Conversa de solidão

Dia desses, ela passava do outro lado da calçada, de manhãzinha. Uma leve neblina envolvia a rua, e parecia tomar todo o mundo. Não era um dia  convidativo para passear; parecia mais propício para aquela espreguiçada gostosa entre cobertores. No entanto, como em todos os dias, ali estava ela, pontual, atravessando a neblina. Mesmo longe de mim, eu a ouvia conversar. Seu companheiro de conversas era o de sempre: pequenino, gordo da falta de exercícios, orelhas já meio caídas da idade e as manchas negras irregularmente distribuídas no pelo de um branco já encardido pelo tempo. Um vira-latas, certamente, mas com olhar e porte de animal bem tratado que acaba por adquirir alguma coisa das maneiras bem-educadas do seu dono.

Idosa. Quanto anos terá? Mais de oitenta, sem dúvida, numa idade revelada no passo arrastado, na pele flácida, na brancura do cabelo e no tremor das mãos. Porém, faça chuva ou faça sol, ei-la por aí, andando com seu pequeno cão.

É uma dentre muitas velhas e muitos velhos que fazem isso, bem sei. Mas poucos terão uma conversa assim elaborada com seu companheiro animal. A voz ainda forte, pausadamente convincente, as frases bem construídas, a fluência verbal, os adjetivos, advérbios, substantivos e pronomes bem colocados denotam boa formação e cultura vasta. Até mesmo algumas palavras em língua estrangeira já a ouvi incluir nessas conversas.

Não se trata de conversas sobre trivialidades. É isto que surpreende e a distingue. Linguagem correta e argumentação sólida é o que se houve quando se presta atenção no que fala ao cão.

Caduca, louca? Nada disso, caro leitor. Ou pelo menos uma caduquice ou loucura nada convencionais. Assim me parece pela forma como olha para o animal, falando sobre despesas grandes e aposentadoria pequena; sobre a queda nas bolsas; sobre bandalheiras políticas. Até sobre o que ela considera permissividade excessiva em sexo, exploração da nudez e falta de dignidade de muitas mulheres já a ouvi falar com seu amigo de quatro patas. Ah, mesmo sobre uso de camisinha ela falava outro dia!

Interessante é que em seu discurso há pausas significativas. Muitas vezes ela se senta num banco, fala um pouco e, depois, mantém-se em longos silêncios, como se estivesse escutando a resposta do vira-latas, como se lhe desse a palavra e ele falasse. Em ocasiões assim, já notei um sorriso discreto visitando seu rosto – daqueles sorrisos que a gente dá quando ficamos satisfeitos com a resposta de nosso interlocutor, e sorrimos em cumplicidade.

Essa é um conversa de solidão. Dessa solidão acompanhada que tanto vemos hoje em dia, especialmente, e contraditoriamente, no tumulto das grandes cidades.

Mas, não nos iludamos, prezado leitor: só há solidão para quem observa situações assim. Para essa senhora – digna até quando, educadamente, recolhe os dejetos de seu cão – a solidão acaba, ou pelo menos se reduz, quando os olhos e as orelhas do companheiro canino lhe dão a impressão de um diálogo realmente vivido. Ou talvez nem seja assim; quem sabe, numa demência mansa, ela crê de fato na interação com seu animal, e acredita que partilha com ele opiniões iguais ou contrárias sobre o mundo.

Afinal, em última análise, somos todos uns solitários e incomunicáveis, se não saímos de nosso próprio mundo e cremos no diálogo – mesmo num diálogo assim, inusitado, improvável, incompreendido, como o dessa mulher com seu cão.

Nessa medida, não importa se o diálogo é real ou imaginário, possível ou impossível. O que vale é a possibilidade de dialogar, de falar e de ouvir, essas bênçãos da condição humana que tornam possível a comunicabilidade.

Um filósofo disse, certa vez, que embora possamos viajar para todos cantos da terra, e mesmo para o espaço infinito, jamais poderemos sair de dentro de nós.

Contrariando esse filósofo, talvez possamos, sim, sair de nosso interior, caro leitor. Pelo menos como sai de si aquela senhora, de sua total solidão, da prisão de sua necessidade e de suas angústias. E ela faz isso conversando com seu vira-latas.

Creio que, em lugar de conversa nenhuma, é muito melhor qualquer conversa, mesmo uma conversa de solidão.

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