O folgado do Ipiranga

Publicado em: 05/12/2013

Raimundo era folgado e assunto encerrado. Sujeito de estatura alta e aparência rude não parecia homem de muitos amigos. Em casa mal chegava e as ordens já passava. “Baixem o volume desse rádio”, mas se o assunto o interessava, “aumentem já esse volume”. “Tirem já o lixo”. “Por que ainda tem louça na pia?” “Raimundinho me traga um copo de água, e gelada”. “Alguém me alcance uma toalha de banho, e rápido”.

Raimundo pedia tudo para todo mundo, o bairro Ipiranga inteiro sabia disso. Se fosse um rei de verdade até faria algumas coisas sozinho, mas não o Raimundo. A mania de dar ordens e querer que se fizessem as coisas a sua maneira era levada até as ruas, até com desconhecidos. Pedia favores a qualquer um. Se é que alguém havia lhe apresentado um tal de “por favor”, ele havia esquecido. Certo dia Raimundo agrediu um vizinho por conta de brigas entre seus cachorros. O vizinho foi fazer um BO. A denúncia era grave, tinha até testemunhas. Raimundo olhou para um menino na rua e disse para ele ver se o tal vizinho não queria que lhe chamassem um táxi, disse que sangrando e nervoso daquele jeito ir de ônibus não seria boa ideia.

Raimundo pensou em “esfriar” a cabeça e entrou no bar do seu Peruca. Era sábado pelo meio da manhã. Dia quente e bonito. Raimundo pediu uma cerveja bem gelada e começou aquela conversa de sempre que parece ter um rumo, mas não leva a lugar nenhum. Avaí sobe, Figueira desce, Criciúma e Joinville vão mesmo ou morrem na praia? Seu Peruca sabia que Raimundo preferia que alguém o servisse, então abriu a garrafa e começou a encher seu copo. Raimundo via a espuma branca subindo e o copo já transbordando. Sentia a boca seca tanto pelo calor bem como pela discussão acalorada com o vizinho. Assim que pegou o copo e ameaçou levá-lo a boca ouviu alguém dizer:

– Quem é seu Raimundo?

Quem perguntou foi um policial. Raimundo tomou o primeiro gole e disse:

– Sou eu! Por quê?

– O senhor está preso! Tem de nos acompanhar.

Com o copo na mão Raimundo respondeu:

– “Pera aí, pera aí”. Eu vou sim, mas primeiro vou acabar minha gelada. Trabalhei a semana inteira e to cansado. Eu vou numa boa, mas “pera” aí.

Os policiais trocaram um olhar em que pareciam em dúvida. Ou esperavam ou arrumavam uma baita confusão com aquele sujeito grande e rude dentro do bar? Raimundo tomou toda a cerveja e passou a mão na boca. Olhou para os policias e disse:

– Vão pegando as algemas. Amarrem pela frente que é melhor pra sentar e passar a mão no rosto.

Depois de algemado o conduziram até a viatura em frente ao bar. Abriram a porta e Raimundo entrou. Quando os policiais entraram e se acomodaram, Raimundo disse em alto e bom tom:

– Toca pra delegacia!

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