Allen na Ilha

selo-cronicaWoody Allen desembarcou no Hercílio Luz numa tarde de vento sul eturbulências, logo ele que se benze à simples menção da palavra morte e desconfiava de que aquele poderia ser o dia do piloto. Trouxe atores de Hollywood e arrebanhou outros no Rio e aqui, e já encontrou os sets prontospara as gravações. Custou a entender a cultura da Ilha, que lhe disseram seraçoriana, mas que tinha muito de Portugal continental, fortes elementos indígenas e um legado valioso da raiz africana, sem falar no que trouxeramos bandeirantes do século 17 e nos bandeirantes recentes, com seu sotaque do Bexiga e seu gosto por massas e tecnologia.

A homenagem a Florianópolis – como ocorrera com Nova York, Barcelona, Parise Roma – explorou as cores locais. Allen concentrou as ações na Barra daLagoa, trouxe bruxas da Costa, chamou Valdir Agostinho, convocou Peninha elamentou que Aldírio Simões, que mixou todas essas influências, não estivesse mais presente para ajudar. Mas a produção já havia pensando nessa contingência e bem antes das filmagens havia recrutado Arantinho, Irê, Caminha e os mentores do troféu Manezinho para não ter surpresas. Parisienses, catalães e romanos botaram defeitos em seus filmes, e ele não queria se incomodar com os críticos outra vez.

O Rancho de Amor à Ilha embalou boa parte da história, mas também apareceram as criações do Dazaranha, o terno de reis, o pessoal jovem que faz um rock urbano bem descolado. O casal que monopoliza a trama alugou uma pousada no Santinho, onde discutia as ideias de Foucault à sombra dos contos de 13 autores que beberam na fonte de Franklin Cascaes, sem querer imitá-lo. Nas andanças pelos botecos da redondeza, surgiram aqueles personagens que dealguma maneira rondaram Paris e que deixaram as velhinhas de Roma de cabeloem pé, porque a Ilha tem muito de bruxólico, mas mais ainda de afrodisíaco.O cineasta não deixou por menos e fez Alec Baldwin escalar um tronco degarapuvu, obrigou Fernanda Torres a ler a poesia de Oscar Rosas etransformou Peninha, enfarado com aquelas invencionices, num falso indianomeditativo, como a rir de quem vê felicidade no recolhimento. Os ideais domonge João Maria, interpretado por um roceiro do Sambaqui, deram um caldo deesoterismo aos debates, e não faltou quem, num papel secundário, lembrasse de Fritz Müller e sua caça aos berbigões.

No fim, encerradas as locações, a equipe fez um bacanal – não era essa aintenção do diretor – na ilha do Campeche, assustando os micos que estavamali contra a sua vontade.

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