Estereótipos e hipocrisia

“Vou contratar fulano porque ele é do signo tal!” ou: “Vou contratar sicrana porque ela é da religião tal!” ou, ainda: “Beltrano é de boa índole porque pertence a tal grupo ou família!”. Muitos usam desses argumentos para desculparem sua incapacidade de analisar o caráter dos outros. Por outro lado, não são poucos os que usam desses “artifícios” para tirar proveito da “ingenuidade” de terceiros. Só que as pessoas são o que são e não o que dizem ou aparentam ser! São seres humanos e não produtos de uma linha de montagem industrial, com médias rigorosas e desvios-padrões estritos!

Pertencer a uma determinada religião, agremiação política ou qualquer outra instituição pode estabelecer regras de conduta, punições e prêmios, mas não é garantia de manutenção de um padrão de comportamento uniforme e previsível. Quando isso ocorre, com certeza, temos alguém tirando proveito de alguém, com prejuízo da racionalidade e da individualidade; ou líderes inquestionáveis e liderados submissos; ou prevalência do preconceito, do estereótipo e da hipocrisia; ou mistificação.

Em suma, temos desigualdade humana!

George Orwell, em sua obra “A Revolução dos Bichos”, fez uma definição primorosa desse modo de pensar e agir, quando o sintetizou na frase: “Todos são iguais, mas uns são mais iguais que os outros”.

O fato é que existem boas pessoas em todas as religiões, raças e agremiações, mas, também existem más, que passam por cima de tudo, matam, roubam e corrompem. A diferença é que quando são pegos não admitem seus erros, preferindo atribuí-los à malícia de outrem ou a entidades diabólicas. Na melhor das hipóteses, isso é, no mínimo, um caso de dupla personalidade!

Acreditar-se herdeiro exclusivo de tradições seculares; exaltar a si próprio e ao grupo a que pertence; usar vestuário e gestos padronizados, e chamar apenas quem faz o mesmo de irmão só têm servido, ao longo do tempo, para multiplicar dissensões e conflitos tão sangrentos quanto inúteis.

Entre outras coisas, isso é de uma incoerência fundamental com a pureza dos princípios divinos e filosóficos que embasam todas as religiões! É uma visão tendenciosamente distorcida do: “quem não está comigo é contra mim”, quando o ideal seria aceitar e aprender com a diversidade humana.

A base para reformular esses conceitos é ter consciência de que todos somos irmãos! E mesmo entre irmãos, de uma mesma família, e de uma mesma religião, raça, ideologia ou qualquer outro grupo de afinidade, existem diferenças.

Existem pessoas de todos os credos e ideologias que agem, dentro e fora de seus círculos, de forma indigna. Por mais nobres que sejam os ideais que afirmem seguir, seu propósito é vil: lucro e poder! Seu discurso não passa de um “manto” usado para esconder suas reais intenções.

Indivíduos como estes nada acrescentam à fé, à justiça e à evolução da humanidade! Só buscam manipular e tirar tudo o que puderem, enquanto puderem, dos outros, inclusive dos próprios “irmãos”. Atribuem seu enriquecimento material à benção divina, uma recompensa por sua “excelência espiritual” e “conduta social exemplar”. Amenizam seus atos ilícitos e imorais com a indulgência que os submissos crédulos disponibilizam aos “bem-sucedidos”. E todos falam em fraternidade, liberdade, consciência, coerência, nobreza…

Mas, que fraternidade é essa, que discrimina? Que liberdade é essa, que limita o discernimento? E que consciência é essa, que vive em estado de alienação conveniente ou permanente? Que coerência é essa, que transforma o errado em certo, por conveniência e marketing? Que nobreza é essa, que busca respaldo em doutrinas nobres e seculares, não para honrá-las, mas para distorcer seus ideais, com o único intuito de obter vantagens e lucro, pessoal ou grupal, muitas vezes em detrimento do próximo?
Para saber da verdadeira índole de um indivíduo é preciso conhecê-lo de fato e não pelo que aparenta ou diz. É preciso estar livre de preconceitos e estereótipos para tanto e, também, conhecer muito bem a si próprio, para estar livre da hipocrisia!

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