Luzes! Câmera! Há sangue!

26/06/11

Cena 1: Um samurai desempregado chega a uma cidade onde dois bandos disputam o poder. Ambos têm forças equilibradas e, volta e meia, se confrontam na rua principal onde, a uma distância segura, se ofendem e desafiam uns aos outros. No entanto, nunca entram em choque direto, numa alegoria à Guerra Fria. O samurai se torna, então, o fiel da balança, disputado pelas duas gangues. É emblemática a cena em que Toshiro Mifune, o protagonista do filme “Yojimbo” (Japão, 1961), do alto de uma pequena torre, no meio da rua, observa o enfrentamento “platônico” dos bandos.

Cena 2: Todas as gangues de Nova Iorque estão reunidas no Central Park, convocadas para uma reunião misteriosa. O líder carismático da mais poderosa – autor do chamado – inicia seu discurso, comparando o poder dos bandos com o da polícia local e pregando a união de todos para dominar a cidade. Drogado e indiferente ao conteúdo do discurso, o líder de um dos grupos assassina o orador, pondo a culpa na gangue dos “Warriors”, de Long Island. Sem saber da falsa acusação – e da campanha codificada pela qual uma emissora de rádio, ligada ao líder morto, exorta todas as gangues a eliminá-los – eles empreendem uma odisséia ao seu “território”, subúrbio

pobre, regada a socos ingleses, tacos de beisebol, canivetes, brigas em sanitários públicos e muito, muito sangue! Esta é a história contada no filme “Selvagens da Noite” (The Warriors, EUA, 1979), que provocou violentas brigas entre gangues, em vários cinemas onde foi exibido.

Filmes sobre gangues são comuns e tiveram, ao longo dos anos, várias abordagens:

“Amor Sublime Amor” (West Side Story, EUA, 1961) é uma versão moderna, sensível e musical de “Romeu e Julieta”; “Gangues de Nova Iorque” (Gangs of New York, EUA, 2002), aborda o tema sob ponto de vista histórico e, por isso, distante (Será?).

O problema é que, sob a bandeira do “realismo” a qualquer custo, esses filmes têm perdido progressivamente suas características, digamos, edificantes.

Em “Anjos da Cara Suja” (Angels With Dirty Faces, EUA, 1938), James Cagney interpretava um mega-marginal, sanguinário e destemido, ídolo das crianças de seu bairro, que viam nele um exemplo a ser seguido. Preso e condenado à morte ele é visitado por um amigo de infância, agora padre (Pat O’Brien). Este lhe suplica que, ao menos na hora da morte, exorte os jovens a outro tipo de vida. Impávido e irônico, ele recusa a idéia. Sentia-se um herói e enfrentaria a morte com a mesma arrogância e cinismo com que havia vivido.

Na época era comum a transmissão de execuções pelo rádio e os meninos acompanhavam atentamente o locutor, que se admirava da atitude firme e resoluta do bandido, e do ódio e sarcasmo que transparecia.

Subitamente, acometido de uma crise de consciência, fruto das palavras do amigo, o bandido simula teatralmente uma crise de covardia, chorando e implorando pela vida. E morre assim…

Frustrados pela “fraqueza” demonstrada pelo ex-herói, os jovens se desencantam da marginalidade sob os olhos de um aliviado e reconhecido padre.

Resumo da ópera: sempre houve violência, que sempre influenciou nossa juventude, sobretudo a menos abastada, por falta de opção; embora encontre versões “sofisticadas” em meio às elites, por “diversão”. O que mudou é maneira como ela vem sendo abordada pela mídia. Justificado no “realismo”, o cinema passou do combate à neutralidade e, depois, quase inconscientemente, à apologia, muitas vezes dissimulada nos chamados “filmes-denúncia” ou “filmes de arte”.

No Brasil, principalmente, essa “escola” frequentemente recorre à violência, à degradação moral e social, e à sensualidade vulgar e gratuita para atingir, com baixo investimento financeiro, o mercado internacional.

As reações dos espectadores externos são previsíveis: esse público, ao mesmo tempo em que se choca com as cenas, sente-se confortado por sua suposta “superioridade social”. Para essa assistência de “primeiro mundo”, normalmente mal-informada do que se passa no Hemisfério Sul, o Brasil e os brasileiros são julgados por esse tipo de publicidade. Quem mora ou já morou no exterior sabe do que estou falando.

Um filme de Hollywood sobre violência é um produto da indústria cinematográfica, entretenimento. Um filme sobre violência do Brasil é “um retrato da fraqueza moral e da corrupção do país”.

Dizem que o cineasta Oliver Stone, depois de ver “Cidade de Deus”, teria afirmado que um país onde aquilo acontecia não merecia ser chamado de democracia. Alguém, por acaso, já o levou para fazer “city tour” nos subúrbios de Nova Iorque, Chicago, Washington ou Los Angeles? Um país que financiou ditaduras sangrentas e que faz guerras para equilibrar sua economia interna e garantir controle sobre suprimentos de petróleo é uma democracia?

E daí? Isso quer dizer que não devemos produzir filmes que retratem ou exponham nossas mazelas? Censura? Longe disso. A violência, a corrupção e o tráfico de drogas já são amplamente conhecidos pela maioria da sociedade brasileira. Sádica, masoquista ou “voyeurista” ela assiste diariamente programas policiais, que exploram até as últimas consequências os aspectos mais sórdidos da miséria humana, sob a desculpa de bem informar e prevenir.

Sem falso moralismo, um “filme-denúncia”, nesse caso, soa oportunista. Afinal, o que mais pode fazer um cidadão comum além de cobrar providências das autoridades? Estas, sim, conhecem – com detalhes e há muito tempo – todos esses problemas, e têm meios e recursos para solucioná-los.

Não se questiona a qualidade técnica dos filmes, nem o direito à liberdade de criação e expressão; mas temo que, no afã de criar novas linguagens cinematográficas, muitos cineastas se deslumbrem com perspectivas profissionais fantasiadas, desconsiderando as consequências de sua obra, ou se realmente estão contribuindo, como alegam, para um processo de resgate social (lembram de “Pixote”?). Em muitos casos, seus filmes acabam despertando mais medos, preconceitos e paixões do que serenidade, discernimento e objetividade, condições indispensáveis à solução dos problemas que denunciam.

Gostaria, sinceramente, de ver a criatividade de nossos cineastas gerar menos produtos para execração xenófoba festiva, que têm como subproduto a destruição de qualquer vestígio de orgulho nacional, e mais empenhada na criação de uma nova onda: a do “filme-proposta”, onde, em vez de apenas denunciar, com realismo cru, estimulem a “volta por cima” e a esperança operosa do sonho coletivo, que pode se transformar em realidade em nós mesmos e onde vivemos. 

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