Nesses tempos de leituras desordenadas e aleatórias, somos surpreendidos, de quando em vez, por revelações perturbadoras. Vou dar um exemplo: não há como ficar indiferente à constatação de que a Lua vem se afastando da Terra na ordem de dois centÃmetros por ano, ou cerca de 3,8 metros a cada século. Temos sido privados do contato visual com nosso mirrado satélite neste verão pródigo em cúmulos e nimbos, mas daà a aceitar esse abandono progressivo, esse rompimento sem volta, vai uma distância e tanto.
O temor faz sentido, porque chegará o tempo em que nem os namorados terão mais a Lua como testemunha de seus atos. Como serão as juras, as promessas, as confissões às escuras, na cumplicidade da noite, sob a luz insuficiente das estrelas – que também, diz a Ciência, afastam-se uma das outras, e por consequência da Terra, de forma irrevogável? Poetas perderão um de seus grandes motes, e até as superstições relacionadas ao astrozinho que opera como um espelho do Sol vão morrer por carência de sentido.
Tudo bem que os tempos não são mais tão generosos em romance, em ternura, em suspiros por amores furtivos ou irrealizados. Hoje, namora-se no cinema, com o barulho desagradável e anti-higiênico da mastigação e de arrotos mal disfarçados. Ou no carro, na frente de um McDonalds, entupindo o estômago de carboidratos. Ou na rua, ou nos shoppings, ou no ônibus, à luz do dia. A Lua? Bom, essa perdeu a velha aura depois que os americanos devassaram parte de sua superfÃcie, nos idos de 1969.
De qualquer forma, saber que a Lua vai se distanciando da Terra preocupa porque mostra que nada é imutável, que um dia também nos faltará o Sol, que nosso planeta caminha para um fim que será testemunhado por uma geração de humanos em pânico. Até lá, estaremos ocupando outros mundos, porque o homem não venderá barato essa capitulação ao insofismável e derradeiro dia. Porém, na falta de vagas para todos, a arca de Noé do futuro, movida a nitrogênio, deixará muita gente para trás, privilegiando donos de heranças polpudas ou gente que economizou para comprar a passagem de ida.
Nesta época de leituras difusas, saber que a luz solar refletida na Lua chega a nós em apenas 1,3 segundo também assusta. E há quem fale em anos-luz, em milhões e bilhões de quilômetros, em galáxias ainda não descobertas, em estrelas que já morreram e cuja luz ainda nos abastece!
Melhor ficar por aqui, e trocar Stephen Hawking por Shakespeare, que se ocupava apenas de homens e tempestades, nunca de nebulosas e buracos negros.
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Acaert NotÃcias
Antunes Severo/Blog
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