Milha de beiço em aventura noturna

Tributo ao chefe escoteiro Paulo Roberto Guimarães

Em nossa sede do Grupo Escoteiros do Mar aparecia cada figura que às vezes pensávamos estar numa sucursal da ONU. Ora eram egressos de algum curso que não proporcionava internato; ora eram refugiados políticos portugueses, espanhóis e da América Latina, no começo da Operação Condor (Aliança político-militar entre os regimes militares ditatoriais do Brasil, Argentina, Chile, Bolívia, Paraguai e Uruguai – considerados  países do Cone Sul. A todos dávamos abrigo e a muitos, fugas pelo mar ou em caronas de amigos de confiança. Também apareciam ex-escoteiros do interior catarinense ou de outras regiões brasileiras.

Um dia apareceu por lá um tal de Chefe Arnaldo José de Mello, transferido pela Farmácia Catarinense, da Cidade de Joinville, para Florianópolis. Grandalhão, desambientado e muito alegre, logo entrou no “espirito escoteiro do Mar”:aventureiro, feliz e sempre disposto a tudo…

Certo anoitecer de sábado veio ele nos dizer que o Chefe Jaime do Grupo Escoteiro Guarani do Estreito, teria ido acampar no Preventório lá no bairro Roçado, em São José, aqui na região da Grande Florianópolis. Afoitos, decidimos: vamos fazer-lhes uma surpresa noturna. Com raros apetrechos de acampamento, lá fomos nós em direção a Barreiros por onde entraríamos no Pasto do Gado (Invernada dos Di Bernardi) e de lá “assaltaríamos” o covil dos escoteiros de terra.

Noite de lua nova – escura e molhada – chegamos ao Sapé e lá paramos diante de uma forte cerca de arame farpado, a tal Invernada dos Di Bernar di, hoje área do Shopping Itaguaçu e bairro Monte Cristo…

Cansados e já em madrugada avançada, eis a primeira pitada filosófica do hilariante Caloca: “Chefe Arnaldo, onde é que estamos?” E o Chefe Arnaldo do alto de sua pseudo liderança, responde: “Fica quieto guri que esse terreno eu conheço palmo a palmo…”.

Teimoso e decidido, nosso escoteiro do mar, Caloca, responde: “Então diz em que palmo nós estamos?”

Risadas abafadas, pois esses travestidos de guerrilheiros, não queriam denunciar suas presenças…

De repente, olho para frente e vejo um enorme secador de roupas. “Olha só pessoal, quanta roupa estendida para secar, em plena noite chuvosa e lugar tão deserto…vamos lá pessoal, que estamos no caminho certo”…

Metido a líder levantei a carcaça e o mundo veio abaixo…

Não tem aqueles filmes de “faroeste”, com estouro de boiada? Pois é… as tais roupas…eram uma multidão de bois do campo da Invernada que ficava junto às cercas tentando escapar…

Nós os assustamos e eles no assustaram…o pobre do Caloca urinou-se todo e chefe Arnaldo – o da milha de beiço que sabia tudo passo-a-passo, nunca mais…

Depois daquela, o chefe Arnaldo descobriu que na Grande Florianópolis as distâncias eram medidas em milhas marítimas ou milhas terrestres, e, nunca em milhas de beiço… aquela história de “é logo ali”, como nos romances de Monteiro Lobato.

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