De Coimbra

Chamou minha atenção, na semana passada, um e-mail mandado à UFSC pelo professor Rui Daniel Prediger, que faz pós-doutorado em Portugal e teve a oportunidade de trocar duas palavras com a presidente Dilma Rousseff, por ocasião de sua visita àquele país. Autoridade nos estudos das doenças de Parkinson e Alzheimer, o foco de seu trabalho é uma área com nome destroncado, como diria um comentarista esportivo da cidade: Neuropsicofarmacologia. Pois ele se mostrou honrado em assistir à cerimônia de entrega ao ex-presidente Lula do título de Doutor Honoris Causa na Universidade de Coimbra, convidado que fora por uma professora daquela instituição.

O texto que enviou à Universidade não é de um profissional qualquer, deslumbrado com a presença de autoridades brasileiras em terras portuguesas. É de um sujeito que passou por anos e anos de estudos, se tornou um especialista conceituado e, por conta disso, atua como editor associado do Journal of Alzheimer’s Disease e como consultor científico da Michael J. Fox Foundation e Alzheimer’s Disease Association. Pois ele escreveu, a certa altura: “Pude dar um aperto de mão na presidente e lhe confessar que sou um professor de universidade pública brasileira realizando pós-doutoramento em Coimbra, o que foi retribuído com um sorriso e um ‘Parabéns’!”

Sem emitir qualquer juízo de valor, surpreende que um docente com tal graduação e respeitabilidade se estenda em louvores a figuras públicas que são achincalhadas por aqui, dentro e fora da academia. É comum ler nas cartas de jornais referências desabonadoras ao ex-presidente porque não tem diploma superior e fala uma linguagem que beira a do povaréu, sem o brilho dos mestres, doutores e até de políticos matreiros, com seus sofismas verbais. Acredito que somos mais propensos a aceitar ser comandados por indivíduos engravatados, repletos de títulos e de lábia, do que por alguém que veio de baixo e que não fala a língua eivada de falseamentos dos acadêmicos e bacharéis que andam à solta por aí.

A oposição é salutar e deve ser exercida com convicção, porque legitima a democracia. É comum que ela exista nas camadas populares, e mais ainda entre os letrados – porque, em tese, estes dispõem de maior bagagem crítica para detratar o comportamento quase sempre venal dos nossos homens públicos. Por isso o meu espanto ao ver um pós-doutorando tecendo loas à atual e ao ex-presidente. Ambos estão longe de ser unanimidade, mas não será um diploma que definirá sua competência e idoneidade.

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