No espetáculo “Kashimir Bouquet”, que deveria se chamar “Ivaldo reencontra o velho Ivaldo”, temos um bom exemplo educacional.
Por Anna Verônica Mautner
Ivaldo não só é um dos seres mais sofisticados que esta cidade já criou, mas também um dos mais realizadores e fazedor. Descobrindo sempre tudo antes de todos outros, ele vem movimentando esta cidade há pelo menos quarenta anos, se não mais. Ele quase sempre (digo “quase” porque ninguém é perfeito) transmite a revolucionária idéia de que a visão total do movimento pode independer da uniformidade formal de suas partes.
Sua escola de dança para adultos tem sempre uma “apresentação de fim de ano” como qualquer escola primária. Este seu novo virou sua tradição. O forte dele nunca foram os adolescentes, sei lá por quê. Seus alunos são quase sempre uma maioria de adultos – de jovens até a terceira idade. Apesar da idade, eles vão ficando eriçados quando o fim do ano vai chegando e a apresentação vai ocorrer. É um delicioso retorno à infância.
Muitas coisas aconteceram nestes quarenta anos. Ivaldo deu umas voltas por Bali, muito antes desse lugar entrar na moda. Andou pela Índia, deu uma espiada na Espanha e até em sapateado americano. Sua receita de movimento e som surpreende sempre. Uma nova música sempre.
Quero hoje falar donde ele veio e para onde ele chegou de volta. Digo retorno, digo de volta, porque andou se estranhando e passeando por umas – obviedades?! Talvez. Durante alguns anos, inventou menos. Mas quem é bom ao bom retorna e ele é bom de invenção. A onda ONG enriqueceu seu palco que até então era de seus alunos dançantes. Ivaldo emplacou de novo integrando estes novos diferentes e gerando uniformidades. E ele consegue.
Unidos sob os ritmos de “todo mundo” estão pessoas de “todo mundo”: brancos, pretos, mulatos, gordos, magros, altos, baixos, da periferia ou da alta burguesia, homens, mulheres, GLS. Todos fazendo juntos o que até a platéia, em dado momento convocada, foi capaz de fazer. As roupagens são quase iguais, sem sê-lo. Qual será, pois a função dos uniformes escolares? Vendo este espetáculo a gente ilumina a questão. Aliás, no palco, nada é igual, exceto o espaço e a luz. Faz cair a barreira entre palco e platéia, sem violência, sem autoritarismo. No espaço tão pequeno do palco, estes variados cidadãos dançantes não tropeçam, nem tem medo de esbarrar. Ninguém se estranha. Soltos – são disciplinados, profissionais. Nos poucos momentos que trajam roupas iguais entre si parece que Ivaldo quer destacar a diferença entre os momentos de maior liberdade e a férrea disciplina que passa desapercebida. Sentados na platéia sentimos a presença dessa liderança gerando uma liberdade que claramente não é dada de mão beijada. Liberdade inclui vontade e esforço.
Este traço de força suave é um modelo educacional muito importante que, se adotado pelo Brasil afora, poderia ser bem útil na linha da inclusão de todos.
Falei de Ivaldo Bertazzo.
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