Aos sábados as pessoas são mais sinceras

“… e sabe de uma coisa, meu bem? Eu não tenho tempo hoje. Você volta amanhã. Hoje é sábado. E é dia de ganhar dinheiro”.

A gorda sem tempo
– Tire logo essa roupa – disse com voz grossa – que eu não tenho tempo pra perder…! Era gorda “e tinha um cheiro forte de mulher sem tempo…”. A garganta senti-a seca, os olhos ardentes, o coração descompassado. – Vem até aqui, benzinho… Chamava, e tossia, tossia, tossia e chamava. Criança ainda, de dezesseis anos. O menino entrou. Cinqüenta cruzeiros muito antigos. Pagou prá poder sair. Nada no mundo o faria ficar. O medo a tomar conta de todo o seu corpo. Saiu quase correndo, a olhar pelos lados.

– Vem cá, seu puto…! A mulher gorda não se conformava.
– Vem cá, seu frouxo… Vem buscar o seu dinheiro… Não preciso de esmola! Uma sepultura imensa, insondável, guardou para sempre o eco dos meus feitos – que feitos? – o prendia ali, gargalhando baixinho para que a terra não tremesse e todos notassem. Nunca havia umapalavra de despedida, de saudade prévia, antecipada.
Ao longo da vida, aquele olhar. A mulher. Ao longo da vida, a mesma cena. A mesma mulher. A mesma gorda sem tempo. O mesmo sábado…

Do livro: Uma palavra de despedida, apenas

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