Até os anos de 1950, quase todo o guri tinha uma setra. Setra, para nós curitibanos, é aquela forquilha de galho de árvore, com elásticos, com a qual a gente atira pedras. Em outras cidades chama-se estilingue, bodoque, atiradeira. Como eu ia dizendo, muitos anos atrás, quase todo guri tinha a sua setra, se bem que nem todos caçassem passarinhos. Os piás da nossa turma, do bairro antigamente conhecido por Campo da Cruz, iam matar cobras com setras no mato do Parolim (perto de onde hoje é o Supermercado Extra, na Av. Kennedy). Aquilo era um grande matagal antigamente. Â
A gente caminhava quilômetros, da Praça do Coração de Maria (Ouvidor Pardinho) até o Parolim, para tomar banho pelado no rio que passa por ali. Esse rio cruza algumas favelas, entre as quais, a Favela do Valentão que surgiu bem mais tarde, e hoje está completamente poluÃdo.Â
Era uma das nossas diversões, mas na verdade, o que a gente esperava com mais ansiedade era a hora do treino de futebol na Praça da Igreja. Com bola de meia ou de borracha e, mais tarde, com bola de couro, os jogos eram intermináveis. Enquanto dava para mal-e-mal enxergar a bola a gente se matava de correr. Jogávamos descalços.
Quanto tropicão de virar a unha do dedão, quantas vezes a gente engatava os pés nos galhos de guanxuma que se enfiavam entre os dedos interrompendo a jogada e fazendo a gente gemer de dor. Jogávamos descalços sim, mas havia guris que tinham os pés mais duros que couro de chuteira. Uma canelada de bico doÃa pra chuchu.
De repente, a noite chegando, a Praça já muito escura, as mães começavam a aparecer nas janelas e a chamar os filhos para jantar. A gente fazia de conta que não ouvia e continuava a jogar bola. Então os gritos ficavam mais fortes e todos sabiam que estava na hora de obedecer. Não jeito. O treino terminava ali.
Ubiratan Lustosa. Raia, setra, sapecada e outras narrativas curitibanas! Livro recém lançado pelo Instituto Memória Editora. www.institutomemoria.com.br
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Acaert NotÃcias
Antunes Severo/Blog
Prezado Ubiratan
Tenho procurado seus livros e as livrarias me dizem que não exitem mais. Como consegui-los
grato
Waldemar