Kin gostava muito dos filmes de James Bond

Alto falante fixado à parede da casa de cada um berra o dia inteiro as proezas do ditador

Terminou nesta quarta-feira,28/12, o período de luto na Coréia do Norte. Foram quase duas semanas de choro e lamentação pouco vistos nas bandas de de nosso turbulento mundo Ocidental pranteando a morte  do ditador Kim Jong-il. Durante esse tempo os habitantes da capital, Pyongyang, foram intimados a participar do velório e a chorar copiosamente para mostrar ao mundo o quanto o déspota era amado, adorado, idolatrado e respeitado (ou temido?) por seus seguidores. As poucas imagens liberadas mostraram a dor desesperada do povo. As mulheres usando casacos de soldados, pareciam uma multidão de soldados uniformizados, numa coreografia estapafúrdia. Mas isso, caro leitor, a maioria dos ocidentais já sabe. O que quero lhe dizer é que nos últimos dias procurei ler tudo a respeito do “grande líder” para entender as manobras executadas para sua manutenção no totalitário poder. E não foi fácil.

Meu Deus! Ele era admirador de Stalin, aquele soviético que mandava matar até parentes para permanecer no poder! Pois não é que Kim superou o ídolo ?

David Hawk,investigador norte-americano que dirigiu o Alto-Comissariado dos Direitos Humanos da ONU, localizou em Seul, capital da Coréia do Sul, trinta norte-coreanos que conseguiram fugir do inferno juntamente com ex-soldados. Eles revelaram, com dificuldades emocionais, algumas atrocidades cometidas por Kim Jong-il como se fosse diversão. Pessoas são presas sem qualquer processo judicial e frequentemente cumprem penas perpétuas. Trabalham em regime de escravatura em minas, pedreiras e outros serviços pesados a tratar de animais de criação. Sobre isso, a justificativa é que são tarefas “privilegiadas” devido ao acesso que os presos tem às rações e assim aumentam a dose diária de calorias.

Todos os presos ficam confinados num dos quarenta campos de trabalhos forçados; são famílias inteiras,  vezes até três gerações (!)que são distribuídas em lugares diferentes para que nunca mais na vida mantenham contatos entre si. E mais,os que não conseguem resistir são jogados nas montanhas como “animais mortos”. Estes relatos fazem parte do livro O Gulag Escondido: Os Campos de Prisioneiros da Coréia do Norte, do próprio investigador David Hawk.

Ele ouviu também que os campos são chamados de Kyo-Hwa-So, cuja tradução é um escárnio:lugar para tornar melhor uma pessoa através da educação. Na verdade muito mais  de duzentos mil coreanos estão neste momento, em pleno século XXI, finzinho de 2011, comendo plantas, raízes, ratos, cobras e sapos pra sobreviver. Muitos morrem de fome e são jogados em vales ou nas montanhas. Mas, vem cá! Que crimes hediondos cometeram, ou cometem, essas pessoas pra serem condenadas ao inferno  aqui na terra mesmo?

Pois saibam que leitura de jornais ou revistas estrangeiros, cantar alguma música (ou assobiar) da Coréia do Sul, criticar o tirano poder, atrapalhar o socialismo, fazer piadas sobre o governo, são considerados crimes. E dependendo do humor de qual KIM estiver no poder, pode ser condenado a morte. Ah,distribuir a Bíblia também é crime por lá. A propósito, Kim Jong-il nunca professou qualquer religião; ele ele se considerava a própria!

Quer mais? Pois bem, amigo e caro ouvinte, agora vou “passar a régua” explicando o por quê do título desta matéria. Lí, na edição do Estadão de sexta-feira 23/12, na página  A10-Visão Global, a matéria Uma Nova Chance para a Coréia do Norte. O texto é do colunista Nicholas D.Kristof do jornal New York Times ganhador do prêmio Pulitzer de jornalismo, com tradução de Celso Paciornik. Em sua primeira viagem á Coréia do Norte em 1989, conseguiu intrometer-se, no bom sentido, em lares privados para saber exatamente como as pessoas viviam. Pois meu caro, a coisa mais surpreendente que ele descobriu foi o alto-falante afixado à parede de cada casa. Ele é como um rádio, mas sem dial ou botão de ligar ou desligar. De manhã, o alto-falante acorda cada família com gravações das proezas do Kim. Ninguém pode mexer no aparelho e tem de ouvir no volume que o governo quer. E aí houve que o Kim está jogando golfe e acertou cinco buracos de primeira. Berra assim o dia inteiro. Já imaginou, irmão?

Quando vídeos de filmes, música ou religião começaram a ser contrabandeados da China, a polícia do KIM começou a desligar a energia de prédios inteiros. Depois passavam de porta em porta para examinar as fitas de vídeos que ficaram presas nos aparelhos. Uma fita contrabandeada podia custar à família inteira passar o resto da vida nos campos de trabalhos forçados.

Acabei de ouvir no meu auto-falante, com dial e botão on e off, que a adega do Kim tem dez mil garrafas de vinho do Ocidente e a cinemateca particular, tem vinte mil filmes (vinte mil!) também do lado de cá do planeta. Kin gostava muito dos filmes de 007-Bond, My Name is James Bond…

1 responder
  1. Ivaldino Tasca says:

    O interessante das mordomias, dos gostos, das preferencias, das manias dos dirigentes comunistas de todos os paises é que eles sempre adoraram as coisas do capitalismo “decadente”. A expressão “pregar moral de cuecas”, nasceu com esses tiranos. Tudo o que ele negaram e negam para seus povos eles usufurem com uma cara de pau de encabular qualquer um. Um abraço

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