Esporte é microcosmo da sociedade

Será que os críticos fariam um décimo do que fazem Messi, Neymar e LeBron James?

Antonio Tozzi | Miami *

Miami (EUA) – Assistir competições esportivas com atletas profissionais é o passatempo de muita gente. Tal qual os gladiadores da Roma Antiga, os atletas se digladiam em arenas esportivas para provar quem são os melhores. Logicamente, ao contrário dos gladiadores que lutavam pelo direito de continuar vivendo, os atletas profissionais são regiamente pagos e povoam os sonhos da maioria dos mortais que têm uma espécie de admiração e inveja por aquilo que eles conseguem construir graças ao talento que Deus lhes deu.

Isto ocorre nas pistas de atletismo, nas piscinas, nos tablados, no mar, nas quadras e nos campos. E o ápice será alcançado em breve em Londres, quando a capital inglesa sediar a próxima Olímpiada de verão.

Entretanto, neste final de semana testemunhamos dois eventos que serviram para dar exatamente a medida de como o público é pressuroso em fazer julgamentos baseados simplesmente no resultado final, em vez de analisar o contexto como um todo.

Em Nova Jersey, as seleções da Argentina e do Brasil fizeram um amistoso útil para as duas. Enquanto os argentinos aproveitaram a folga na tabela das Eliminatórias da América do Sul para testar sua equipe contra um adversário forte, os brasileiros fizeram um teste real para a seleção que tentará pela primeira vez em sua história obter a medalha de ouro olímpica – a única conquista que ainda falta para o vitorioso futebol brasileiro.

No final, vitória da Argentina por 4 a 3 num jogo muito bom de se assistir com boas jogadas das duas equipes. Com ataques poderosos e defesas instáveis, era mesmo previsível que o jogo teria muitos gols como ocorreu.

Mas, deixando de lado a análise técnica da partida, o que salta aos olhos é ler comentários de alguns jornalistas esportivos e muitos torcedores dizendo que Neymar não passa de um cai-cai e Messi é o melhor do mundo. Claro que ninguém discute ser o craque do Barcelona o melhor jogador do mundo na atualidade – o que comprovou por ter ganho duas vezes o troféu da Fifa e por ter feito três gols na zaga brasileira na partida de sábado, sendo o último deles um golaço.

No entanto, isto não significa que Neymar seja horrível. Pelo contrário, o craque santista é, de longe, o melhor jogador  surgido no futebol brasileiro nos últimos tempos e tudo indica que poderá chegar ao nível de Lionel Messi. Porém, os críticos ficam diminuindo Neymar e exaltando Messi, quando na verdade todos deveríamos estar aplaudindo por terem surgido dois craques deste quilate nesta época do futebol mundial.

Corte rápido para Miami. Jogo decisivo entre Miami Heat e Boston Celtics para ver qual equipe conquistaria o título da Conferência Leste da NBA e, por conseguinte, asseguraria o direito de enfrentar o Oklahoma City Thunder, vencedor da Conferência Oeste, para saber qual será o novo campeão do mais sensacional campeonato de basquete do mundo.

Aqui, a inveja e o criticismo também se manifestam. Ora, LeBron James já pode ser considerado um dos maiores jogadores de basquete de todos os tempos, mas o fato dele nunca ter conseguido um título ainda – o ring, como dizem os americanos – faz com que muitos duvidem de sua capacidade e pespegam nele o epíteto de amarelão. Após ter feito um jogo fantástico em Boston no jogo 6 da série, as dúvidas persistiam porque ele não havia ganho a série.

E na partida final o placar apontava ao final do terceiro quarto um empate em 73 pontos. Ou seja, o destino das equipes seria selado nos 12 minutos finais. Aqui, volta o criticismo: em caso de derrota do Miami Heat, novamente LeBron James seria tachado de amarelão e nada mais do que ele fez na temporada teria valor. Em caso de derrota do Boston Celtics, o fantasma de ser um time envelhecido passaria a rondar a equipe de Massachusetts, como se o fato deles terem feito uma ótima campanha não deveria ser levado em consideração.

Com uma atuação soberba do trio de ouro de Miami no último quarto – James, Dwayne Wade e Chris Bosh -, a equipe do sul da Flórida venceu a partida por 101 a 88 e conquistou o título da Conferência Leste. Para os jogadores do Boston Celtics e o técnico Doc Rivers sobrou o gosto amargo da derrota e a necessidade de dizer que ainda não estão “velhos”, como todos acusam.

Para LeBron James, no entanto, a missão não está cumprida. Se vencer, será aclamado como um dos melhores da NBA; se perder, voltará o fantasma de amarelão.

Fica a pergunta: será que os críticos fariam um décimo do que fazem Messi, Neymar e LeBron James? Porque, convenhamos, criticar sentado no sofá da sala é muito fácil. E isto se reproduz em todas as áreas da atividade humana. Os vencedores são criticados por aqueles frustrados que passam a vida sem conseguir realizar seus sonhos. Talvez Freud explique. (Direto da Redação)

* Foi repórter do Jornal da Tarde e do Estado de São Paulo. Vive nos Estados Unidos desde 1996, onde foi editor da CBS Telenotícias Brasil, do canal de esportes PSN, da revista Latin Trade e do jornal AcheiUSA.

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