Era uma vez uma menina muito bonitinha que vivia num pé de caqui. Quer dizer, na verdade, a menina não morava no pé de caqui, ela estava sempre empoleirada num caquizeiro. A menina vivia feliz com seus pais e irmãos – um menino e uma menina – num chalé muito bonito que tinha uma grande varanda na lateral e um pequeno jardim na frente da casa onde alguém, um dia, plantou um bambu-de-salão e uma roseira de Santa Terezinha.
Além de bonitinha, a menina era também muito esperta, tinha o olhar sorridente e costumava cantarolar uma antiga canção que diz assim: “Eu vivo a vida cantando, ai Lili, ai Lili, ailô…”, conheces? Atrás, a casa tinha um terreno tão grande, mas tão grande, que subia o “morro”, depois descia o morro, depois subia outro morro e ia, toda vida, toda vida. Ir toda vida, no linguajar ilhéu, quer dizer muito longe. No linguajar infantil quer dizer muuuuito longe, muuuuito longe. Para a menina, o que dava a medida da vastidão daquelas terras era o fato de que, por cima do morro, o seu quintal extremava com as terras do Hospital de Caridade. Isso a enchia de orgulho, pois o Hospital fica na cidade, e a cidade era muuuuito longe, como, aliás, tudo é muito longe quando se é pequeno. O seu quintal feito de morros era cheio de goiabeiras, pitangueiras, ameixeiras e pés de jambo carregados de frutas, abelhas e marimbondos. O caquizeiro ficava nos fundos da casa. Para ser mais precisa, ficava na lateral esquerda dos fundos da casa, olhando de frente. Cresceu encostado, assim, meio de banda, contornando a construção, e era exatamente esse seu defeito de nascença que o tornava singular. Era tão grande a sua generosidade que, além de oferecer os seus deliciosos frutos, ela ainda encostara os seus galhos na casa para que a menina pudesse comer caquis, sentada no telhado. E então ela vivia lá em cima, comendo caqui e olhando para o mundo. E olhando para o mundo que ficava nos fundos da casa, ela via a mata exuberante, cor de esmeralda, cheia de pitangas e goiabas. Olhando para o mundo que ficava ba frente da casa, ela via o mar da cor dos seus olhos, e dos olhos da sua mãe, e dos olhos da sua vó e dos olhos da sua bisavó que adorava contar histórias. Por falar em sua mãe, essa vivia dizendo: – Cuidado com o vestido! Caqui deixa uma nódoa que nunca mais sai! Para a menina, mais assustador do que “nódia” de caqui era a palavra nunca. Nunca era muito tempo. Tanto tempo que, por não alcançar uma compreensão tão grande, logo a menina se distraía com outra coisa e mudava de assunto. Cinqüenta e poucos anos depois, o chalé não existe mais. Não existem mais o bambu-de-salão, nem a roseira, nem o caquizeiro. Em seu lugar tem uma rua, bem onde outrora foi a casa. O morro ainda está lá, mas a mata não é mais a mesma. O mar também está lá, ou o que restou dele depois do aterro, mas não me fez recordar os olhos das mulheres da família. Aquela menina aportou em minha casa anteontem. Veio escondida numa caixa de caquis que ganhei de presente e, desde então, não me dá sossego. Comecei a padecer de saudade. Saudade de um tempo de andar descalça e comer fruta sem lavar e sem saber que isso dá doença, tempo de comer caqui até passar a vontade, ignorando que um caqui médio tem 250 calorias, tempo de confiar nas pessoas, sem distinção, porque nas brincadeiras de bandido e mocinho, até bandido era confiável, pois acreditando que o mal não pode triunfar, aceitava morrer no final. O bom é que a gente só matava o Mal, porque o bandido era o irmão ou o amigo da gente e, “amigo é coisa para se guardar”, como já ensinou o Milton. Aquele era um tempo de confiar na eternidade da paisagem que eu via de cima do telhado e na existência de um céu onde morava um deus que tudo sabia e tudo podia, portanto, nada de mal poderia acontecer. Senti saudade daquela inocência e descobri que, afinal, minha tinha razão. Nódia de caqui não sai nunca mais!
A autora nasceu no Morro do João da Chica no bairro do Saco dos Limões em Florianópolis.
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Acaert Notícias
Antunes Severo/Blog
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