Abaixo a tradição

Estou com doutor Lapa Pires. Esse negócio nozes, avelãs e castanhas para o rega- bofe natalino, acompanhando o gordo peru recheado, não fica bem para nossa permanente apertura financeira. Chega o Natal e todo o mundo só pensa em peru, até rifas correm, o galináceo doméstico fica importante, primeiro prêmio. Ora, com tanta procura de peru – e eu posso assegurar que nunca houve tanta procura de peru – as leis econômicas observadas pela Sunab do doutor Lapa ditam a reação do comércio: o peru sob de cotação. O mesmo acontece com as nozes, avelãs e castanhas, tradição importada sempre aumentando de preço nas chamadas festas de fim de ano.

Ora, se peru fica mais difícil e fugidio, as nozes, castanhas e avelãs também, o caminho mais certo é deixar o peru em paz no seu galinheiro, não lhe dar muita confiança. As nozes e similares, podem perfeitamente ser substituídas pela banana, pelo mamão e pela pitanga.

Assim, o cardápio de uma ceia de Natal teria outra e patriótica vantagem: nacionalizar-se-ia.

Um coelho ao bafo de onça, por exemplo; ou, então, uma codorna ao molho pardo, prato de reconhecida terapia em certos casos mais agudos. Poder-se-ia, também, incluir o nhambu, o jacu, a paca, a cutia não.

Frutas nem se fala.

Goiaba, araçá, baguaçu, jambolão, camucá, aperta-goela, carambola, sete-capote, ariticum, guabiroba, olho de boi, jabuticaba e tucum.

E isso não é muito difícil.

Basta ao doutor Lapa desencadear uma campanha, contando com a colaboração das autoridades, desde que sejam as civis, militares e eclesiásticas, senão não vale.

Entendo, ainda, que essa luta nacionalista do doutor Lapa poderia perfeitamente voltar-se contra os vinhos estrangeiros.

No lugar deles, uma genuína cachacinha nacional, daquela que matou do guarda.

O que encarece todos os produtos habituais é a tradição, a mania que se tem de cultuar velhos costumes sem a retaguarda financeira.

Se todos agirem dessa nova maneira, sensibilizados pela campanha, destruindo uma tradição absurda e importada, a agente, cá pra nós, terá tempo, calma e dinheiro para comprar de contrabando, um peruzinho assustado, perseguido pelo DOPS. E algumas castanhas portuguesas, fora da lei. E alguns litros de Moet  et Chandon, altamente subversivos.

Que assim seja, doutor Lapa, que assim seja.

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Enganos e equívocos podem ocorrer.

Mas ninguém sabe como foi ocorrer o que segue, na Câmara Municipal de Florianópolis, ainda que ela seja mais de enganos e equívocos do que de acertos.

O vereador Waldemar Filho, com aquela voz de baixo profundo, foi à tribuna. Solicitava a expedição de um telegrama de congratulações à tradicional família de Florianópolis. É que completava oitenta anos uma das mais venerandas figuras desse família.

O telegrama foi, mas foi diferente.

A família do Dr. Abelardo Rupp, em meio às festas e alegrias do aniversário, recebeu o seguinte telegrama da Câmara Municipal:

– Câmara Municipal de Florianópolis, profundamente consternada, aprovando requerimento do vereador Waldemar Filho, manifesta seu imenso pesar pelo falecimento de tão ilustre figura, etc. Etc.

O Dr. Abelardo anda com o telegrama no bolso, que é pra ninguém desmentir.

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Volney Colaço de Oliveira, uma das mais lúcidas inteligências políticas que já conheci no livro que lançou, contendo pareceres da Procuradoria Geral, com decisões do TRE:

– Quanto ao rebaixamento do nível de representação, estamos em que o assunto encerra raízes mais profundas. Cinge-se mais ao problema educacional que a qualquer outro. Educação, porém, dos eleitos e não apenas dos eleitores, dos escolhidos e não dos que escolhem.

O Dr. Volney, que deveria estar no Parlamento Nacional e não na Procuradoria, assinala ser favorável à “admissibilidade do voto a todos os que tenham capacidade jurídica para os atos em geral da vida civil e pública, inclusive aos não alfabetizados”.

É um trabalho que deveria estar na estante de políticos, jornalistas e advogados.

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Segundo levantamento do serviço de Meteorologia do Ministério da Agricultura, a temperatura mais baixa registrada no Brasil, em todos os tempos, foi de 11 graus e seis décimos abaixo de zero, no dia 25 de julho de 1945, na cidade e Xanxerê, Santa Catarina. O segundo lugar está em São Joaquim: oito graus e um décimo  baixo de zero, em 31 de julho de 1955.

Santa Catarina é mesmo um estado frio.

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Sergio Porto, explicando porque os padres de Botucatu se manifestaram contra o novo bispo designado pelo Vaticano:

– Muito simples. São 23 padres que viram os outros botucarem e resolveram conjugar o verbo baseados na tese: botuca ele, butuco eu, botuca tu.

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