Passei minha primeira Páscoa na Ilha a pão e margarina, disse o ex-estudante que não teve como visitar a famÃlia, a 600 quilômetros da Capital. Foi a grande provação de seus dias de acadêmico, porque a maioria dos colegas viajou, feliz com a oportunidade de abraçar pais e irmãos. Ele ficou ali, sem RU, sem grana, sem um ombro amigo. O que a famÃlia mandava mal lhe permitia passar o mês, até que o crédito educativo viesse para aliviar a situação. Naquela pindaÃba, mesmo um ônibus convencional seria luxo demais… Pior foi comigo, afirmou seu interlocutor. Era repórter numa cidade do interior, e os colegas de república também aproveitaram o feriadão para descansar no aconchego da casa paterna.
Sem dinheiro, com a geladeira esvaziada pelos fujões, ele passou três dias comendo limões, com casca e tudo, para dar conta das cobranças do corpo. O que mais fez foi dormir, porque assim, como acontece com todos os famintos do mundo, o ronco do estômago é menos dolorido.
Ao que se sucedeu outro depoimento, comum entre os ex-alunos de origem pobre, que são mais numerosos do que se imagina numa cidade universitária. Pedi uns cruzeiros emprestados para uma dúzia de conhecidos, relembrou o agora engenheiro bem encaminhado na vida. Ninguém tinha confiança para entregar seus cobres a um pobre diabo que não sabia de onde tirar para a devolução. O resultado foram vários dias de bananas furtadas na venda, com o coração aos saltos, porque sua formação religiosa não admitia esse tipo de pecado.
E o que dizer da garota que ficou sem dinheiro e sem transporte no centro da cidade, num carnaval dos anos 80, porque confiou numa carona que não se confirmou? Vim a pé até a Trindade, contou, depois das duas da manhã, encarando esquinas escuras, sujeitos de má estampa, bêbados no meio-fio, cantadas a cada 100 metros. A certa altura, precisou correr, porque um barbudo quase sem dentes resolveu persegui-la perto da penitenciária. Dali em diante, nunca mais foi ver os blocos de sujos ao redor da praça 15…
Não menos traumática foi a experiência do playboy que tinha um Fiat 147 incrementado e o hábito azarar as meninas da periferia, nos fins de semana, deixando as apostilas de lado em nome de uma paquera. Por descuido, ficou sem gasolina lá pelos lados de Barreiros, perto da Vila Palmira, de fama duvidosa, na madrugada de um sábado. Dormiu no carro, aos sobressaltos, com gente de todos os tipos passando ao lado e resmungando ameaças. A insônia e a dor de barriga duraram uma semana.
Paulo Clóvis | Editor Opinião | Jornal NotÃcias do Dia | 48- 3251 -1437 | skype:paulo.clovis | twitter: pc_ND
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