Novas desigualdades

A era da comunicação tecnológica, divulgando desejos e mais desejos, levou a uma luta sem parada

Inclusão e exclusão são assuntos recorrentes nas notícias e nos comentários sobre o cotidiano. Os jornais alardeiam o tema, o Legislativo procura regulamentar as questões oriundas das novas forças democráticas que visam a inclusão, a mais universal possível. Essa força ideológica impondo igualdade por decreto gera abalos graves na autoestima de muitos. Sobram para o divã do analista os padecimentos dos excluídos. Há não muito tempo se falava sobre a sociedade propiciar uma possível distribuição equânime de oportunidades. Na segunda metade do século passado, o grande tema era regulamentar o acesso de todos ao maior número possível de oportunidades.

Como não existem vagas ou mesmo espaços iguais para todos a desigualdade de chances é quase inevitável.

Para a realização dos desejos de todos, diríamos que a competitividade chegou onde podia chegar, entrando num dado momento em declínio, ou mesmo colapso, justamente porque outras dores foram geradas nos vencidos diante dos vitoriosos. A era da comunicação tecnológica, divulgando desejos e mais desejos, levou a uma luta sem parada.

No âmbito escolar, que tomarei aqui como exemplo, foi se solidificando uma hierarquia tenaz. Escolas de primeira grandeza nasceram da ideia de escola ao alcance de todos. Abriu-se a possibilidade de uma melhor distribuição de diplomas e de carreiras e reproduziu-se em outro nível a desigualdade anterior.

Tem diploma tal e qual que vale mais do que outro. É difícil o igualitarismo desejável proposto. Todo mundo sabe que para entrar nas grandes escolas precisamos das duas uma: ou ser um bom aluno vindo de uma escola dita boa ou ser um aluno excepcional vindo de escolas comuns.

A desigualdade continua. Isso vale para outras coisas, por exemplo, a saúde pública. Os abastados têm condições de se socorrer melhor do que aqueles que dependem dos serviços públicos de saúde. Os bons professores estão em maior número nas escolas cujos títulos melhoram as imagens deles. Dizer que é professor da USP (Universidade de São Paulo) projeta uma imagem mais favorável do que professor de escola menos afamada, menos bem cotada nos rankings das instituições de avaliação.

E temos que continuar vivendo na desigualdade, agora deslocada. Assim é melhor, mas as diferenças ainda machucam. Como será uma educação para aguentar exclusão? É boa? É desejável? É possível?

Ser o último escolhido para o jogo de queimada dói como qualquer rejeição provocada por um grande amor. A desigualdade machuca e estamos cada vez menos preparados para suas dores.

 Folha | Equilíbrio | 17/04/2012

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