Predestinado 6

1/06/08

No último dia de julho de 1964 embarquei em São Paulo no DC-6 da Panair rumo a Lisboa, no chamado Vôo da Amizade. Deveria embarcar no dia 30, mas o avião teve uma pane no Rio de Janeiro e o meu vôo foi transferido para o dia seguinte. 

 

Chegamos ao Recife com pane. Deram um jeito e seguimos rumo à Ilha do Sal. Lá foram 6 horas de espera, num calor infernal ou africano, que é a mesma coisa. O avião estava com problema. Sanado o defeito, graças à criatividade do brasileiro, rumamos para Lisboa. Em lá chegando o avião começou a rodar sobre a capital lusitana, para consumir o combustível. O trem de pouso não queria descer.

As portuguesas a bordo foram puxando seus rosários e todo mundo começou a rezar. A dúvida era se eu conseguiria colocar os pés no continente de onde vieram meus antepassados. Por fim tanto cavocaram que o trem de pouso desceu e o avião também. Mas uma roda travou, o avião fez um cavalo de pau e foi aquela gritaria. Tudo bem que lá em baixo, quando o avião descia, a gente via aquela movimentação de bombeiros e ambulâncias. De Lisboa foi de trem até Paris, onde tive que revirar a minha memória em busca daquelas palavras que Madame Dupont tentou me ensinar no tempo de Ginásio Belmiro César.

É que o trem chegou na Gare du Sud e o meu para Colônia saía da Gare du l´Est. Não foi fácil mas já diz o ditado que quem tem boca vai a Roma. Assim consegui chegar à Cidade da Catedral. Peguei um táxi e fui para a Deutsche Welle. A Evinha, alemã que foi casada com um médico brasileiro, era a secretária e levou-me até um hotel. Oito marcos por dia e 2,50 pelo café da manhã. Voltei com ela para a emissora.

À noite fui para o hotel e um automóvel parou para o motorista me pedir uma informação. Colônia com um milhão de habitantes e o homem vem perguntar logo para mim que estava chegando e que mal sabia bolar uma frase completa. Falando como índio tentei dizer que, tal qual o Lula, eu não sabia de nada.

1964 foi um ano quentíssimo e deu excelente safra de vinho na Alemanha. Cheguei no hotel e tive que buscar uma chave para tomar banho. Assim aconteceu a semana inteira. Como achei caro o café da manhã resolvi tomar num bar perto da Deutsche Welle. Quando fui pagar a conta no final da semana, levei um susto. O hotel custava 8 marcos por dia. O café da manhã custava 2,50 quando tomado. Se não tomava custava 1,75. E o banho eram outros 2,50 por vez. Aí entendi porque alemão costuma tomar banho na pia com um paninho que eles chamam de Waschlappe.

Tratei de alugar um quarto fora de hotel. Fui em experiência, mas pelo pessoal que trabalhava na emissora, percebi que seria aprovado. Mandei minha mulher vender as nossas coisas e ir pela Lufthansa, porque o Comandante da Panair me disse em Lisboa que não sabia como é que a gente ainda viajava com eles, que não tinham mais assistência em outros aeroportos e que se ele requisitasse ao Rio de Janeiro a peça que precisava nós teríamos ficado uns dois meses na Ilha do Sal. Logo em seguida o Marechal Castelo Branco fechou a Panair e deixou em apuros uma porção de turistas brasileiros que estavam na Europa, na base da cortesia.

Minha mulher foi campeã de vendas. No dia 15 de setembro já estava chegando em Frankfurt com dois filhos pequenos e uma na barriga. Quando recebi a carta dela só tive uma quarta-feira para encontrar um apartamento. Arrumei uma droga que fora habitada por uma família turca. Era um apartamento que foi dividido em quatro. O meu era de luxo porque tinha um quarto, um quartinho e uma cozinhazinha no outro lado do corredor de entrada.

O banheiro era comum a todos. E era uma banheira mesmo, onde eles mergulhavam. Nós não. Pegávamos aquele chuveiro-telefone e tomávamos banho. Ai de quem tivesse dor de barriga, pois a fila sempre estava formada. Busquei coisa melhor e o Carlos Struwe comunicou ao dono, um tal de Dr. Fassbinder, que eu iria sair. Ele pediu que fosse feita uma carta comunicando oficialmente. A carta foi feita e mandei, sem registrar. Na hora de buscar o dinheiro da caução o miserável negou. Disse para o Struwe que com ele ninguém falou e que não recebeu a carta. Morri com 350 marcos e foi a minha primeira experiência com o honesto povo alemão, quando se faz as coisas segundo a lei e por escrito, com registro.

Mudamos para uma mansarde. Era uma apartamento daqueles que tem as janelas no próprio telhado e paredes inclinadas. Foi ali que passamos o nosso primeiro Natal Branco. Aliás, eu anunciara  que seria branco e minha mulher tirou o maior sarro quando fomos deitar na noite do dia 24 de dezembro, pois não havia o menor sinal de neve. Pela manhã do dia 25 quando ela me chamou para ver a neve eu achei que continuava sendo gozação. E não é que o nosso telhado e toda a cidade estavam cobertos com um manto branco.

Apesar do aperto financeiro e do golpe sofrido ante a ação deletéria do Dr. Fassbinder, saímos para almoçar num restaurante. Até parecia que estávamos em Blumenau. Todos os restaurantes estavam fechados. Acabamos comendo sanduíches na Estação Central da Estrada de Ferro Alemã. O tempo foi passando, em janeiro nasceu minha filha mais nova, mudamos outras vezes e um belo dia recebi uma carta do Dr. Wilson de Freitas Melro, diretor superintendente das Emissoras Coligadas de Santa Catarina. Estavam montando uma emissora de televisão e ele queria que eu voltasse para assumir um posto de mando.

Mandei carta perguntando quanto iria ganhar. Respondeu que 6.000 dólares ano. Voltei a perguntar: 6.000 dólares ano, para receber de que forma? Afirmou que se eu não conseguisse um comissionamento de 500 dólares mês, no fim do ano receberia a diferença. Com esta proposta você pode enriquecer aqui no Brasil, foi o que me escreveu. Retruquei de lá que depois de me acostumar a tomar vinho francês, comer presunto de parma e queijo suíço eu preferia continuar enriquecendo na Europa mesmo. Divaguei tanto que a continuação da história fica para o próximo capítulo.

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1 Resposta para “Predestinado 6”


  1. 1 altair fernandes

    Estava adorando a historia, e só vai continuar na próxima edição. Pois parece até aqueles seriados de cinema que assisti muito no cine marabá em Imbituba-SC, coisa linda e saudável como esta historia. Mas tudo bem, me mande o próximo capítulo, que estarei esperando com carinho e saudade.

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