outras cidades brasileiras.

Diz ela que encontrava o Jobe na travessia da Ponte todos os dias. Na época ele ainda não tinha a Conceição – mas já tava aluado -, e que ele dizia assim: – Ô galega! Eu gosto de ti! Agora eu vou melhorar de vida, que o seo Deba vai me dar um aumento e aí eu vou casar contigo. O seo Deba era o poderoso “Dr. Aderbal” a velha raposa, o mandachuva da Província.

Não sei se ele, afinal, ganhou o tal do aumento. O que sei é que quem casou com a galega foi o Lourival, meu pai. O Jobe ficou com a Conceição e foram morar numa casinha debaixo da Ponte. Todos os dias os dois atravessavam a Ponte a pé. Iam almoçar no Mercado Público onde pediam um prato feito e dôj galfo. Comiam juntos, no mesmo prato, em comunhão.

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