Ídolos cruéis

Admiro várias pessoas, em várias áreas da ação e do conhecimento humanos, ainda que não as considere exemplos a serem seguidos. Aliás, seguir um exemplo não significa, necessariamente, admirar quem o deu. Essa seria a diferença entre seguir um ideal e seguir quem o prega. Alguns, diante de uma fraqueza de quem se diz exemplo, podem passar a descrer do ideal. Da mesma forma, outros, orientados por líderes carismáticos mal-intencionados ou por interesses econômicos, podem perpetrar atos absurdos, impensados, que contrariam frontalmente o ideal. Isso ocorre quando preconceitos condicionam à obediência cega ou quando a admiração transcende os limites da racionalidade, para transformar-se em fanatismo. Em ambos os casos, o ser humano deixa de ser indivíduo, para ser apenas um peça descartável de um mecanismo sobre o qual não tem nenhum controle.

Os ídolos, forjados ou involuntários, tem um importante papel nessa alienação: Às vezes alguém pode sê-los mesmo afirmando que os abomina. Também podem ser mitos, cuja prova de veracidade é tão difícil, que se tornam insofismáveis. E ai de quem duvidar! Pois poderá ser condenado à humilhação, ostracismo ou, no caso de algumas crenças e ideologias radicais, à morte. Tudo por ameaçar a estabilidade do poder constituído. Afinal, o que é um ser humano diante de um “ideal”?

Bem, dependendo do “ideal”, pode ser mais um mártir, que se transforma em mito ou ídolo. Tudo depende de quem conta o conto.

E o principal alvo sempre será a juventude, pois, assim como ela pode ser solo fértil para a evolução da humanidade, também o pode ser, para que ela marque passo ou retroceda.

O assédio é terrível, em todos os âmbitos! É como se milhões de laços fossem lançados, cada laçador tentando capturar, marcar, colocar pesados arreios e cercar seu quinhão.

Os arreios são os preconceitos, mitos e ídolos, alguns dos quais podem ter cometido as piores atrocidades ou desvarios, mas tudo isso é tido como irrelevante, em nome de um “bem maior”.

Os piores exemplos podem ter matado milhões, sem nunca terem empunhado uma arma, apenas por desconfiarem de alguém ou verem seu projeto de mundo ideal ameaçado, ou como condição básica para sua consolidação. Os menos piores destruíram suas vidas com drogas e exageros, numa busca insensata pelos limites da existência, deixando um legado de desespero ou desencanto. Mas, todos se transformaram em ídolos de poucos ou de muitos! Ídolos cuja adoração é instigada por interesses de poder ou de lucro, que quase sempre se confundem. Ídolos que, pela projeção que alcançaram ou pela construção maliciosa de mitos, mesmo quando propunham a liberdade universal ou pessoal, tornaram-se instrumentos diretos ou indiretos da submissão de mentes, pelo preconceito, pela doutrinação, pela alienação, pelo medo. Ídolos cruéis, de fato, cujo viver trouxe destruição e morte; ou inconscientemente cruéis, cuja morte antecipada e incompreensível fez seus fãs perderem o sentido da vida.

É por isso que admiro várias pessoas, em várias áreas da ação e do conhecimento humanos, ainda que não as considere exemplos a serem seguidos. Aliás, seguir um exemplo não significa, necessariamente, admirar quem o deu. Essa seria a diferença entre seguir um ideal e seguir quem o prega…

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