Tributo ao chefe escoteiro Paulo Roberto Guimarães
Na condição de Grupo Aberto e Não Patrocinado o nosso Grupo de Escoteiros do Mar, por associação de idéias mais parecia O asilo da Roda: qualquer menino que aparecia em nosso portão e dizia querer participar de grupo era bem vindo e mesmo com as patrulhas já completas, esse garoto tinha um lugar. Tivesse oito anos ou dezoito – lobinho, escoteiro, sênior ou pioneiro, a Casa 69, velha e decrépita, mas hospitaleira e acolhedora, estava lá. Não tínhamos luz elétrica, por que nossos lampiões iluminavam… Não tínhamos fogão, por que uma fogueirinha no pátio, sob o pé gigante de araçá, era nossa eterna cozinha de campo.
Então, lá estavam meninos da Avenida Trompowsky, da Avenida Mauro Ramos, e também meninos dos morros da Caixa, da Mariquinha, do Tico-Tico, do Mocotó, do Juca, do Loyd, da Cruz; enfim, do Estreito, Itacorubi, Trindade e outros bairros. E o que mais? Também lá estavam meus alunos da Escola Industrial, do Ginásio Noturno “Antonieta de Barros”, e outros mais.
Quanta atividade urbana fizemos nesses morros, ombro a ombro com os moradores! Quanto curso profissionalizante; quantas fossas sépticas para saneamento primário!
E o que não conseguimos? Escolas, parquinhos, praças e jardins, por que os prefeitos e governadores, quando íamos a eles, nos diziam: “Chefe Feijão, você ainda não aprendeu a lição dos rádios para pescadores? Pobre quanto mais se ajuda, cada vez mais se multiplica… e aí tudo se complica, pois o Clube da Lanterna da Eterna Vigilância lacerdista, nos cadastrará como comunista, como fizeram contigo”.
Frequentamos muita festa junina nesses locais de gente pobre, de pobres comunidades, igrejas pobres, sem posto de saúde, sem socorro de urgência, sem voz, mas com esperança.
Segurança? Nem pensar. Apenas algumas senhoras organizadas em clubes de mães procuravam cuidar da comunidade, mas eram esforços isolados que não duravam muito.
Então, quando nossos meninos chegavam uniformizados de escoteiros, eram festejados e tratados como pequenos heróis, pois eram a ligação do isolamento com a cidade a seus pés.
Na visão de algumas lideranças mal intencionadas e criminosas, os moradores do morro só serviam para votar ou servir de mão de obra de pagamento aviltado, ou ainda como polícia quando precisavam de algum bote expiatório para algum crime hediondo de alguma figura de família poderosa da cidade.
O Grupo Escoteiros do Mar, enquanto o pai do Chefe Agostinho esteve aqui, fez muitas atividades e tentou mudar a leitura de “Morro e Favela”, embora sofrendo críticas de integrantes do próprio movimento escoteiro que – por ignorância ou comodismo – consideravam nossas atividades comunitárias como perigosas manifestações comunistas.
Então, olhando para a realidade daqueles dias e comparando com o momento atual é de se perguntar: quem perdeu mais? A gente do morro – que ainda pouco se valoriza ou a sociedade como um todo que a cada dia mais se enclausura na ilusão de que se escondendo estaria se defendendo.
Defendendo de quem? Do ladrão de galinhas do morro ou dos mega bandidos que compram de empresários a políticos, de policiais a magistrados?
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Acaert Notícias
Antunes Severo/Blog
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