Alô, é da rádio?

Publicado em: 15/09/2005

Acabei de ler um história que me fez lembrar de uma outra. Vou antes pela história mais antiga. Tive um colega de rádio que era viciado em namorar por telefone, o cara não podia ver o telefone da rádio em paz.
Por Luiz Carlos Prates

*Isso foi no tempo em que trabalhei na Rádio Guaíba, em Porto Alegre. Se a leitora não sabe, o telefone era no passado o chat de hoje, namorava-se muito por telefone. Até hoje, tem muita mulher que vive telefonando para as rádios. Pedem músicas, jogam conversa fora e se o locutor deixar a porta aberta, “entram”. Entendes, leitora? O que eu queria dizer é que esse meu amigo era um namorador contumaz por telefone.

Um dia arrumou uma namorada, por telefone, claro. A “ouvinte” ligou, fez caras e bocas do outro lado da linha, ele gostou e alongaram a conversa. Ela passou a ligar todos os dias. Meu amigo já não olhava mais para a escala de serviço, só olhava para o telefone. E naquela época, isso por meados da década de 60, ninguém tinha telefone em casa, só os ricos e o dono da rádio.

A coisa foi indo, foi indo, e o meu amigo já não suportava mais a espera pelas ligações da moça. Ela ligava da casa de uma vizinha. Um dia, marcaram encontro. Vou de blusa azul, disse a “ouvinte”. O sujeito não precisou dizer nada, ela já o conhecia, de longe.

Chegado o dia do encontro, ele tinha o coração na boca. Quando a viu, Santo Deus, o que era aquilo? Como ele mesmo voltou contando, a moça era um “canhão”. O diabo é que ele já estava apaixonado pelo “canhão”. Foram tantas as conversas por telefone que ele não via mais feiúra na moça, via a sua essência, bela. E já não tinha dito o Pequeno Príncipe que o essencial é invisível para os olhos?

Quando vi o meu amigo pela última vez ele estava casado… com o “canhão”. Ao reencontrá-lo vou ter que ter cuidados para não perguntar: E aí, continuas dando tiros? Tomara que meu amigo não seja meu leitor. Mas contei essa história por uma razão especial.

É o seguinte: um administrador americano, cujo nome perdi, defende a idéia de que as entrevistas para seleção de pessoal no trabalho devem ser feitas por telefone. Você “vê” melhor a pessoa pelo telefone. “Vê” os gestos, as cortesias, as inabilidades, os talentos, a competência. E quando decide por este ou esta, não se deixa levar pelo aspecto físico. Não é interessante? As orquestras americanas ficaram bem melhores quando os maestros passaram a fazer a seleção de músicos atrás de um biombo, sem ver quem tocava. A partir daí, as mulheres, até então discriminadas, tomaram conta. Quando não se vê a cara, o preconceito some. Alô, é da rádio?

*Luiz Carlos Prates, radialista veterano de largo curso e muitas jornadas, é colunista do Diário Catarinense, ao qual também agradecemos pela oportunidade de reproduzir esta bela crônica.


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