Arquivo mensal para 09/04

Hugo Silveira Lopes

30/09/04

Hugo Silveira Lopes, iniciou a carreira de radialista no serviço de alto falante Som Azul Estúdio de Rosário do Sul (RS) no final da década de 1940, como locutor comercial.  Em 1951 passou a trabalhar na emissora local, a Rádio Marajá. Posteriormente transferiu-se para Santa Maria (RS) e daí para Florianópolis aonde chegou em 1968 para atuar na Rádio Diário da Manhã como locutor noticiarista. Chegou a diretor da Divisão de Radiojornalismo da emissora quando teve como companheiros de equipe Moacir Pereira, Fernando Linhares da Silva, Walter Souza, José Valério Medeiros, Augusto Casér e Adolfo Zigelli.

“Helena, Helena… vem me consolar”

30/09/04

Eta menina precoce. Com seis anos já dominava os auditórios com uma força e garra que continuam até hoje. Helena Martins, para ler, reviver e ouvir, como nos tempos que não voltam mais.

Da redação.Helena Martins despretensiosa e ao mesmo tempo cativante, chamada ao palco, foi chegando, subindo no banquinho para ficar mais perto do microfone e logo soltou a voz. Ah! E como era diferente, meio rouca, parecia às vezes soar um pouco desafinada, mas tinha o encanto de quem sabe o que faz. No instante seguinte, todos entendiam, ela era diferente, única, inigualável.

Boate Plaza ou Sabino’s Bar? O point no final da década de 1950

Assim nasce a cantora. Esse foi o início de uma carreira artística que se estende por mais de cinqüenta anos. Helena atuou por muitos anos nas rádios Guarujá, Anita Garibaldi e Diário da Manhã de Florianópolis e representou o estado de Santa Catarina no programa do animador César de Alencar no auge da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, juntamente com Elis Regina. Cantora no estilo romântico foi crooner da Orquestra do Clube 12 de Agosto e por muitos anos apresentou-se em shows como Uma Casa Portuguesa, Uma Noite em Paris, Maracatu, Uma Noite no Cassino de Estoril, entre muitos outros. Helena Martins, em 2001 gravou o CD As Rosas Não Falam e atualmente se dedica a apresentações em festas particulares, eventos e shows beneficentes.

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Ouça na voz de Helena Martins “As rosas não falam” de Cartola

Rádio: profissão, devoção, realização ou jeito de viver?

30/09/04

As datas maiores do rádio no Brasil estão centralizadas na penúltima semana do mês de setembro. Aqui, um pouco desse lado da história, incluindo entrevista em áudio com Hugo Silveira Lopes, presidente do Sindicato dos Radialistas de Santa Catarina.
Da redação.Na semana de 19 ao dia 25, passaram algumas datas muito especiais para o mundo do rádio, dos radialistas e dos seus apaixonados. Passaram silenciosas, discretas e quase despercebidas. Primeiro foi o Dia do Radialista, depois o Dia do Radiodifusor e finalmente o Dia da Radiodifusão. Para quem ama o rádio como nós, na verdade todos os dias deveriam ser do radialista, do radiodifusor, da radiodifusão e do ouvinte, não é mesmo? Lamentavelmente, as coisas não são bem assim.

O Dia do Radialista passou a ser comemorado após a assinatura do Decreto-Lei Nº 7.984 de 21 de setembro de 1945, assinado pelo então presidente Getulio Vargas que fixou os níveis mínimos de remuneração dos que trabalham em empresas de radiodifusão e dá outras providências. Pois parece que esse “dá outras providências” foi entendido como sendo o dia da alforria da classe e que, portanto, esse era o dia do radialista. O Dia do Radialista passou a existir de fato, mas não de direito.

Reconhecendo essa falha de interpretação o Sindicato dos Radialistas de Santa Catarina, em 2003 encaminhou correspondência ao deputado César Souza sugerindo a oficialização da data de 21 de setembro como o Dia do Radialista em Santa Catarina, já que no país a data existe de fato mas não de direito. A Assembléia Legislativa do Estado votou e aprovou a criação da data e o projeto de Lei foi sancionado pelo governador Luiz Henrique da Silveira em dezembro de 2003.

Como o Dia do Radialista, parece que o Dia do Radiodifusor também começou como uma prática, mas não chegou a ser oficializado. Pelo menos, não conseguimos dados junto a ACAERT – Associação Catarinense das Emissoras de Rádio e televisão  e tampouco no site da ABERT – Associação Brasileira das Emissoras de Rádio e Televisão.

O Dia da Radiodifusão foi criado em homenagem ao médico, antropólogo, poeta e professor, Edgard Roquette-Pinto que foi, antes de tudo, um apaixonado pelo rádio. Dedicou a vida ao estudo da radiodifusão, tanto em seus aspectos técnicos quanto no que dizia respeito à programação. Carioca, nascido a 25 de setembro de 1884, ele foi criado numa fazenda em Minas Gerais até completar dez anos de idade, quando retornou ao Rio de Janeiro com os pais. Aos 21, formou-se em Medicina e, em 1912, trocou as cirurgias por excursões ao Mato Grosso ao lado do sertanista Cândido Rondon. Viajava pelo simples prazer de desvendar a cultura do interior do Brasil.

Sua vida deu uma guinada radical em 1922, quando se comemorava o Centenário da Independência do Brasil. A antiga capital federal recebeu naquele ano a visita de empresários americanos que pretendiam demonstrar os avanços da radiodifusão, a nova coqueluche nos EUA. Roquette-Pinto deslumbrou-se. Para demonstrar como funcionava o veículo de comunicação, os americanos instalaram uma antena transmissora no pico do morro do Corcovado, onde hoje se encontra a estátua do Cristo Redentor. Após alguns meses, Roquette-Pinto tentou convencer o governo federal a comprar toda a aparelhagem trazida pelos americanos. Não conseguiu. Quem a adquiriu foi a Academia Brasileira de Ciências. Surgiu, então, a primeira emissora do País, a Sociedade Rádio do Rio de Janeiro, fundada em 1923 e comandada por Roquette-Pinto. A emissora passou a funcionar regularmente no dia sete de setembro de 1923, com o prefixo PRAA.

Mas, o interesse de Roquette-Pinto pelo rádio começou bem antes e se estendeu até sua morte em 18 de outubro de 1954. Vera Regina Roquette-Pinto, sua filha, lembra: “segundo suas próprias palavras em palestra pronunciada no Dia do Radioamador de 1944, foi em 1912, a bordo de um velho navio do Loide, o Ladário, que o levava para o Mato Grosso (…) que Roquette-Pinto travou conhecimento com o rádio, através de um transmissor de centelha”. Depois aprendeu o código Morse usado na telegrafia e acompanhou Rondon em suas pesquisas sobre o Brasil.

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>> Entrevista com Hugo Silveira Lopes, presidente do Sindicato dos Radialistas de Santa Catarina

Capacitando a radiodifusão catarinense

30/09/04

O SEBRAE/SC e a ACAERT- Associação Catarinense de Emissoras de Rádio e Televisão – assinaram no dia 17 de setembro acordo inédito no país, que prevê a capacitação dos profissionais que trabalham nas emissoras de rádio e tv do estado.

Por Marco Aurélio Gomes

O SEBRAE/SC e a ACAERT- Associação Catarinense de Emissoras de Rádio e Televisão – assinaram no dia 17 de setembro acordo inédito no país, que prevê a capacitação dos profissionais que trabalham nas emissoras de rádio e tv do estado. A assinatura foi realizada durante Seminário do SERT – Sindicato das Empresas de Rádio e Televisão, realizado no Intercity Hotel, em Florianópolis. Pelo acordo, o SEBRAE capacitará tanto os funcionários de todas as áreas das emissoras (jornalismo, técnica, comercial) como até mesmo os que ocupam cargo de diretor. “A idéia foi oferecer ao associado da ACAERT um programa completo de capacitação a um custo subsidiado pela entidade e pelo SEBRAE”, explicou o radiodifusor Ranieri Moacir Bertoli, presidente da Associação que reúne 183 emissoras (13 de tv e 180 de rádio).

O programa prevê várias etapas desde cursos de liderança, atendimento ao cliente, administração de custos, formação do preço de venda até oratória. Além dos cursos, o SEBRAE oferecerá consultoria pós-treinamento, palestras e planejamento estratégico. “Como não existia nenhum referencial no mercado, tivemos que encontrar um formato especialmente voltado para a área da radiodifusão”, afirmou Spyros Diamantaras, consultor responsável pelo Programa no SEBRAE/SC. “O modelo servirá de referência para outros estados”, completou. Pelo menos, 60 emissoras de rádio já manifestaram interesse em participar do programa.

Profissionalização - Segundo Ranieri Moacir Bertoli, a radiodifusão do estado se encontra em uma fase de amadurecimento, buscando a profissionalização do negócio para competir no mercado de comunicação. “Mesmo que a grande maioria das emissoras de rádio seja formada por pequenas empresas, a preocupação com a qualidade é constante. No mercado, não há mais espaço para o improviso”, defendeu. Prova disso foi o próprio Seminário do SERT que debateu, entre outros assuntos, questões de fiscalização, sindicalismo e o futuro do rádio no país.

Além da profissionalização, os radiodifusores também querem se posicionar, através da ACAERT e SERT, institucionalmente. No mesmo evento, as duas entidades assinaram uma campanha lançada pelo SAPESC – Sindicato das Empresas de Rádio e Televisão- pelo VOTO CONSCIENTE que, este ano, contou ainda com o apoio da ADI/SC (Associação dos Diários do Interior), ADJORI/SC (Associação dos Jornais do Interior) e da OAB/SC. A campanha, que alerta para a importância da escolha certa nas eleições municipais, veiculará até o dia da eleição. É a segunda vez que as entidades do mercado lançam campanha de conscientização no período eleitoral.

Helena Martins

30/09/04

Helena Martins de Souza, nasceu no Estreito em 04/09/1942 e logo despontou como uma garota precoce. Começou aos seis anos de idade cantando nos programas infantis da Rádio Guarujá dirigidos por Hélio Teixeira da Rosa, Acy Cabral Teive, Maria Alice Barreto e Mozart Regis, o Pituca. Esse foi o início de uma carreira artística que se estende por mais de cinqüenta anos. Helena atuou por muitos anos nas rádios Guarujá, Anita Garibaldi e Diário da Manhã de Florianópolis e representou o estado de Santa Catarina no programa do animador César de Alencar no auge da Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Cantora no estilo romântico foi crooner da Orquestra do Clube 12 de Agosto e por muitos anos apresentou-se em shows como Uma Casa Portuguesa, Uma Noite em Paris, Maracatu, Uma Noite no Cassino de Estoril, entre muitos outros. Helena Martins, em 2001 gravou o CD As Rosas Não Falam e atualmente se dedica a apresentações em festas particulares, eventos e shows beneficentes.

AN Capital – 30/09/04

30/09/04

Especialista critica linguagem usada em rádio
por Natália Viana

Para o radialista e coordenador do projeto Caros Ouvintes, Antunes Severo, o rádio foi sub-utilizado na campanha eleitoral. Isso ocorre devido a maneira inadequada de como o veículo foi usado e ao despreparo individual da grande maioria dos candidatos. “Falta entendimento das técnicas de linguagem do rádio, o que leva a uma simplificação muito grande, em detrimento da mensagem”, avalia o pesquisador.

Severo diz que atualmente o rádio está sendo usado para a promoção dos candidatos da mesma forma como se estivesse vendendo um produto qualquer de consumo. As causas seriam as características do rádio que fazem deste um instrumento de difusão único e usuários sem uma noção precisa de que o veículo tem uma linguagem própria. “Isso se observa tanto na propaganda obrigatória, como nas declarações e entrevistas. Fala-se como se estivesse escrevendo ou participando de um bate papo. Não há uma demonstração de conhecimento da linguagem e das especificidades do rádio”, completa.

O radialista afirma que o rádio foi o grande veículo político da década de 30, sendo muito utilizado por figuras como Adolf Hitler, Benito Mussolini e Getúlio Vargas. Mas, a partir da década de 40, inicia-se a utilização do rádio para divulgação comercial, distanciando-se da sua função social. “Isto resultou em uma confusão tão grande, que ainda hoje há dificuldades de identificar a comunicação radiofónica adequada”, aponta. Severo destaca que o rádio vem sofrendo com a falta de qualidade, mas isto não quer dizer que seja um veículo ultrapassado.

De acordo com ele, é um meio de comunicação que está passando por grandes transformações que não são percebidas pelo grande público. Uma das novidades é o rádio na Internet, um campo de conhecimento ainda muito recente, mas que já demonstra grandes possibilidades.

Crônica da Cidade

23/09/04

Hoje, por ser de aniversário, um presente especial, mesmo sem o consentimento do autor.

Réquiem pelo Ponto Chic
por Sérgio da Costa Ramos

O Café Nacional, esquina de Praça XV com Felipe Schmidt, era um reduto do PSD – e ali se instalavam as conspirações do partido. Vinte metros adiante, no Café do Quidoca, o “Rio Branco”, hospedavam-se os da grei oposta, a UDN – todos turbinados pela nova democracia do pós-guerra. Corria o ano de 1948, e no rádio tocavam os prefixos da época, o choro “Brasileirinho”, de Valdir Azevedo, ou o bolero “Quizás”, de Don Fabian.

Até que, quebrando a universal dualidade da ordem florianopolitana, surgiu, na esquina de Felipe com Trajano, o Ponto Chic, ao pé direito do novíssimo hotel, o Lux. Tudo em Floripa se organizava sobre esse universo dual: o PSD dançava no Clube Doze e tomava café no Nacional. Torcia pelo Avai nos campos e pelo Martinelli nas raias. A UDN valsava no Lira, tomava café no Quidoca, vibrava pelo Figueirense nas quatro linhas e, na baía sul, aclamava o “Aldo Luz”.De repente, essa ordem firmemente estratificada foi modificada pelo Ponto Chic e seu novíssimo café expresso, num tempo em que nada era muito “rápido”. Ser “expresso” era tomar a rubiácea concentrada, em pé, no balcão.

Pequena heresia contra a prática dos antigos “redutos”: o café servido em bules, todo mundo sentado em mesinhas e solfejando a última grande fofoca política ou “paisana”. Se alguém se valia de “expressos”, não era café. Mas o livre expressar de causos e de boatos – cuja central se fixou naquele perímetro, até que surgisse o “Ponto Chic”.

Ali, início dos anos 50, já sob os acordes de “Kalu” e “Lata d”Água”, ou de “Ninguém me Ama” e “Risque” – “cotovelos” de Antônio Maria e Ari Barroso – o PSD transformado em Oposição, a UDN inaugurando-se no poder, começou a reinar o “Ponto Chic”, absoluto, como a grande central florianopolitana de fatos e boatos.

O café que alimentava a nova usina da “Polis” passou a ser servido “em pé” mesmo. E as rodinhas, ecumênicas, espraiaram-se pela esquina, formando o “plenário” onde se fiavam conversas e se exerciam mandatos honorários. A raiz da denominação “Senadinho” há de ter muitas origens, dentre elas a de que, certa tarde, o governador Irineu Bornhausen convocou ao palácio seu demiurgo popular, ninguém menos que o ladino Alcides Ferreira.

Querendo tomar a temperatura política da cidade sobre tema que mexia com a opinião pública, Irineu perguntou ao seu “chefe de bancada”:

- O que é que a Felipe está dizendo?

A resposta foi mais detalhada e precisa do que pesquisa do Ibope.

Logo seu homem na “Felipe” passou a ser seu líder no “Senadinho”, o Senatus Populusque Romanorum, a maior central irradiadora de “factos e factóides”.

Ali, o boato ganhava foros de verdade. Ou de galhofa. O Senadinho virou crônica de meu amigo Jair Francisco Hamms. “Central de Boatos”. “Feito a verdade, feito os fatos, os boatos surgem, também, subitamente, espalhando o riso, esbugalhando olhos admirados, provocando bocabertas de incredulidade, semeando aborrecimentos, cutucando a ira, alimentando recalques, despertando chacota”. Jair acompanha o itinerário dos boatos:

- Também, feito a verdade, o boato, ligeiro, ganha pernas, entra nos botequins, passeia nas repartições, abre as portas dos palácios, vai à mesa do juiz, anda de táxi, voeja nos bares, ecoa nos estádios, ganha as saunas, diz presente às aulas, faz ponto nas esquinas.

Fazia. A esquina do “Senadinho”, esse ponto referencial da memória da cidade, fechou suas portas, morreu em silêncio. Não é boato. Dizem que vai se transformar numa financeira, como todas as esquinas do Brasil argentário. Choremos a Missa de Réquiem pelo Ponto Chic.

 

Terceiro tempo: Cirley bota fé e vai à luta

23/09/04

Cirley Virgínia Ribeiro é autora do projeto Memória do Rádio Catarinense. A pedra fundamental foi lançada, os apoios todos vieram impregnados da vontade de fazer, mas o real não aconteceu. Frustração? Não. A questão é de paciência e perseverança. Leia mais…

Segundo tempo: o princípio na palavra de Lúcia Helena

23/09/04

A jornalista Lúcia Helena Evangelista Vieira figura no site do Curso de Jornalismo da UFSC como a primeira a estudar academicamente este meio de comunicação em Santa Catarina. Inspiradora do Projeto Memória do Rádio Catarinense, de Cirley Virgínia Ribeiro e do livro A História do Rádio Catarinense que ela assina em co-autoria com Ricardo Medeiros, Lúcia Helena fala aos Caros Ouvintes nesta edição especial de primeiro aniversário, em texto e áudio.Caro Antunes Severo, a nossa conversa nesta quinta-feira me fez voltar no tempo. Como um filme, vieram-me à cabeça os tempos de faculdade. Bons tempos, alegres momentos, quantas descobertas. Entrei em 1979. Primeira turma do curso de Jornalismo da UFSC. Éramos 40 alunos, empolgados com a perspectiva de “mudar o mundo” através das nossas matérias.

Naquela época, o curso tinha excelentes professores (como sempre, aliás), mas não tínhamos nada de equipamento. Lembro-me do Paulo Brito, desenhando um quadrado no quadro negro e dizendo: “imaginem que isso é uma máquina” (fotográfica)! O laboratório de fotografia foi instalado lá pela metade do curso. Tínhamos cinco máquinas fotográficas… Antes disso, também “ganhamos” dez máquinas de escrever. Manuais, é claro. Nos revezávamos nelas. Quando foi montado o estúdio de rádio, a minha turma já havia passado pelas disciplinas relacionadas. Estudamos tudo na teoria. Naqueles tempos, não tínhamos equipamentos de televisão.

Na sétima fase, primeiro semestre de 1982, tivemos que definir nossos projetos de conclusão de curso. Foi um horror! Para mim, parecia tarefa dificílima, cheia de exigências. Sentia-me incapaz. Controlado o desespero inicial, procurei alguns professores para trocar idéias e tentar entender melhor, para poder dominar o processo. Procurei a professora Maria Helena Drumond Saraiva, grande mestra e amiga, dona de grande conhecimento e sensibilidade. Chilena, ela sabia tudo sobre o Brasil. Foi ela quem sugeriu: “Por que tu não pesquisas a história do rádio em Santa Catarina?”. Helena argumentou que não havia nada escrito sobre o assunto e que era necessário começar a registrar o que depois descobri, havia sido essa grande aventura. Topei, com a condição de que ela aceitasse ser a minha orientadora.

Realmente, os registros escritos eram raríssimos, notas esparsas em jornais antigos. Pesquisei tudo, aqui em Florianópolis e também em Blumenau, onde nasceu o rádio catarinense. Mas o principal conteúdo do trabalho encontrei nos depoimentos das pessoas que fizeram a história do rádio. Cada um que eu entrevistava me dava uma lista de muitos outros nomes. O primeiro deles foi o Antunes Severo que, além de relatar a sua própria vivência, me levou pela mão a vários dos pioneiros, na cidade de Blumenau. Foi uma experiência fantástica, mas também angustiante e frustrante. Eu tinha prazo para terminar e tive que restringir a pesquisa. Muitos não foram ouvidos – aí a frustração.

Porém, a idéia do trabalho era traçar uma linha básica, para que outros pesquisadores pudessem aprofundar os estudos do tema. Foi uma experiência muito importante para mim, não só pelo que aprendi sobre o rádio, mas também porque descobri que também havia aprendido, de fato, a fazer entrevistas e passá-las para o papel com alguma clareza. A experiência do trabalho me deu a segurança que faltava para o exercício da profissão de repórter, que exerço até hoje, e despertou em mim o gosto pela política, já que as duas histórias se entrelaçam.

Com muita dedicação e esforço, sempre contando com o apoio da minha orientadora, que lançou luz sobre as pesquisas e me deu o norte das investigações, o trabalho foi concluído a tempo de me formar. Mereceu conceito A da banca examinadora, o que me fez sentir recompensada.

No semestre seguinte, já formada, o professor Sérgio Moreira me convidou para um encontro com os alunos da então sétima fase, para falar sobre o meu trabalho de conclusão de curso. Durante a exposição, disse que, inicialmente, além de escrever sobre a história do rádio, também pretendia recolher material para começar a formar o Museu do Som, da universidade. Porém, esta parte do projeto teve que ser abandonada, por uma série de dificuldades. Sugeri que alguém retomasse a idéia, que foi imediatamente aceita pela Cirley.

À medida em que o tempo foi passando, volta e meia alguém me pedia o trabalho emprestado, o que sempre foi feito. Até que, em 1998, o jornalista Ricardo Medeiros assumiu a cadeira de rádio, na Unisul, em Tubarão, e também solicitou cópia da minha pesquisa. Depois que devolveu, nunca mais me deixou em paz! Durante o ano inteiro, martelou no meu ouvido que eu devia publicar o trabalho. O argumento era sempre o mesmo: não há nada publicado sobre o rádio.

No final daquele ano cedi às pressões do Ricardo e concordei em publicar, com a condição de que ele dividisse a tarefa comigo. Havia necessidade de atualizar as pesquisas e ampliá-las. Iniciamos o projeto em fevereiro ou março de 1999. No dia 6 de outubro daquele ano fizemos o primeiro lançamento da obra, num grande evento na Assembléia Legislativa. O livro teve grande aceitação e também o apoio, imprescindível, de muita, muita gente querida. Foi uma grande alegria para nós. Até hoje, é sempre uma alegria reviver aquelas experiências e poder passá-las aos mais jovens. Ninguém pode compreender o presente, nem projetar o futuro, se não conhece o passado. A preservação da nossa memória é uma tarefa de todos nós. E a história do rádio ainda tem muito a nos ensinar.

Florianópolis, 20 de setembro de 2004.

Lúcia Helena Vieira

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Primeiro tempo: Manoel de Menezes

23/09/04

O rádio é o único meio de comunicação social que se sustenta não pelo que transmite, mas pelo que cada ouvinte cria com sua própria imaginação. Reportagem em três tempos e quatro movimentos.
Por Antunes SeveroA radiocomunicação é um fenômeno tão simples que dispensa explicação. É como a vida, um mistério para ser vivido e não um problema a ser resolvido. Foi assim, também, na pacata e serena Florianópolis.

Capa do livro Retalhos do Tempo

Definida a possibilidade de instalação de um serviço de alto-falantes em Florianópolis, começa a parte operacional: o registro da firma, a licença para funcionar, onde instalar o estúdio, os equipamentos necessários e a localização dos alto-falantes. Definidos os locais onde ficariam as “bocas de jacaré”, restava estender os fios e instalar as “cornetas”. Essa operação ocorreu de forma inusitada. Menezes que andava numa pior conforme relata no livro “Retalhos do Tempo”, descreve como tudo aconteceu: “Passados alguns dias, estava eu subindo numa bruta estacada, junto com meu amigo Hélio Kersten Silva, a fim de colocarmos quatro alto-falantes, nas marquises da Casa Daura, A Capital, Confeitaria Chiquinho e Jardim (Praça XV de Novembro). Isso numa bruta madrugada gelada”. E completa: “Eram os alto falantes do serviço de propaganda Guarujá”. E termina Menezes desabafando: “Deu um trabalho dos diabos: arame e muito prego. Até hoje não entendi porque aquele serviço foi feito de madrugada”. 
A data é imprecisa, Menezes fala que era frio e se refere aos meses de junho e julho. Não cita o ano. Já Serrão Vieira, o fundador da empresa diz que o serviço de alto-falantes começou a funcionar no dia 15 de maio de 1943.
Divergências à parte, é bom relembrar a reação das pessoas diante de uma novidade tão estranha ao modus vivendi da pacata Florianópolis dos anos de 1940. Menezes realça os contornos do relato com o brilho de sua imaginação: “Os proprietários eram Ivo Serrão Vieira, seu irmão Ney e mais um “galã de cinema” chamado Gama. Quando aquele negócio começou a funcionar foi um correria infernal. Todo o mundo ia para a praça para ouvir aquela coisa. Os estúdios estavam instados no primeiro andar da Confeitaria Chiquinho. Teve muita gente boa que durante algum tempo andou de pescoço duro de tanto olhar lá para cima”.
A curiosidade não parou por aí. O próprio “footing” da meninada na Praça XV foi alterado. Agora o trajeto incluía necessariamente a primeira quadra da rua Felipe Schmidt para dar uma olhadinha de soslaio para as janelas da sala mágica de onde vinham àquelas vozes e músicas que faziam o frisson da garotada. O próprio Menezes confessa que foi no Gama que ele viu pela primeira vez os óculos Ray Ban.
Manoel de Menezes. Retalhos do tempo. Florianópolis: Edição do Autor, 1977.

Rádio: os que fazem, os que contam e os que acreditam. Intervalo: o tempo do tempo.

A história do rádio em Florianópolis veio com o serviço de alto-falantes Guarujá de Serrão Vieira, no início da década de 1940. O estudo do rádio como meio de comunicação social, entretanto, começa com o curso de jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina.

Legenda: Em 1973, foi criado o primeiro grupo de trabalho para a criação do Curso de Jornalismo da UFSC. Participam da mesa (da esquerda para a direita) a professora Aurora Goulart, os jornalistas Antônio Kowalski Sobrinho, Marcílio Medeiros Filho, o professor Murilo Pirajá Martins, os radialistas Osmar Teixeira e Moacir Pereira, além do professor Aníbal Nunes Pires (de costas).

O curso de jornalismo da UFSC iniciou as aulas de março de 1979 e formou a primeira turma em 1982, com 19 dos 40 alunos iniciais. Dos 19 alunos da primeira turma, 17 completaram o curso com apresentação do TCC – Trabalho de Conclusão de curso, conforme registrado no Banco de Dados do site do curso. Ainda segundo essa fonte, até o final de 2003, concluíram o curso com apresentação de TCC, 477 formandos. Desse total, tratam especificamente do rádio somente 26 trabalhos, cerca de 5% do total e que representa menos de um trabalho por turma.

 

Se a quantidade é reduzida, a qualidade, entretanto, é significativa. A começar pela História do Rádio na Voz de seus Atores, de Lúcia Helena Evangelista Vieira, em 1982. Dessa monografia resultou o primeiro livro da História do Rádio em Santa Catarina, em parceria com o também jornalista Ricardo Medeiros, lançado em 1999, pela Insular.

 

Seguiram-se Rádio FM, uma Abordagem Histórica em Florianópolis, de Maria Fernanda Farinha Martins, em 1983. A História das Rádios Piratas no Brasil e no Mundo, de Jorge Luiz Massarolo, em 1984. Noticiários de Rádio AM em Florianópolis, de Carlos Alberto de Souza, também de 1984. Em 1985, foram três trabalhos: Importância de uma Rádio por Alto-falantes na Comunidade de Pântano do Sul, em Florianópolis, de Valentina da Silva Nunes; Manual de Produção e linguagem para a Rádio Universitária, de Cláudia Erthal; e Projeto Memória do Rádio Catarinense, de Cirley Virgínia Ribeiro que propunha a criação do Museu do Rádio ainda hoje sob a responsabilidade do Curso de Jornalismo da UFSC.

 

Sem nenhuma monografia em 1986, a série recomeça em 1987 com Incêndio no Porto: relato da última cobertura de rádio, de Tayana Cardoso de Oliveira; Sintonia Diferente no Rádio Catarinense, de Áureo Mafra de Moraes, Ênio César da Silva e Luciano Gonçalves Bittencourt; e Por uma FM Universidade, de Alcebíades Muniz Neto. Em 1988 nada consta. Nos anos seguintes até 1994, a safra rareou registrando-se apenas Rádio-Educação, de Jane K. Hetzer, em 1989; Resgate da História do Rádio em Santa Catarina, de João Carlos Mendonça Santos, em 1992; e Brasil de Quem Não Desliga… um breve estudo da recepção do programa radiofônico oficial “A Voz do Brasil”, de Joana Guedes Nin Ferreira, de 1994. Seguem-se Revista do Rádio – o seu programa de Variedades, de Ivana Cristina Back; e Terra – uma experiência em radiojornalismo para a comunidade rural dos campos de cima da Serra do RS, de Alexandra Della Giustina Baldisserotto, ambos de 1995. Nos três próximos anos há um único registro: o TCC Sistema Universidade de Rádios, de Alessandra de Mota Mathyas, em 1996.

A produção voltou a normalizar-se em 1999 e foi até 2003 sem falhar. São de 1999: Rádio do Curso de Jornalismo da UFSC na Internet, de Fabiana de Liz e Sabrina Brognoli D’Aquino; Cursos de Radiojornalismo para Rádios Comunitárias no Oeste do Pará, de Ana Cristina de Oliveira e Gisele L. S. de Souza; e Cadeia da Legalidade: a democracia por um fio, de Camila Gouvêa Manfredini. No ano seguinte, Rodrigo Cabral Faraco fecha o século com Eleições 2000 – a cobertura da CBN Diário. Em 2001 foi a vez de Giovana Terezinha da Silva com Programa Opinião – a experiência de produção, reportagem, edição e apresentação de um debate radiofônico ao vivo; e de Olavo Pereira Oliveira com Antenado – programa jornalístico radiofônico para público jovem. O ano de 2002 foi marcado pela grande reportagem A vida de Adolfo Zigelli de Nara Cordeiro e Elissa Bonato. Em 2003 completa-se a lista com Fagulhas Urbanas, grande reportagem de Christina Janiake e Salve, Salve as Rainhas do Rádio, de Stefano Cunha.

Osmar Silva, o cronista da cidade

15/09/04

Autor de duas crônicas diárias apresentadas pela Rádio Diário da Manhã nas décadas de 1950 e 1960, Osmar ao mesmo tempo escrevia programas humorísticos e novelas e ainda se divertia fazendo poesia: Eu sei que a minha cidade, no desejo de ser grande/esperneia, faz beicinho, como crianças teimosa…
Por Martinho Callado JúniorTal como fazer jornal, fazer rádio exige tirocínio e capacidade. Então, quando se faz rádio à maneira de Osmar Silva, com talento e arte, ao mesmo tempo com exuberância de motivos e correção de estilo, a roca fia mais fino. (…) Vejamos a sua produção diária: de segunda a sábado, das 10 às 10h45min, Seqüências a Modelar que abre com a crônica Janelinha da Ilha de sua autoria. De segunda a sexta-feira, a crônica A Página do Dia, às 12h20min. As terças quintas e sábados, vários quadros humorísticos: Coitado do Abdala, Um Caipira Sabido, Os Apuros do Serafim, Joãozinho o Boa Bola, Angu de Piadas, Seu Pesadino, Um Visprinha Familiar Gumercindo o Boa Vida e ainda o Grande Jornal Mal Falado “O Mundo é uma Bola”. (…) Excelente intelectual, com essa fecunda produção diária, Osmar Silva ainda encontra tempo para se dedicar às novelas e sketchs. Entre os sketchs, peças de meia hora, podemos citar: Luz que não se Apaga, Sublime Renúncia, Não Chore, Queria, A Sombra da Traição, Minha Santa Mãe, Natal sem Você e Naquela Véspera de Natal.

Osmar Silva já apresentou cinco novelas, sendo uma humorística: Margarida, a Virgem Flor que Murchou, em cinco capítulos, O Chicote de Sinhá Moça, em cinco capítulos, A Casa do Ódio, em 20m capítulos, Sou eu o Culpado, em cinco capítulos e o Direito de Viver, em 27 capítulos. (…) No rádio, como já fizera no jornal, Osmar Silva pôs a pujança de sua inteligência e de suas virtudes literárias a serviço de bons programas radiofônicos, cujos elevados objetivos são o aprimoramento cultural e o saudável divertimento popular.

Fazer Rádio… Comentário do jornal A Gazeta, de autoria de Martinho Callado Júnior, então Secretário de Educação e Cultura do governo do estado de Santa Catarina, citado no livro Coquetel de Crônicas de Osmar Silva. Edição do Autor.Florianópolis, 1962.

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Coquetel de Crônicas

15/09/04

Este é um espaço para saudade. Saudade daquela que acalenta, afaga e revigora. Coisa gostosa que está ficando difícil de se viver, sentir e usufruir. Mas, que existe. Continua existindo e sempre existirá enquanto formos capazes de acreditar. Pois, crianças, hoje vos falo de Osmar Silva, “um dos cronistas de mais acentuados méritos”, segundo o depoimento do velho mestre Gustavo Neves, de quem poucos ainda se lembram.
Por Antunes SeveroMinha Cidade

Crônica de Osmar Silva, apresentada sob os títulos de “Janelinha da Ilha” e “A Página do Dia” pela Rádio Diário da Manhã, geralmente lida por Gustavo Neves e Antunes Severo.
 
Praia de Coqueiros, 1960

Florianópolis é uma cidade onde a poesia não morre, não obstante todo o esforço do homem em afastá-la do seu caminho!

E quem a quiser ver, na plenitude de sua beleza poética, admire-a as seis da manhã, quando o sol se levanta no oriente, ou às seis da tarde, quando morre, como pachá sonolento, na fimbria azul do Ocidente, envolto na roupagem cambiante das mais sugestivas e belas cores

Praia do Bom Abrigo, 1950

Digna do pincel de um grande artista que a quisesse fixar numa manhã como a de hoje, quando o sol, rompendo a resistência das nuvens que ameaçam chuva, esplende em luz viva e deslumbrante, envolvendo-a, por inteiro, na caricia matinal dos seus raios ardentes!

Ficaria bela, se fosse apanhada, assim, ao amanhecer no seu lento despertar para as lides diárias, abrindo os olhos, pouco a pouco, ao som do canto dos pássaros e beijada pela suave brisa do mar!

Poderia, o pintor, colher as cores irisadas das gotas de orvalho tremeluzindo no verde da folhagem que a cerca como um colar de pedras preciosas no alvo contorno de suas maravilhosas praias!

Praia de Itaguaçu, 1950

Ou, então, poderia fixá-la à hora do sol posto, quando o céu se tinge de um vermelho vivo, que vai cedendo lugar ao turbilhão de cores que o precede, no meio do qual o sol agoniza, para desaparecer, definitivamente, na linha azul do horizonte!

Um poente sobre o mar que parece quedar em silêncio para recolher o último suspiro do astro-rei, ou sobre o alto de um morro, em cujo fundo verde-escuro o gigante parece esconder-se aos nossos olhos atônitos!

Essa é a minha cidade, digna do pincel de um grande artista e só não a considerarão assim, só não renderão o tributo de sua homenagem à sua esplendorosa beleza, os que não tiverem olhos para ver, nem coração para sentir!

Link Relacionado
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Osmar Silva, o cronista da cidade
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Fotos antigas de Florianópolis

Capa do Livro Coquetel de Crônicas

Jean Schütz, um jeito diferente de se fazer rádio

15/09/04

Através de um curso de locução oferecido pela Associação Catarinense de Integração dos Cegos (ACIC) e força de vontade, agora Jean Schütz comanda seu programa de rádio.
Por Gisele Machado

Em 2002, a Associação Catarinense de Integração dos Cegos (ACIC)
ofereceu um curso de locução para rádio. Onze pessoas, deficientes visuais,
entre elas Jean Schütz, concluíram o curso. Eis então, que Jean Schütz,
catarinense de 22 anos e aluno da 7ª fase de jornalismo da Unisul, começou a ter
certeza que o rádio poderia ser uma realidade e não mais um sonho

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Jean e Daniel: comunicador e operador de
áudio.

de criança. Com o diploma na mão, Jean
fez um projeto de um programa dominical e encaminhou a três emissoras de rádio
que se encaixavam no perfil: Guarujá, Guararema e Gazeta.

A Gazeta gostou
muito do projeto e da forma diferente de se fazer rádio, ofereceu o espaço para
Jean, na condição de que o próprio conseguisse os patrocinadores.  Domingo
Especial, faz e é sucesso há um ano e cinco meses. Sua programação eclética está
voltada para um público de todas as idades. Esportes, resultado das loterias,
previsão do tempo, confronto musical, resumo da semana e flash back são alguns
dos quadros comandado por Jean todos os domingos das 13h às 14 horas pela Gazeta
AM, 1060 KHertz.

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Confraternizam: Daniel, Jean e
Gisele.

As informações colhidas por Jean
durante a semana, são convertidas para o formato braile e lidas durante a
programação. As pessoas ligam, participam e concorrem a brindes. Jean usa como
auxílio, um aparelho gravador para identificar posteriormente os
ouvintes.

O operador de som, Daniel Magalhães, trabalha com Jean há um
ano e três meses. A sintonia entre eles é marcante e Daniel diz ter aprendido
muito com a sabedoria de Jean. “É notória a diferença entre uma pessoa com
deficiência visual, ele só levanta a mão e, pelo tempo de trabalho, já sei o que
ele quer”, diz Daniel.

AN Capital/Orelhão – 05/09/2004

8/09/04

O branco do Aci
Antunes Severo inova mais uma vez levando as histórias do rádio de Florianópolis para a Internet (www.carosouvintes.com). É dele o seguinte caso dominical: “Pode não ser verdadeira, mas é assim que circula no Ponto Chic esta estorinha. O Aci Cabral Teive sempre foi muito elegante.Terno e gravata era o seu uniforme, mesmo quando ia ao “Pasto do Bode” transmitir os “clássicos” do futebol local. Numa dessas muda o tempo rapidamente e cai um toró daqueles. E o Aci, sem perder a postura continua a transmissão. Ataque daqui, contra-ataque de lá. Bola na trave. Bate-rebate. Escanteio. E a chuva caindo, grossa, impiedosa. Foi aí que o Aci não resistiu e desabafou ao microfone: “Caros ouvintes chove a cântaros e eu aqui de branco”.

Jornalista defende tese na França sobre radionovelas brasileiras

6/09/04

A tese “Radionovela e Publicidade: memória da recepção em Florianópolis durante os anos 1960” será defendida no próximo dia 6 de outubro, na França, pelo jornalista e escritor Ricardo Medeiros.O trabalho acadêmico aborda o processo de recepção das histórias em capítulos e das mensagens comerciais dos patrocinadores dos folhetins eletrônicos da antiga Rádio Diário da Manhã, atual CBN Diário. De outra forma dita, a tese estuda como se deu a relação e interação entre os dramas , as publicidades e os ouvintes, bem como os efeitos gerados pela cumplicidade desses três eixos na emissora de maior audiência de Santa Catarina há mais de 40 anos.

Desde 2001, Ricardo Medeiros está ligado ao Departamento de História da Université du Maine, da cidade de Le Mans, onde desenvolveu este trabalho acadêmico. Através de uma convenção entre Brasil e França, o jornalista pôde com isso contar com dois orientadores. Pelo lado francês, Ricardo Medeiros foi orientado pela doutora em História Contemporânea, Brigitte Waché, enquanto que pelo setor brasileiro a orientação se deu através do doutor em Jornalismo Eduardo Meditsch, professor do Departamento de Comunicação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

A defesa da tese será viabilizada através de videoconferência entre a Université du Maine e a UFSC. Isto implica dizer que por esse sistema os membros da banca examinadora e o doutorando estarão se comunicando ao vivo através de monitores.  Os membros do júri serão num total de cinco: três franceses e dois brasileiros. Do lado francês fazem parte da banca os professores de história contemporânea Brigitte Waché (Université du Maine) e  Guy Martinière (Université de la Rochelle) e pelo setor brasileiro o professor Eduardo Meditsch, além da historiadora Lia Calabre, vinculada à Fundação Casa Rui Barbosa, do Rio de Janeiro, e que desenvolveu a tese No Tempo do Rádio : radiodifusão e cotidiano no Brasil (1923-1960).

A defesa da tese  “Radionovela e Publicidade: memória da recepção em Florianópolis durante os anos 1960” foi marcada para o dia 6 de outubro, em sessão que começara às 9 horas pelo horário brasileiro e às 14 horas pelo horário francês.  A defesa é aberta ao público dos dois países.

2. Capítulos da tese

A pesquisa do jornalista Ricardo Medeiros foi dividida em duas partes: Radionovela e Vida Cotidiana e A Ação da Publicidade sobre os Ouvintes, totalizando seis capítulos. A primeira parte engloba os três primeiros capítulos: Gênese da Radionovela, Radionovela em Florianópolis e O Mundo Imaginário como Entretenimento… No primeiro capítulo, Gêneses da Radionovela , é feita uma retrospectiva da origem das radionovelas e sua exploração comercial. Os romances saem das páginas de livros e jornais para ser interpretados no rádio, via a Soap-opera americana e os dramas cubanos, gêneros direcionados às donas de casa e que desde o início foram bancados por empresas de produtos de sabão. Anos mais tarde, o estilo cubano de se fazer novelas se espalha pela América Latina, e leva à reboque os patrocinadores tradicionais que usam da propaganda para « vender » à responsável pelas compras de casa os mais variados produtos. O segundo capítulo, Radionovela em Florianópolis, enfoca a origem e o desenvolvimento dos dramas radiofônicos na capital catarinense, que passam pela realidade de conviver sobretudo com o apoio publicitário das multinacionais. Por sua vez, no terceiro capítulo, O Mundo Imaginário como Entretenimento, nós temos vários momentos distintos. O primeiro deles refere-se às modalidades de diversão dos ouvintes de Florianópolis, entre às quais os bailes, passeios pelo centro da cidade, cinema, leitura de revistas e jornais, além da escuta de rádio. O segundo momento desse terceiro capítulo é relacionado com a escuta das radionovelas na RDM : freqüência, período, local, hábitos particulares para a audição dos dramas, assim como identificação das pessoas com quem o ouvinte dividia esse espaço de contato com as novelas. No terceiro capítulo é feita ainda uma análise sobre os aspectos : atração dos ouvintes pelas radionovelas, nomes de dramas, lembranças de enredos e influência de temas de radionovela na vida do ouvinte, entre outros. Além disso o capítulo relata a relação entre ouvintes, personagens e atores. De outra forma dita, esse seguimento do trabalho entra no campo de influência de personagens no cotidiano da população ouvinte da Rádio Diário da Manhã e da ligação na década de 1960 entre ouvintes e atores e atrizes do rádio.

A segunda parte do trabalho, intitulada A Ação da Publicidade sobre os Ouvintes, contempla os três últimos capítulos: As Armadilhas da Sedução, Patrocinadores Brasileiros e Patrocinadores Multinacionais. Assim sendo, o quarto capítulo, As Armadilhas da Sedução, discorre a respeito dos temas de propagandas lembradas pelos ouvintes , conteúdo dessas propagandas e análise de jingles e spots inseridos no momento das novelas. Este seguimento enfoca igualmente outros aspectos, como as táticas para persuadir o ouvinte e o grau de influência da publicidade sobre as compras da população . O quinto capítulo, Patrocinadores Brasileiros, dá atenção aos parceiros publicitários das histórias seriadas, vinculadas da Rádio Diário da Manhã, tanto a nível local , como estadual  e nacional.  O último capítulo, Patrocinadores Multinacionais , trata dos mantenedores estrangeiros de folhetins, ou seja : empresas americanas e européias que anunciavam na emissora de Florianópolis.

3. Resultados da tese com aplicação de questionário

Para viabilizar esta pesquisa um dos recursos utilizados foi uma enquete por questionário, aplicada no ano 2002 junto ao ex- público da Rádio Diário da Manhã na Grande Florianópolis. No total, foram preenchidos 57 questionários, que continham perguntas em torno dos eixos radionovela-publicidade e radiouvinte. Sua primeira parte traçava um perfil do entrevistado : nome, ano de nascimento, cidade nascimento, qual a atividade do entrevistado e seu estado civil na década de 1960, além do seu nível escolar, entre outras questões. A segunda parte era conduzida diretamente para o assunto radionovela : sobre o que as novelas de rádio falavam, qual a influência dos temas de novelas no cotidiano do ouvinte, lembrança de nome de radionovelas, freqüência de audição de novelas, lembrança do nome de personagens , lembrança de nomes de atores e atrizes, entre tantas indagações. A terceira parte do questionário contemplava a questão da propaganda : lembrança de nome de propagandas, lembrança de produtos anunciados, lembrança de patrocinadores e compra de produtos influenciada pela publicidade inserida em radionovela, entre outros.

Das 57 pessoas que responderam o questionário, 47 (82, 5%) são do sexo feminino e 10 (17,5%) são do sexo masculino. A idade média dos entrevistados é de 61 anos, sendo que o mais novo possui 38 anos e o mais velho 77 anos. Quarenta e três deles (75,4%) moram em Florianópolis, 13 (22,8%) em São José e 1 (1,8%) em Palhoça.

Na década de 1960, majoritariamente os entrevistados eram donas de casa, integrado por 20 mulheres (35,1%) que se dedicavam à vida doméstica. Outros 16 entrevistados (28,1%) eram estudantes nesta época. Havia também um grupo de 21 pessoas (36,8%), que possuía outras atividades, como a de funcionário público, costureira e professor. Em relação à década em questão, 30 consultados (52,6%) declararam que pertenciam à classe média e 23 (40,4%) à classe baixa. Apenas 4 consultados (7 %) disseram pertencer nos anos 1960 à camada carente da população brasileira.

3.1. Ouvintes

A maioria dos ouvintes da Rádio Diário da manhã  escutava histórias seriadas todos os dias da semana. Isto quer dizer que 56% dos interrogados por questionário disseram ter seguido cotidianamente os folhetins que passavam na estação de Florianópolis. Por outro lado, 22,8% responderam que escutavam as radionovelas sem frequência definida e 21% as escutavam somente alguns dias por semana.

Entre os períodos do dia, o mais preferido para acompanhar novelas era o da noite. Quase 30% das pessoas escolhiam este período para estar sintonizados na Rádio Diário da Manhã. Por seu turno, 24,6%  dos habitantes estavam na escuta dos folhetins somente pela manhã, enquanto que 19,3%  se consagravam às histórias radiofônicas somente à tarde. Mas havia pessoas que seguiam as histórias durante dois períodos do dia : de manhã e à tarde, de manhã e à noite ou de tarde e à noite. Além disso, havia pessoas que se extasiavam com as radionovelas durante os três períodos da jornada. Na prática esse último grupo tinha à sua disposição  cinco horários de ficção : 10h20, 10h45, 15h, 16h30, 20h05. 

A maior parte dos ouvintes escutavam as radionovelas em suas casas. De outra forma dita, 89,5%  das pessoas ficavam em seus lares para acompanhar as histórias radiofonizadas. Esta preferência pode ter relação com o fato de que a maioria , nos anos 1960, já tinha um receptor de rádio. Isto quer dizer que quase 100% dos 57  entrevistados por questionário disseram ter um aparelho de rádio naquela época.

Mais de 50% dos ouvintes ouviam as novelas em família. Ou seja, a população de Florianópolis escutava as histórias em capítulos com a mãe ou pai, esposa, filhos, irmão, irmã, avó, avô, sobrinho ou sobrinha. Enquanto isso 32% dos entrevistados ficavam em suas casas para acompanharem sozinhos as radionovelas. Havia também uma parte, 14% dos ouvintes, que escutavam as novelas na casa dos vizinhos.

Para acompanhar  as radionovelas, alguns ouvintes tinham um ritual diário.  O ritual de Ana Maria Martinelli consistia em colocar no chão um cobertor, no qual ela repousava o seu bebê, a pequena Adriana. Sentada junto à criança, que brincava com os pés da mãe, a ouvinte tricotava e escutava o seu folhetim de rádio preferido.

Durante à escuta das radionovelas a maior parte das pessoas se emocionavam. De outra forma dita, 70% das pessoas declararam ter chorado, enquanto acompanhavam algum drama radiofônico. As pessoas diziam ir às lágrimas porque as histórias eram: emocionantes (48%),  tristes (17%), mexiam com os sentimentos do público (14%), porque havia sofrimento nas histórias seriadas (8,5%), por causa do poder de interpretação dos radioatores (3%), por causa da dramatização (3%), 7)  porque os ouvintes eram muito « chorões » (3%), e por causa do herói e da heroína que choravam também.

3.2. Personagens e suas influências

A maior parte dos interrogados por questionário – 63% – estavam de acordo que os personagens de radionovelas os influenciavam na sua vida cotidiana, porque : o público imitava os personagens (51,7%), a população batizava suas crianças com o nomes de personagens das ficões (6,8%), o público ficava com raiva dos vilões e vilãs das radionovelas (6,8%), os personagens incitavam os ouvintes ao sofrimento (6,8%), os ouvintes tornavam-se mais emotivos por causa dos personagens (6,8%), através dos personagens o público assimilava lições de vida (6,8%), as pessoas tornavam-se mais amorosas (3,4%), os personagens interviam na convivência de um casal de namorados (3,4%), a população tinha vontade de viver os momentos românticos das radionovelas (3,4%), e a população se identificava com a forma de ser dos personagens (3,4%). 

Dentro da categoria « a população batizava suas crianças com o nome de personagens das ficções » está o  caso de Ana Maria Machado. A ouvinte queria dar o nome de Rosa Madalena aos eu primeiro bebê . Segundo ela, « Rosa Madalena era o nome da mocinha da novela. Quando eu estava esperando o primeiro filho, eu disse ao meu marido que a criança receberia o mesmo nome  da personagem de rádio ». No entanto, Ana Maria Machado deu à luz a um menino. Grávida pela segunda vez, a ouvinte tinha ainda esperanças de batizar o seu próximo bebê com aquele nome ouvido no rádio. Ana Maria não teve sorte de novo, pois nasceu um outro menino. Todavia, se fosse uma menina, ela iria se chamar Rosa Madalena.

3.3. Publicidade e patrocinadores

As mensagens publicitárias tinham influência sobre as compras dos ouvintes. Foi a resposta de 78% dos entrevistados através de questionário. Os produtos mais comprados sobre o impacto da propaganda eram os de toaletes e medicamentos. Como produtos de toalete estão na lista dos sondados creme dental, sabonete e talco.  Entre os medicamentos os mais comprados pelos ouvintes eram analgésicos, laxantes e fortificantes.

Uma parte signficativa dos ouvintes- ou seja 56%- se lembraram também do conteúdo das publicidades que passavam na RDM durante as radionovelas.. Aliás, a maior parte dos reclames eram trechos de jingles, como o  « melhoral, melhoral é melhor e não faz mal » ou « pílulas de vida do Doutor Ross faz bem ao fígado de todos nós ». Uma explicação para isso vem do publicitário Lula Vieira, da V& S Comunicação, que diz que o jingle tem muita força junto ao público, uma vez que a memória coletiva do brasileiro é impregnada de sensibilidade musical.

Quanto aos patrocinadores, mais da metade dos questionados se lembraram de nomes de empresas que apoiavam financeiramente as interpretações radiofônicas. Isto implica dizer que 52%  do público se lembrou das companhias que anunciavam suas mercadorias na hora das radionovelas. A empresa mais lembrada pelos ouvintes foi Gessy Lever, do Grupo anglo-holandês Unilever. Em segunda posição ficou a rede de lojas A Modelar, de Florianópolis,  e em terceiro lugar a empresa americana Colgate Palmolive.

4. Importância da tese

A importância da tese  a respeito de  radionovela no Brasil reside primeiramente no fato de que os estudos de uma forma geral  sobre a recepção dos meios de comunicação de massa na América Latina  são muito recentes. Eles datam do início dos anos 1980, quando são iniciadas as discussões teóricas a propósito do assunto. Na década seguinte são lançadas no ano de 1997   duas obras clássicas que debatem a recepção nos mass media: “Dos Meios às Mediações” , do colombiano Martin-Barbero; e  “Culturas Híbridas “, do argentino Nestor Garcia Canclini.  Em sua obra, o sociólogo Nestor Garcia Canclini sublinha que nem as instituições  nem a mídia costumam averiguar quais os padrões de percepção e compreensão a partir dos quais o público se relaciona com a cultura de massa.  Canclini relata ainda que esses dois setores não se preocupam também com os efeitos gerados pela cultura de massa sobre a conduta cotidiana da população.

Em termos de folhetins na mídia eletrônica, há que se ressalvar que alguns trabalhos já foram feitos  na  área de recepção de telenovelas. No Chile  Valério Fuenzalida publicou  a obra « La Influencia Cultural de la Televisión » (1987) e no  México Jorge Gonzalez escreveu « La Telenovela en Família : una mirada em busca de horizonte » (1991). Por sua vez, na Colômbia, Martin-Barbero em conjunto com Sônia Munhoz dirigiram o livro “Telévision y Melodrama”(1992).

No Brasil, em particular,  pesquisadores da  Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo fez igualmente um trabalho-referência. No ano de 1997, eles analisaram a recepção da telenovela global  “A Indomada” em 4 famílias na cidade de São Paulo. Este trabalho, sob a corrdenação da professora  Immacolata Vassallo Lopes, virou livro em 2002, sob o título de : « Vivendo com a Telenovela ».

Em se tratando de rádio, apesar dele existir desde os anos 1920,  são raros os estudos que se concentram em analisar como as mensagens transmitidas por esse meio são recebidas e processadas pelo público. Principalmente no Brasil há uma falta de dados a propósito do que é produzido no rádio e o que acontece com os receptores dessas informações produzidas.

Levando tudo isso em consideração é que Ricardo Medeiros consagrou à sua tese às radionovelas brasileiras, no sentido de ajudar a entender o discurso do meio de comunicação rádio e a sua absorção por parte dos ouvintes. Ele tentou fazer uma das possíveis leituras sobre as  histórias radiofôncias, que ao mesmo tempo entretém os  brasileiros há mais de 60 anos, tentam vender aos ouvintes as mais diversas mercadorias.  Ou seja, pela fala dos personagens, da música, da sonoplastia e contraregragem o público se descontrai fazendo uma espécie de  « viagem auditiva » e  simultaneamente absorve as informações dos patrocinadores dos folhetins eletrônicos. 

5. Depoimentos

Para desenvolver “Radionovela e Publicidade : a memória da recepção em Florianópolis durante os anos 1960” uma outra fonte escolhida foi a da história oral, que consiste na realização de entrevistas gravadas com pessoas, por exemplo, que possam testemunhar a respeito de determinado acontecimento, como a radionovela. Esta metodologia de pesquisa, que começou a ser utilizada nos Estados Unidos nos anos 1950 e no Brasil a partir da década de 1970, é um dos dispositivos eficazes- em paralelo com documentos escritos, imagens e outros tipos de registros- para se ter uma noção do que foi o passado.

Assim sendo foram colhidos o depoimento de 53 pessoas, entre ouvintes, publicitários, pessoal da parte artística e técnica de radionovela, produtor de programa, diretor de rádio, psicólogo e produtor musical. Todas as entrevistas foram registradas em gravador e depois transcritas na sua integridade, transformando então, na prática, o discurso em fonte documental. Tal compreensão deveu-se ao entendimento de que , segundo Lígia Maria Leite Pereira (1991), a função do documento oral é preencher as lacunas existentes nos documentos escritos ou para registrar o que ainda não se cristalizou nesses mesmos documentos. Ela relata também que as histórias de vida, com suas riquezas de detalhes, tornam-se uma relevante fonte nas áreas em que determinada pesquisa encontra-se estagnada. Destes relatos orais surgem outras variáveis, além de novas questões , agindo no sentido de reorientar o campo de investigação.  

Pelo lado do público ouvinte, foram reunidos 26 testemunhos, sendo nove deles durante o ano de 2000 e o restante em 2002. No cômputo geral, foram entrevistados 24 mulheres e 2 homens. Os representantes masculinos são José Alvari Oliveira e Nilo Padilha, enquanto as mulheres aparecem na pesquisa via Ana Maria Martinelli, Cecília Maria dos Santos Machado, Delmar Bellin , Juça Brincas , Lúcia Rosa Daniel, Maria dos Santos Oliveira, Nadir Soncini, Terezinha Lopes, Beatriz Anália Demaria, Carmem Goulart da Silveira, Dilma Maria Cunha,Vera Pacheco Bastos, Nina Rosa Lima Medeiros, Jane Bulcão Vianna, Maria Marta da Costa, Maria Ana Machado, Uda Gonzaga, Odaci Andrade de Saibro,Vanda Alves de Lima, Eli Jovelina Lino, Norma Barbato Couto, Elza Cunha, Ivete Lucia Bruggemann Wagner e Nilza Pereira da Silva.

Quando da escuta das radionovelas na RDM os interrogados eram mulheres do lar (38,4), estudantes (26,9%), professores (15,3%), funcionários públicos (11,5%), domésticas (3,8%) e comerciários (3,8%). Vinte e quatro depoentes (92,3%) habitavam em Florianópolis e 2 moram em São José (7,6%). Os entrevistados, com idade média de 61 anos, trouxeram à tona, como diz Samuel Raphael (1990) a respeito dos idosos, « verdades que são gravadas nas memórias das pessoas mais velhas e em mais nenhum lugar ; eventos do passado que só eles podem explicar-nos, vistas sumidas que só eles podem lembrar ».  Foram pessoas, como nos alerta Maurice Halbwachs (1990), que reconstroem o passado com o auxílio do presente para evocar suas lembranças.

Ainda em busca de uma multiplicidade de pontos de vistas e da resignificação da história, foram feitas entrevistas abertas com 27 pessoas ligadas diretamente ou indiretamente com radionovela ou com o mundo publicitário. Neste universo, onze pessoas foram abordadas no ano de 2000, quatorze em 2002 e duas no ano de 2003. Do total dos depoentes, 21 deles tiveram o seu relato gravado e 6 foram interrogados via internet. Para melhor checar algumas informações o publicitário Eloy Simões e o novelista Gustavo Neves foram entrevistadas em duas ocasiões.

Dentre as pessoas entrevistadas em 2000 estão Antunes Severo, publicitário e ex-funcionário da Rádio Diário da Manhã; Augusto Mello, ex-sonoplasta da RDM; o publicitário Eloy Simões; George Alberto Peixoto, ex-diretor da Rádio Santa Catarina; Gustavo Neves Filho, ex-ator e ex-autor de novelas da Rádio Diário da Manhã; Maria Alice Barreto, ex-atriz de radionovela; e Nivalda Severo, ex-funcionária da RDM. Além deles, foram colhidos depoimentos pela internet com Jorge Pereira de Souza, proprietário das organizações Pereira de Souza; Luiz Cama, publicitário da empresa Ogilvy; Mario Lago, ex ator e ex autor de radionovela; e de Wilson Russell Mac Cord, ex-publicitário da empresa Sydney Ross.

No período de 2002 foram entrevistados a proprietária da Rádio Santa Catarina Heloisa Cruz; o ex-contábil e diretor comercial da Diário da Manhã Hidalgo Araújo; o ex- Gerente do grupo A Modelar, Ody Varella; o ex- diretor financeiro do grupo A Modelar, Altair Cascaes; o ex-redator de publicidade do grupo A Modelar, jornalista Itaeli Pereira; o ex-diretor comercial do grupo A Modelar, João Alfredo de Campos Filho; o ex-diretor da Loja de Móveis do grupo A Modelar, Delcir Iguatemi da Silveira; o ex-funcionário da Unilever no Brasil Karam Albert; o Geógrafo Rocelito de Souza Coelho; o jornalista Walter Souza; o jornalista Cyro Barreto; o jornalista e escritor Francisco José Pereira; o técnico em eletrônica Walter Lange Júnior; e Osmar Silva filho, filho do autor de novelas Osmar Silva. No ano de 2003 contribuíram igualmente com seus depoimentos, pela internet, a diretora do programa de radioteatro da Rádio FM Cultura de Porto Alegre; e o jornalista, radialista e teatrólogo Nilson Mello.

Foi desta forma, unindo os mais diversos depoimentos com a parte teórica e demais materiais, que esta tese foi se edificando, numa tentativa de construção de um cenário possível onde circulavam os dramas radiofônicos que permitissem analisar um pouco mais a ligação publicidade-radionovela-ouvinte na Florianópolis dos anos 1960.

6. Perfil de Ricardo Medeiros

Ricardo Medeiros, 41 anos, é especialista em jornalismo pela Universidade do Sul de Santa Catarina (UNISUL) e Mestre em História pela Université du Maine (Le Mans – França), onde está concluindo o seu doutorado. Relacionado diretamente com o meio radiofônico, ele publicou “Dramas no Rádio – a radionovela em Florianópolis nas décadas de 50 e 60” e “História do Rádio Em Santa Catarina”. Para novembro, Ricardo Medeiros lança em conjunto com o publicitário Antunes Severo a obra “Caros Ouvintes”, que aborda os 60 anos do rádio na cidade de Florianópolis. Ao retornar para o Brasil, o jornalista assume as suas funções como repórter da Assessoria de Comunicação Social da Prefeitura da capital.

Coordenadas de Ricardo Medeiros

E-mail: diasmedeiros@aol.com
Telefone: 243-39-11-60

 
 
         
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