Trilheiros, maratonistas e andarilhos por fé de ofício

16/06/12

Na Ilha de Santa Catarina que eu gosto de chamar de Ilha Encantada, existe uma “ferramenta” para medidas distâncias de qualquer tamanho: a milha de beiço e a melhor placa de tráfego: é logo ali… O mesmo se aplica no medir de uma rede, uma renda ou a boca de embarcação.  Andar pela Ilha Encantada, sessenta anos atrás era reaprender o sistema decimal ilhéu que é único no mundo, e curioso, até mesmo para os nativos. Nossa sede de Escoteiros do Mar quando deixamos de ser meninos de rua ou  sem teto ali na Rua Bocaiúva, vivíamos orientados por esse curioso e misterioso sistema métrico.

Claro que no nosso jargão passo escoteiro, continuava valendo: quarenta passos andando e quarenta correndo e era usado por seniores e chefes, porém, quando nos deslocávamos com nossas patrulhas de escoteiros havia que poupar os meninos, pois ir a Canasvieiras, Ingleses, Pântano do Sul ou Naufragados era coisa de mais de 40 km e aí usávamos a velha técnica militar: 50 minutos andando e dez de alto horário quando se descansava arrumando e reajustando mochilas e outros equipamentos.

Na época, entre 1954 e 1965, éramos taxados de malucos, gosto estragado e abobados… Hoje vemos o modismo das “trilhas” quando até empresas se formam como um negócio lucrativo… até  “maratonistas” se organizam em clubes e federações” para fazer o que nos tempos de escotismo era rotina…

E o pior é que nos confundiam com os “andarilhos anti obesidade” à beira de rodovias respirando gases venenosos dos veículos automotores.

Naqueles tempos, que hoje parecem pré históricos diante das atrocidades da ditadura militar nos denunciavam como treinadores de guerrilheiros mirins. O fato é que naqueles tempos  quem possuía o dom de medir espaços, distancias, ou tempos, era um sábio, um cientista, um extra terrestre, como se dizia. Mal sabiam quantas gostosas gargalhadas nos brindaram quando tentávamos aprender tais ciências métricas com os mestres canoeiros, olheiros de pescarias ou os fantásticos manja tempo.

E as conversas, então.

-       Mestre quantos palmos vai ter essa canoa quando pronta?

-       Óia esse minino, querer saber o que não sabe…trinta parmo seu moço.

-       Daqui do PantoduSuli, até a cidade, vamos ter que fazer quantos pés?

-        (Risota do Miquieli e Dona Zefa: – du jeito que ocês anda vão é drumi nu caminho…”

No mar então era aquela desgraceira:

-       Vem lestada mininos… não fiquem muito longe… nem uma légua, qui asdispôs vem a tribuzana…

Não é atoa que eu tive escoteiros que mais tarde escreveram sobre bruxas, lobisomem e velho da capa preta.

Cultos de Academia de Letras precisam viajar mais pelos sertões e veredas e interpretar o ilhandês e parar de querer interferir nos falares e modismos naturais de nosso povo e nossa gente, pois quem sai do Brasil e vai a Portugal, custa a entender os Alfacinhas.

Milha de Beiço, palmo de pé… pé ante pé… Como é que os ingleses inventaram que o pé – feet-foot – tem 33 cm e o palmo é de 22 cm? Já viram o pesarão  de um inglês e os pezinhos de um lisboeta?

As medidas certas ainda são dos nossos Ilhéus, sejam eles canoeiros, pescadores ou roceiros.

Eu ainda me guio pela milha de beiço e pelo palmo de língua…Voce já comprou meio arquê de farinha ou um litro de camarão? Então vai te coçá… vai…Tais cheio de micuim…

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