Carta a um crítico da mídia

Ethevaldo Siqueira

Esta carta responde ao comentário de um leitor que se assina Júnior, a respeito do meu artigo A paranoia contra a imprensa, publicado em meu blog no Estadão e neste site. A íntegra do comentário do leitor pode ser lida no pé deste texto. Júnior, como tantos críticos apressados da internet, você me escreveu há algumas semanas para dizer que a mídia nos lega um engodo, a cada dia, pela TV, pelo rádio ou pelo jornalismo impresso.  Que engodo, Júnior? Na verdade, a mídia dá-nos sua visão do mundo, da realidade, dos fatos, com múltiplos ângulos, sob a ótica de centenas de profissionais, nos jornais, nas revistas, no rádio e na TV. E, posso garantir-lhe, com muito menos distorção do que você revela em sua avaliação da imprensa.

Você diz, com todas as letras, que a mídia tem seu papel social. Ou seja, você descobriu a pólvora. Mas, lembre-se: a influência da imprensa não é unidirecional.

Em seu conjunto, a mídia é multifacetada, diversificada, para refletir as mais variadas tendências e posições. Só assim ela pode ser totalmente livre. A mídia está em permanente busca da liberdade.

Júnior, você diz ser mais um anônimo que busca reposicionar-se perante este mundo moderno. E acusa a mídia brasileira de não ser livre. É claro que não podemos falar em liberdade absoluta. Nesse sentido, nenhuma imprensa é absolutamente livre em todo o mundo. Eu perguntaria: o que é ser livre para você?

Você se cala diante de fatos como a decisão arbitrária de um juiz que impede o Estadão de publicar o conteúdo de um processo de corrupção, que só contém fatos de interesse público. Nesse caso, sim, a imprensa deixa de ser livre, porque está cerceada, manietada.

Se você conhece um pouco da história da imprensa brasileira, sabe que este jornal já sofreu na própria carne a censura manu militare, durante cinco anos, nos tempos do Estado Novo, e mais outros cinco, na ditadura pós-64.

A maior violência, a rigor, não foi contra o jornal, Júnior, mas, sim, contra a sociedade em seu direito à informação. Milhões de cidadãos não puderam tomar conhecimento de fatos relevantes ocorridos em seu País, nem da corrupção, da violência, das torturas, dos escândalos, das falcatruas, das mentiras e de todos os abusos dos poderosos.

Talvez você, Júnior, não tenha idade para saber de tudo isso – e, provavelmente, não saiba o que foi a ditadura. Talvez não saiba, também, o quanto nos custou lutar para que a liberdade fosse um benefício e uma conquista para todos os brasileiros, tão ampla que lhe garante até o direito de insultar a própria imprensa.

Ah, Júnior, como você repete chavões. A liberdade da mídia nada tem a ver com o fato de um mesmo grupo controlar eventualmente uma emissora de TV aberta, uma TV a cabo, uma rádio e jornal impresso, como você acusa. Você não vê a mídia, no seu conjunto, na sua diversidade de meios e de órgãos de imprensa.

O que é o ditador da informação, para usar sua expressão? Como jornalista e como cidadão, concordo que nossa mídia, como qualquer outra instituição, tem muito que progredir, precisa e deve aperfeiçoar-se. Digo o mesmo dos políticos, do Congresso, dos partidos, da Justiça, das igrejas.
Concordo ainda em outro ponto com você: a sociedade brasileira merece mais. Verdadeiramente, merece muito mais, por parte de todas as instituições. Não seja injusto, Júnior, ao revelar visão tão estreita e unilateral sobre essa questão.

Mesmo com todas as eventuais falhas e defeitos, nossa mídia não precisa de nenhum controle social. Precisa, sim, de regulação democrática – mas não de regulação de conteúdo.

Muito mais do que você, Júnior, nós queremos democracia nos meios de comunicação – com o fim da censura prévia judicial, das ameaças dos chavistas tupiniquins, das ameaças permanentes dos totalitários de esquerda e de direita. Isso não é corporativismo. E mais: a mídia não abafou nenhum caso, como você acusa sem sequer mencionar fatos. Não diga uma coisa tão sem sentido.

Mais do que você, eu acredito que a internet vai mudar a cabeça das novas gerações. Exatamente porque – como você diz – permite interagir com o ouvinte, o leitor, o internauta, como neste caso. Além disso, abre espaço para a expressão das mais diversas opiniões e de conteúdo.

Você fala em curral midiático. Outro chavão ridículo. Sabe onde existe curral midiático? Conheço aquele que vigora em ditaduras – como as do Irã, de Cuba ou da Coreia do Norte.

Exatamente como você esclarece no final de sua mensagem, eu também lhe peço: não leve para o lado pessoal, pois não escrevo a você, mas sim à sociedade. Você é apenas um interlocutor que ainda não descobriu o verdadeiro papel, a verdadeira função da imprensa numa democracia. Pense nisso.

Grande abraço.

Comentário enviado por Júnior

“Sr. Ethevaldo, prefiro tratá-lo com formalidade, pois diferentemente a essa intimidade que nos é imposta pela mídia, não creio que temos tanta proximidade. Não quero iniciar de forma ríspida, mas apenas já pontuar, na minha modesta opinião, mais esse engodo que nos legam diariamente, quer seja pela TV, rádio ou jornalismo impresso. Sim, sou mais um que concorda com o papel social da mídia e a importância de esta ser livre, acima de tudo, conhecedor da sua real influência na sociedade e tendências. Sou mais um anônimo, que busca reposicionar-se perante este mundo moderno. Nossa mídia não é livre. Desafio qualquer um a que me prove o contrário. Como a mídia pode ser livre, se um mesmo grupo controla uma emissora de televisão aberta, uma TV a cabo, uma rádio e jornal impresso, sem querer entrar nas diversas relações com as demais emissoras? Está mais para uma ditadura. Sem considerar os diversos “ditadores da informação”, que ruminam os seus pensamentos e impressões pessoais há mais de 30 anos. Efetivamente âncoras, do passado e de certos “pensamentos”. Merecemos mais. Será que não está na hora de abrimos espaço para os novos? Novas opiniões, nova forma de ver o mundo? Mas estamos vendo a famigerada “sociedade”, tão louvada e “defendida” pela mídia oficial, se organizar, criticar e cobrar mais democracia nos meios de comunicação. O que realmente ocorreu ? Um grande exemplo de corporativismo. A mídia se uniu e “abafou o caso”. Mas, diferente dos “ditadores da informação” de plantão, acredito no Brasil e vejo uma luz no fim do túnel. Ave a internet. Que não só permite interagir com o ouvinte, como neste caso, mas está abrindo espaço para expressão das mais diversas opiniões e de conteúdo. Estamos presenciando o fim desse curral midiático, antes mesmo que a própria mídia. Mas não leve para o lado pessoal, pois não escrevo a você, mas sim à sociedade, pois somente é o meio.
Abraço, Júnior”

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