Com sabor de amendoim

selo-armazem

Imagem cedida pela família

Gosto e cheiro. Esta crônica impregna no olfato do leitor o cheiro de amendoim torrado, ou do amendoim doce. E tem o gosto do amendoim que, agora, mastigo, depois de ter quebrado a casca com alguma dificuldade. Este amendoim, ainda cru, fazia parte da reserva de Genésio José de Oliveira, o vendedor ambulante mais famoso da Unisul. Ele era o tio do amendoim e deixou-nos sem mais. Vítima de um atropelamento, não resistiu aos ferimentos na cabeça e partiu. Fiquei sabendo da sua morte numa conversa pela internet. Depois do baque, comecei uma apuração jornalística na tentativa de localizar a família a fim de entrevistá-los para uma matéria e consegui. No outro lado da linha, atendeu-me, Genésio. Enganou-se o leitor se pensa que se tratava de um Júnior, ou um Filho, que nada, Genésio Vieira era genro de Genésio José de Oliveira e há 16 anos está casado com Cleia de Oliveira, filha mais velha do tio do amendoim. E a coincidência não tem outro nome senão coincidência. Educadamente, Genésio, o genro, topou a entrevista. Acompanhado de uma excelente fotógrafa, fui destinado a conhecer e a contar, depois, a história do mais importante vendedor que a Unisul já teve o prazer de permitir concessão ao comércio. As fontes seriam os familiares, e a casa o estúdio.

Sai de casa com uma ideia fixa: conversar, principalmente com a viúva, dona Mariza Terezinha de Oliveira. Felizmente foi diferente, pois a entrevista virou bate-papo. Um interrompia o outro, o outro interrompia o um. Salvo alguns resquícios de saudade e lamentação os “causos” contados motivaram muitas gargalhadas.

In loco, o gravador era a única resistência jornalística. Até a fotógrafa entrava na conversa, matando suas curiosidades. Noutros momentos, ouvia-se uma risada dela. O bloco e a caneta eu logo abandonei, focado em ouvir as declarações da árvore genealógica que Genésio construiu baseadas sobretudo no respeito e na educação.

Os familiares contaram-me que Genésio não gostava de acordar cedo. Levantava-se perto do almoço. Sentava-se à mesa com a família e, depois da refeição, começava a rotina como ambulante. Só acordava mais cedo se precisasse renovar o estoque. Então, pedalava até o Direto do Campo no Centro de Florianópolis.

Já em sua casa, ele torrava e ensacava o produto para finalmente vendê-los em três pontos da Palhoça: praça central da cidade, prefeitura, e a Unisul, de onde retornava às 22h30min. No aconchego da casa, no Bairro Caminho Novo, tomava o banho e anotava o lucro das vendas num caderninho.

O ritmo de vida foi interrompido numa terça-feira, 14 de agosto. Ele que, aos 17 anos havia superado um derrame, e que já tinha sofrido outros dois acidentes graves ¬- um desses arrancou-lhe um dedo da mão -, não resistiu aos ferimentos e aos 71 anos saiu da vida e embarcou em nossas memórias.

Segundos antes da conversa, eu estava aflito, porque poderia encontrar pessoas tristonhas. Eles não estavam felizes, mas nos receberam com alegria e não poderia ser diferente. O tio do amendoim não admitiria que aluno da Unisul fosse mal recebido. Saímos da conversa com sentimentos divididos. Ora lamentávamos a perda, ora ríamos das maravilhosas histórias.

Estávamos de saída e fomos agraciados com pacotes dos últimos amendoins que Genésio tinha preparado para vender. São esses mesmos que mastigo e, agora, engulo, para deixar nessas linhas que se estendem saudosas, o saboroso gosto do Amendoim Genésio.

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