Crônica urbana

Eu enunciava alguns exercícios no quadro, quando alguns alunos desataram a rir, sob os protestos, também risonhos, da única mulher da turma – elas ainda são minoria em alguns cursos de Engenharia, mas tudo é uma questão de tempo… Perguntei o motivo da graça, ao que ela respondeu, timidamente, que eles estavam ironizando sua cidade de origem, por não ter mais do que três prédios. Os colegas confirmaram: “É… Cidade que não tem prédio não merece ser chamada de cidade: é aldeia ou vila!”, e voltaram a gargalhar.

Depois de apaziguar os ânimos, ponderei que o parâmetro que eles usavam não era nada conclusivo, pois havia uma infinidade de outras variáveis a serem consideradas, além da simples verticalização urbana. Esta, aliás, tende a caracterizar-se mais como problema do que como virtude!

Não sou especialista em urbanismo, mas sou um indivíduo urbano. Sempre vivi em cidades! A brincadeira dos alunos e o debate posterior acabaram por levar-me a uma reflexão sobre as cidades que conheço: seu modo de vida, seus problemas e soluções.
Até algum tempo atrás, as maiores construções que uma cidade apresentava eram templos religiosos, com suas torres e sinos que chamavam para os ofícios religiosos e acordavam para o trabalho: relógios sonoros. Normalmente, ficavam nos pontos centrais, que tinham as praças mais bem cuidadas e onde a população se reunia para confraternizar ou protestar. Eram os “centros das cidades”!

De repente, alguém sentenciou que todas as cidades precisavam de um arranha-céu para demonstrar sua pujança e modernidade, mesmo sem necessidade! Coisa de “americano”, ou melhor, estadunidense do norte. Afinal, americanos somos todos nós!

Daí em diante, começaram a surgir exemplares de prédios de todas as formas, mas principalmente “caixotes”. Não era preciso que fossem belos, bastava que fossem altos!

Chamavam a atenção? Claro! Um vulto acinzentado em meio a um mar de casas térreas, sobrados e terrenos baldios! De certa forma, eram como “torres de Babel” que brotavam do solo em busca do céu, deixando de lado o espírito, em nome da vaidade. O tempo e a lógica se encarregaram de desvalorizá-los, sobretudo nas cidades menos populosas.

Não é o caso das grandes cidades: capitais e metrópoles próximas a centros de prosperidade agropecuária ou industrial. As migrações, os negócios e as limitações geográficas transformaram-nas em autênticos campos de batalha, onde a cruel e insaciável ditadura da especulação imobiliária, com suas altas, produz cada vez mais e severas baixas. Bairros nascem e morrem ao seu sabor, muitas vezes amargo; torres são erguidas como símbolos de poder corporativo e status, mas também como testemunhas da angústia e medo. Às nuvens de poluição se somam as sombras gigantescas de concreto e aço, que impedem que a luz do sol alcance o solo e propicie o germinar e desabrochar de flores e gentes.

Alguns especialistas dizem que cidades com mais de duzentos mil habitantes são inadministráveis: o “paraíso do caos”! Outros, que mais de trinta famílias por hectare decretam o princípio do fim da qualidade de vida.

Teorias existem, para todos os gostos e tendências, mas todas entendem que cidades são como organismos vivos, que nascem, crescem e precisam de cuidados, carinhos e limites para não adoecerem ou morrerem.

O adensamento urbano é sinônimo de progresso, mas também está na gênese de colapsos estruturais, sociais e existenciais. Pode ser como uma hipertrofia: sem controle, assume os contornos de uma obesidade mórbida: pesada, mas frágil e indefesa! Ou como um câncer: se não for tratado em tempo, vira metástase! Na “menos pior” das hipóteses, tende a torna-se uma doença crônica, onde a qualidade de vida deixa de ser uma condição básica e indispensável, para tornar-se um artigo raro, vendido a peso de ouro para públicos “seletos”. Quem pode paga! Quem não pode, sobrevive… Ou míngua!

Vítimas culpadas desse estado de coisas, nós competimos pelos prédios mais belos e imponentes, pelos pontos mais notáveis, pelos andares mais altos… Só que prédios não florescem nem dão frutos! Às vezes, eles só arranham o céu e machucam vidas!

Curiosamente, quem está no topo deles tende a se deslumbrar mais com as “luzes” do asfalto, que com as estrelas do firmamento. Acreditam estar no topo do mundo, acima de tudo e de todos! Ironia do destino, às vezes seus “castelos compartilhados”, símbolos de poder e riqueza, não passam de alvos perfeitos e preferenciais, para o que voa ou rasteja.

Assim são as grandes cidades: cheias de altos e baixos em todos os sentidos. Gente que ostenta! Gente que humilha! Gente que se humilha! Gente que se revolta! Gente que invade! Gente que se esconde! Gente que se desdobra! Gente que quer vencer mesmo sem saber para quê! Gente que mente para viver! Gente que vive para mentir! Gente que quer ganhar tudo! Gente doidinha para se perder!

Tanta gente junta, lado a lado ou sobreposta, mas que pouco ou nada se conhece. Vivem tão próximos, mas quase só se comunicam por telas e sons, digitais ou analógicos; ou só se notam por gritos de loucura, socorro ou desespero.

Não há nada pior que a solidão urbana!

Selva de pedra, os prédios que se amontoam e lançam seus veículos nas ruas são fermentos do caos viário, de uma trombose urbana!

É certo que também têm seus jardins, mas poucos os notam com gosto, e raros se aprazem da sombra de suas árvores. Sua maior variedade de plantas tende a ser a dos pés de quem os pisoteia, para abreviar caminhos que já são curtos, em nome de uma pressa que muitas vezes não tem sentido.
O metro quadrado se valoriza na mesma medida em que a vida é aviltada!

As favelas são o destino dos retirantes urbanos, enquanto os condomínios fechados e os prédios de alto-luxo são transformados em “bunkers” sofisticados e quase herméticos: ilhas de opulência cercadas de medo por todos os lados! Medo que está fora… Medo que está dentro!

O perfume das flores sucumbe à fumaça sufocante. A árvore frutífera é um estorvo que quebra calçadas, suja ou amassa carros. Quem se distrai ao olhar flores, de jardins ou saias, não vê o sinal fechado… O ar congestiona a respiração. A chuva inunda os vales de asfalto. A esquina onde vidas se cruzam, apressadas, também pode decretar seu fim.

Por essas e outras, os que vivem nas cidades grandes sonham com a paz, os quintais e o canto dos pássaros das cidades sem prédios. Mas, na contramão desse desejo de fuga, a mesma cidade que atemoriza os que ali estão também exerce fascínio sobre os jovens do interior. Tudo sempre começa com a busca de novos horizontes… Só que o mar de prédios e a fuligem das ruas não deixam ver a linha do horizonte!

Eles sonham com a efervescência e ebulição das metrópoles! Só que nem todos estão preparados para enfrentar seus desafios, perigos e desatinos.

Muitos chegam… Vários sofrem de “embolia”… Outros “esfriam” ou se “queimam”… Mas poucos vencem! E vencer não é apenas ganhar dinheiro: quando a “prosperidade” chega pela prostituição do corpo, da mente ou da alma, não há lucro que supere a perda de si mesmo!
Na verdade, só vence de fato na cidade grande quem consegue ser maior e mais forte do que ela! E quem atinge este “nirvana” quase sempre descobre que precisa de outro tipo de espaço, que ela não pode oferecer!

Não! Cidades cheias de prédios não é o parâmetro de civilização!

É verdade que a vida pulsa em suas ruas e avenidas, mas é um pulsar hipertenso, que amiúde comprime e machuca o peito e a alma.

Às vezes elas dão sinais de humanidade e poesia, mas os colossos verticais, as cores dos “outdoors” e o ruído das buzinas e sirenes quase sempre os ocultam.

Há vida nelas, sem dúvida! Mas, ou é contida ou pode explodir a qualquer instante, sem controle!
Mas cidades são feitas da mesma matéria-prima: gente! Então, por que tanta diferença?

Talvez porque o ser humano esquece sua essência para tornar-se semelhante à pedra, inerte, e ao aço, frio, que constrói as torres urbanas.

A culpa não é dos arranha-céus! Eles são apenas uma expressão, uma necessidade, um desejo, um desafio, um símbolo do progresso da ciência e da tecnologia. Somos nós que tendemos a nos sentir pequenos diante do que criamos: artistas se rendem às suas obras e ficam encantados por elas: Pigmaliões às avessas!

Não são as cidades que precisam ser grandes, ou cheias de torres, ou apinhadas de gente para que sejam consagradas. São as pessoas que necessitam urgentemente redescobrir a própria grandeza de ser e conviver. Precisam saber que não existe cidade, grande ou pequena, sem os seres humanos que nelas habitam, e que a alma de cada um deles é como uma imensa e fértil terra inexplorada, de valor inestimável. É este “espaço urbano” que merece e deve ser valorizado! São essas “luzes” que precisam ser acesas para iluminar as cidades!

Não! Não são os prédios que tornam as cidades grandes: os seres humanos é que fazem as grandes cidades, qualquer que seja o tamanho delas!

Adilson Luiz Gonçalves

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