Al Neto (Afonso Alberto Ribeiro Neto) 01

O “5 em flor” é o símbolo histórico da modelar Estância Pinheirinho, a doze km do centro de Lages, após a ponte sobre o histórico Rio Caveiras (em cujas margens houve o sangrento combate envolvendo Giuseppe e Anita Garibaldi, do qual esses revolucionários saíram perdedores).O “5 em flor” estava em sua fivela de prata, incrustado em ouro: a ponta inferior do cinco era rematada por um lírio de três pontas; estava na sela de seu cavalo  puro sangue inglês, e  até na lateral do teto de vinil de seu luxuoso automóvel, ou na camioneta que usava para percorrer o imenso campo de aveia verdejante, nobre ração para seu seleto plantel charolês (depois acrescido também da raça gir – popularmente conhecida por zebu).

Minha convivência com Al Neto foi extremamente próxima, enquanto estive – durante quatro anos – como secretário do Município de Lages, no planalto serrano.

Al Neto impunha respeito não somente pela sua figura vistosa e olhar firme, mas também pela imenso cabedal de cultura de que era detentor.

Falando ou escrevendo, sempre foi absolutamente correto: não se observava um lapso de concordância ou vício de linguagem.

Advogado, jornalista, escritor (poliglota) e impecável comentarista de rádio e televisão, retornou a Lages depois de viver, desde novo, na Inglaterra, Estados Unidos e Rio de Janeiro, exercendo atividades superiores junto ao USIS (United States Information Service), órgão de divulgação americana para os países de idioma de origem latina de todo o globo.

Esse notável personagem detestava mediocridade. Metódico e reservado, era, às vezes, chamado de “snob” por muitos que não desfrutavam da sua seleta  amizade e elevada  atenção. Sua pontualidade (herança da convivência britânica?) era algo impressionante!

A hora e o minuto eram importantes para Al Neto e ele os cumpria rigorosamente, até no chá da tarde, sob o frondoso flamboyant na imensa área de pasto verdejante e caprichosamente podado que ficava à frente da casa da estância: às 17 horas seus serviçais (devidamente uniformizados) o serviam numa elegante mesa de estreitas treliças que era posta ali com cadeiras no mesmo estilo, porém almofadadas.

Tudo o que se servia era geralmente importado e de primeiríssima qualidade no chamado primeiro mundo: biscoitos embalados em latas lacradas e de variados sabores, avelãs e queijos de toda espécie.

Se um encontro na estância era aprazado para as nove horas da manhã em sua vasta agenda, até para a celebração de vultosos contratos mercantis de venda de reprodutores ou de sêmen, ou para tratar da próxima exposição de Esteio de reprodutor Charolês, não havia tolerância de um minuto a mais. O retardatário eventual certamente teria que fazer meia volta e dificilmente seria novamente atendido por ele.

Al Neto foi o mais expressivo fornecedor de sêmen de charolês não somente para o país como também para a Europa e paises das Américas. A época, sua capacidade ultrapassava a do próprio órgão estadual oficial de agropecuária.

Um rio nascia e terminava dentro da estância. Suas águas eram tão limpas que uma pequena folha seca que eventualmente nele caísse parecia um enorme entulho manchando aquele impecável curso hídrico.

No lado leste: a centenária e imponente sede da estância, a estrutura de coleta e congelamento de sêmen, os grandes depósitos de forragem, os vários campos de manutenção e manejo de gado, o acesso geral à sede, as garagens, os abrigos do plantel e… o cemitério numa colina mais ao norte.

Havia (creio que ainda está preservada) uma reserva inédita nos dias de hoje. Tratava-se de uma gleba gigantesca de araucária de muitos anos, onde tudo era absolutamente preservado segundo a natureza intocada. Não somente as gralhas azuis, responsáveis pela disseminação do pinheiro, mas também ali se encontravam animais das mais variadas espécies nativas, convivendo harmonicamente.

Eram comuns as aparições de velhos javalis, cujos dentes eram retorcidos pelos anos vividos. A ordem enérgica era de que ali se perpetuasse o santuário natural e imaculado para todo o sempre. Ao redor uma cerca de vários quilômetros de extensão, totalmente de arame farpado esticados em espaços paralelos que não ultrapassavam 15cm entre si e uma altura de dois metros.

3 respostas
  1. Mário Osny Rosa says:

    Lembrar Al Neto é muito importante nesse momento em nosso frágil país de ética de cumprimento de horário o dia que o Brasil tiver 300 deputados com a pontualidade de Al Neto, este país recupera os 500 anos perdidos no espaço de poucos anos, só pela sua pontualidade coisa rara nesse imenso Brasil, lembro dele e suas Crônicas na Antiga Rádio Tupy do Rio de Janeiro um grande marco na história do País.
    Mais tarde conheci o pessoalmente, quando a convite da Coordenadoria de Educação de Lages fez uma palestras aos professores que ministravam a língua Inglês nas escolas estaduais da regional de Lages. Nesse dia fiquei sabendo pela lição que nos deu naquela palestra nos relatando que a nobreza inglesa não era o poder do dinheiro, mas sim o conhecimento polido da língua inglesa, somente no Brasil dinheiro representa poder (estatus), a cultura e um subproduto ignorado pelo governo e as autoridades desse país.

  2. Agilmar says:

    Quantas verdades (e coerência) sintetizadas em tão poucas palavras, caro Mário.
    Só um homem de letras, ilustrado como você, tem pensamentos tão elevados e dignos de profunda meditação…
    Vivemos numa boa Nação, porém com poucos filhos vocacionados à condução deste País rumo a esses ideais.
    Abraços fraternos.
    Agilmar

  3. Vilarino Wolff says:

    Parabéns ao Agilmar pelo magnífico relato. Preciso, minucioso, consegue plasmar em palavras o retrato do Al Neto. Convivi pouco com o personagem, mas foi o bastante para não esquecer as lições de vida em que era pródigo, notadamente a ética, a pontualidade, a simplicidade e disposição para a vida. Com ele aprendi, também, que “escrever é fácil; o difícil é escrever fácil”. Cumprimento ao caroouvintes pela matéria, just iça a quem merece. Vilarino.

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