De Dutra a Obama

A posse de Barack Obama na presidência dos Estados Unidos foi mais uma que assisti. Nem por isso a solenidade deixou de me provocar emoções. Afinal, era a demonstração de mais uma vitória da democracia. Por Josué Maranhão. (*)

A primeira posse de presidente da República que acompanhei foi do então general Eurico Dutra, em janeiro de 1946. Estava, ainda, com menos de dez anos de idade e, com toda certeza, espontaneamente não me interessaria pela solenidade. Mas meus pais insistiram e lá fui eu para o “pé do rádio”, como se dizia então. Televisão era coisa do outro mundo, que ninguém imaginava vir a existir um dia no Brasil. Dizia-se então que existia em algum lugar. Mas ninguém acreditava.

Da transmissão, direta do Rio de Janeiro, escutavam-se muito mais os chiados da interferência e da estática do que propriamente o que o locutor dizia e menos ainda o que os oradores falavam.

Creio que o gesto dos meus país atiçou uma vocação latente: a mania de acompanhar a política, os fatos a ela ligados, os acontecimentos de interesse geral. Era talvez a primeira dose da cachaça que é o jornalismo. Vicia mais que tudo e, depois de impregnado, é difícil largar.

A partir de então, sempre que me foi possível, assistí às posses de presidentes de República, no Brasil e no exterior.

Ironia do destino, ou nuances de política, o certo é que, depois do General Dutra, a posse seguinte que acompanhei, ainda pelo rádio, foi a de Getúlio Vargas, em 1951. Voltava ele ao trono, substituindo um dos generais que o apeara, em 1945, pondo fim ao Estado Novo, como foi chamado o regime de ditadura que o caudilho gaúcho instituíra em 1937, embora já no poder desde 1930.

Maior ironia, ainda, é saber que Dutra ajudou a derrubar a ditadura de Vargas, em 1945 mas, apesar disso, o general recebeu o apoio do ex-ditador, logo em seguida, quando disputou a presidência. Adiante, Dutra retribuiu a ajuda, apoiando Vargas na sua volta ao poder, na eleição de 1950.

Logo em 1954, como disse em sua carta-testamento, Getúlio Vargas “saiu da vida para entrar na história”. O seu sucessor e o substituto do sucessor foram defenestrados do poder no episódio que ficou conhecido como o “anti-golpe” de Lott, em novembro de 1955, que assegurou o respeito à decisão do povo na eleição que escolheu Juscelino Kubitschek para a presidência, derrotando o general Juarez Távora – um dia conhecido como o vice-rei do Nordeste – o preferido do poder, bem como Plínio Salgado, o chefe dos integralistas e outros menos cotados..

Ainda pelo rádio, acompanhei a posse de JK, em janeiro de 1956.

A era da televisão, precária e inconsistente se iniciou, no que se refere às posses de presidente da República, com a subida de ciclotímico Jânio Quadros, em 1961. Um acesso de “embriaguez do poder” levou-o à renúncia seis meses depois. Em setembro daquele ano, sufocado o golpe dos militares que pretendiam impedir a sua posse, João Goulard assumiu a presidência. Lá estava eu assistindo tudo na televisão.

Recusei-me a acompanhar ou assistir as trocas de guarda, ocorridas entre 1964 e 1985, quando os generais-ditadores se revezavam no plantão do poder autoritário, seqüenciando uma ditadura que jogou o Brasil na negritude do terror.

Triste e frustrado, assisti à posse de José Sarney, em 1985. A tristeza e a frustração decorriam do fato de ver desfeito o sonho de uma reviravolta na vida nacional, com a posse de Tancredo Neves, que não houve. Mas também fiquei receoso e “de pé atrás”, assistindo a subida de José Sarney. Conhecia a sua vida pregressa e sabia não ser das mais louváveis a sua folha corrida política, por sinal longa e que não parou de crescer até agora.

Depois do primeiro turno das eleições de 1989, desinteressei-me pelo resultado final das eleições, em que competiam Collor e Lula. Para mim era difícil saber quem poderia ser considerado o melhor. Ou o pior! Mas não tinha dúvidas de que ambos não mereciam meu voto. Apesar disso, para manter a tradição, acompanhei a posse do “filhinho de papai”, o “play-boy” das Alagoas. Não me surpreendeu a sua derrubada, através da via democrática do impeachment. Afinal, como disse seu irmão Pedro, ele aspirava demais, pelo menos na juventude.

Veio o topetudo Itamar Franco. Assisti à sua posse, via televisão. Valem-lhe os louros pela derrubada da inflação, façanha que foi monitorada por Fernando Henrique Cardoso, então ministro da Fazenda. Adiante, na presidência da República, consolidou a morte daquele “monstro”, como ficou conhecida a sanha da desvalorização da moeda nacional, até a 3% ao dia, em certa época.

A partir daí, não assisti mais nenhuma posse de presidente da República do Brasil. Vivendo no exterior, desde o início da década de 1990, não tinha acesso à televisão brasileira nos locais onde me encontrava.

Nem por isso deixei de acompanhar solenidades de posse. Em 1998, vivendo na Indonésia, precisamos sair às pressas, minha família e eu, resgatados em um comboio armados, ameaçados, como todos os estrangeiros, pela revolta popular que viria a derrubar a ditadura que se prolongava no país há 32 anos. Fugimos para a Malásia e já me encontrava em um hospital em Cingapura, quando vi na televisão a renúncia do general-ditador Suharto à presidência da República da Indonésia e, concomitantemente a posse do seu sucessor.

Seguiram-se, em 2000 e em 2004, as tristes cenas das posses de George W. Bush na presidência dos Estados Unidos, onde eu já vivia. Em ambas as solenidades eu curtia a frustração decorrente das derrotas dos candidatos de minha preferência, que lhe tinham sido opositores.

Finalmente, na terça feira passada, pude “lavar a alma”, assistindo à posse de Barack Obama. Eu o conheci há pouco mais de quatro anos, quando, ainda desconhecido nacionalmente, surgiu na cenário político na convenção do partido Democrata que homologou a candidatura de John Kerry, que viria a ser derrotado por George Bush. Era, até então, somente Senador Estadual, em Michigan, mas impressionou, de imediato. Não somente eu, mas muitos outros, imaginaram que um dia Obama seria presidente da República dos EUA. No entanto, eu e muita gente pensavamos que ainda se passaria, pelo menos, uma década até ele chegar lá.

Agora, lá está Obama. Tenho me impressionado com o grau exagerado de expectativa e esperança, principalmente fora dos Estados Unidos, quanto àquilo que Obama poderá fazer. Também entendo exagerado o destaque que se dá ao fato de ser ele um negro, pelos padrões americanos. É um fato a destacar, mas não com tanto relevo. Tanto assim que ele jamais o explorou o aspecto racial, ou o adotou como espeque. Tinha e tem outros grandes méritos. A carga que lhe colocaram nos ombros é desumana. Nem que fosse milagreiro conseguirá realizar sequer 10% do que a humanidade imagina que ele fará.

Agora, no entanto, resta esperar. Vale a pena ser otimista. Quem sabe vai adiante, bem mais do que imagino.

Será que ainda vou assistir alguma posse? Parece-me que é esperar muito!

Josué Maranhão é jornalista. Atuou no Nordeste, durante 15 anos, nas décadas de 1950 e 1960. Voltou ao jornalismo em Boston (EUA), a partir de 1998. Foi professor e é bacharel em direito aposentado. http://www.josuemaranhao.com.br/mensagens.php

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