A passageira: Você pode me acompanhar até a ponte?

Quando ela fixou-o, com o olhar úmido e luminoso, Turíbio sentiu um furor de fogo incendiando o peito e dominando todo o seu ser, pois nunca vira tanta formosura

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Era o dia dos seus 70 anos. Mas nem tão relevante data afastava Turíbio Sousa do seu cotidiano ritual, cumprido à risca e com método, depois que se aposentara de modesto cargo público. Excêntrico, esquisitão, antissocial, conforme propagavam as rodas mexeriqueiras do cais do porto, ele mesmo rejeitara possíveis manifestações festivas por parte de familiares e de alguns poucos amigos. E assim ia, como sempre, no princípio da manhã, rumo ao trapiche de praxe, o ponto predileto de pescaria e do estar-só-consigo-mesmo.

Vértebras arcadas, andar curvado, caminhava sem pressa, conduzindo um balaio, duas pequenas redes e um caniço de bambu. E nem percebia o canto-alarido dos pássaros e cigarras cravejando-se no ar, como uma alegre saudação àquela cristalina manhã de outono na Ilha de Santa Catarina, após dois dias de chuva, frio e vento sul. A figura magra e as faces enrugadas projetavam-se no velho casario do cais, debatendo-se com as cambiantes sombras matutinas, enquanto ele, à luz de um ascendente sol, prosseguia no seu habitual itinerário.

Passam alguns transeuntes: um mendigo caolho, um marinheiro bêbado bamboleante e as primeiras frequentadoras do Mercado, com as suas cestas e sacolas verde-matutinas.  Mas Turíbio pouco vê do que ocorre ao seu redor, prensado pelo peso de sete décadas de experiências e vivências. Naquela manhã, apesar da límpida e azulada atmosfera, ele ainda não decifrara as suas próprias luzes, os seus próprios segredos, submersos nos escaninhos e dobras do tempo. Com tal disposição, não compreendia nem o mundo, nem a si mesmo.

“Então, isto é uma vida”? -, interrogou-se, subitamente, envolto em turvos pensamentos. E os aventurosos planos da mocidade, rumo aos azuis caminhos do mar e suas desconhecidas distâncias – em busca de outras terras, fortuna e amores – onde se perderam? Em vez disso, toda a existência passada nesta ilha-cidade, sem mulher, sem filhos, sem deixar raízes. Bem verdade que todas as suas atividades sempre estiveram ligadas ao mar. Mas, por nunca condescender com nada que contrariasse o seu temperamento, não progredira na escala social-provinciana.

Houve períodos de muita boemia, mulheres variadas (sem se fixarem nenhuma) e demasiado álcool. Depois o tempo sumindo como num redemoinho, ele amadurecendo, envelhecendo, recolhendo-se ao seu próprio destino. Agora, tudo já passado, todos os planos já extintos.

O dia, porém, não para de avançar e os aromas pairantes no ar – mistura de frutas frescas, bancas de peixe e maresia – juntamente com as velozes luzes matutinas, revelando, de minuto a minuto, infindas multicolorações, começam a lhe estremecer os sentidos. Quantas vezes já passara por ali, pelo habitual cenário, com seus sobradões rebrilhando ao sol e os velhos trapiches avançando pelo plácido ou tempestuoso (quando ventava) mar da Baía Sul, denominada pelos espanhóis do século XVI de Baía de los Perdidos. Mais além, a arroxeada cadeia de montanhas da Serra do Mar, tendo como destaque o imponente morro do Cambirela, cuja conformação sugere o contorno de um gigante adormecido e seu arrebitado nariz, figura há séculos incorporada às lendas ilhoas. Tudo visto, revisto, mas nunca totalmente percebido. Só agora, por exemplo, está observando, pela primeira vez, a cabeça de um leão furioso, adornando o desbotado casarão prestes a ruir.

Então, de repente, o mundo ergue-se à sua frente com outra tonalidade, outra graduação – a mesma aragem, a mesma temperatura e este algo esquisito dentro de si, “igual a que outro tempo?” E um halo renovador domina-o, ao constatar-se ainda lúcido e vivo. Clareiam-se as lembranças, agora, na memória, reavivam-se as experiências: dominicais manhãs de regata, nas azuladas baías Sul ou Norte (conforme  os desígnios dos ventos), ele na voga – “força, rapazes, falta pouco, vamos ganhar…” – parece ainda ouvir a voz do “patrão” -, foguetes e chapéus invadindo o ar, ao término das competições, risos, abraços, bebedeiras…

Turíbio sorri para si próprio, mas já ia chegando ao todo esburacado trapiche, no cais Rita Maria, remanescente dos áureos tempos do porto. Ali o posto de observação, de onde a velha Nossa Senhora do Desterro, há tantos anos, cresce à sua vista, os espigões de cimento armado invadindo os espaços e quebrando o encanto da bucólica cidade de outras épocas. A única obrigação diária, para consigo mesmo, quando não chove, é pescar naquele local. Mas isto é o que basta, tudo contido naquele verde-vagar.

Olhos presos n’água, acompanhando o movimento das pescadinhas, cocorocas e baiacus, no embalo da maré-corrente, ele se esquece e se integra a tudo que o rodeia. Agora, já instalado no seu lugar de costume, mais uma vez contempla a mesma-de-sempre-baía – mas com as suas águas nunca deixando de se renovar -, enquanto o toc-toc dos barcos pesqueiros martela o ar

Ainda nem existia a ponte – o enorme vulto negro cravado na paisagem, ligando a Ilha de Santa Catarina ao continente – e Turíbio já zanzava por aquelas imediações, atraído pelo cenário de docas, embarcações (dos mais variados tipos e tamanhos) e pequenos navios. Mas era tudo diferente, o porto fervia de gente e ruídos, mercadorias chegando e embarcando, cargueiros flutuando num mar de promessas. “Ir num navio destes até os confins do horizonte, quem pudesse”, almejava o jovem Turíbio. Foi quando quis entrar na marinha mercante e acabou rejeitado.

Diagnóstico: insuficiência cardíaca. “E aqui estou até hoje”, reflete, enquanto as lembranças continuam aflorando na mente.

Os navios de grande porte ancoravam lá longe, nas proximidades do Farol dos Naufragados, ao sul, ou da ilha de Anhatomirim, ao norte. O mar transformava-se num só negrume, nas noites fechadas, ou então era a semovente luz lunar, que, com sua luminosa trilha, seguia o lanchão, no qual Turíbio ia muitas vezes como auxiliar de uma autoridade portuária.

Naquele tempo, porém, uma nova atividade começou a agitar as águas das duas baías. Homens e máquinas, em ruidosa movimentação, aguçavam os olhares curiosos dos citadinos, enquanto dragas, barcaças, guindastes e estranhos instrumentos invadiam o já habitual décor. E, de repente, pedestais de concreto e pilares despontaram, tanto no lado insular quanto no continente, e a ponte pênsil começou a crescer.

Uma febril agitação invadia agora as ruas do cais; trabalhadores vindos de outras regiões, com roupas e falares diferentes; marinheiros narrando audaciosas aventuras; oferecidas mulheres circulando sob a tênue luz dos globos; grupos urbanos malandreando ao sol.

Então, dos pilares ao arcabouço, a férrea forma compacta agigantou-se à retina da cidade. Levantaram-se as torres negras e a imponente obra estendeu-se, com a concretização do vão central e suas correntes de aço, até a junção definitiva da pista de madeira às cabeceiras. Incorporou-se à paisagem, enfim concretizada. Era a primeira ponte pênsil da América do Sul e a quinta do mundo em tamanho. Foi denominada Ponte Hercílio Luz, em homenagem ao homem que a idealizara.

Na noite anterior à inauguração da ponte, Turíbio encontrava-se no enfumaçado bar, próximo ao porto, envolto em festiva algazarra. Apesar das nefastas previsões médicas, faria 30 anos no dia seguinte, forte e saudável.  Mas, quando a animação atingira o auge, alguém vem chamá-lo:

– Vam’bora, rapaz, tem um navio chegando aí.

– Logo hoje, noite de festa!? – reclamou ele.

Não teve outro jeito, porém, e, pouco depois, já enfrentava um mar crispado, medonho, o uivante e violento vento sul revolvendo faces e pensamentos. “Logo hoje”, conjetura, sentindo-se aéreo, distante, entontecido, no bamboleio enjoativo da lancha, enquanto a pequena embarcação aproxima-se do vultoso e todo iluminado navio. E tinha a impressão, quanto mais perto chegava, que estava sendo engolfado pela gigantesca presença flutuante. Até que a lancha cola-se ao casco de aço e uma voz ressoa lá de cima:

– Lá vai a escada, segurem-se bem, porque o mar não está sopa.

E os homens subiram, para as vistorias de praxe.

Então, de súbito, uma sinuosa figura feminina surge no enevoado convés, como se viesse de outras esferas, o rosto quase oculto por um chapéu de abas largas. E a informação, captada por Turíbio:

– … uma passageira que quer muito presenciar a inauguração da ponte de vocês. Ficaremos por aqui até a madrugada de amanhã, para alguns reparos.

No momento do retorno – “… muito cuidado, ela está descendo agora…” -, a passageira incorporou-se ao grupo, magnetizando olhares e atenções, com o seu vistoso traje de noite salpicado de gotículas, uma cinza mantilha sobre os ombros. E um envolvente aroma invadiu a embarcação.

Após acomodar-se, ela tirou o chapéu, deixando à mostra curtos e ondulados cabelos escuros, que se iluminavam, de quando em quando, sob a luz dos holofotes marinhos. A pele clara contrastava com os reluzentes olhos negros, que se moviam, de um lado a outro, como piscantes pirilampos. Já os lábios, em forma de coração, harmonizavam-se, em perfeita simetria, com o gracioso nariz e com as sobrancelhas arqueadas.

Quando ela fixou-o, com o olhar úmido e luminoso, Turíbio sentiu um furor de fogo incendiando o peito e dominando todo o seu ser, pois nunca vira tanta formosura.

“Como é que certas coisas tão distantes ficam assim tão perto no pensamento da gente”? – reflete ele no hoje.  Por outro lado, tudo o que aconteceu, em seguida, é vago e nebuloso como num sonho. Lembra-se de que na própria travessia marítima ela dirigiu-lhe a palavra. Mas só o que se fixou na memória – além do tom suave e melodioso de sua voz – foi o pedido:

– Você pode me acompanhar até a ponte?

Turíbio acordou-se como se estivesse vivendo em outra realidade, tanta coisa acontecendo de uma só vez: os seus 30 anos, a abertura da ponte e aquela perturbadora presença feminina, vinda de outras terras e de passagem pela cidade, entrando, subitamente, em seu caminho.

Era o dia 13 de maio de 1926, uma chuvosa manhã de vento sul.

Mas, mesmo assim, havia um clima de festa no ar. Desde cedo rojões explodiam em diversos pontos e o som marcial das bandas militares ecoava na distância. Ele escolheu a sua melhor roupa e foi buscá-la no mais renomado hotel da cidade.

Ao vislumbrá-la, de longe, aguardando-o no saguão, Turíbio percebeu que as suas formas ondulantes estavam agora modeladas num claro vestido curto, deixando-a ainda mais atraente. Um pequeno e arredondado chapéu completava a toilette.

Ela, então, distinguiu-o, em meio ao vai–e-vem dos hóspedes, e gratificou-o com um radiante sorriso, a expressão expandindo-se em luminosidade. Aproximou-se e de sua pele emanava-se um discreto perfume de jasmins. Após cumprimentá-lo, ela colocou um manteau de lã sobre os ombros e informou:

– Estou pronta…

Embarcaram, em seguida, num carro de cavalo – denominação que os ilhéus davam aos seus tílburis – e dirigiram-se ao local onde tinha sido edificada a magnífica obra de engenharia.

Quando lá chegaram, no início da tarde, uma enchapelada aglomeração já se acotovelava, sob um mar de guarda-chuvas, aguardando o ansiado momento de atravessar a ponte pela primeira vez. Após os atos oficiais e religiosos, e o corte da fita inaugural, a sólida ligação de aço, ferro e concreto entre a Ilha de Santa Catarina e o continente foi aberta ao tráfego e aos pedestres. E a multidão invadiu-a, enquanto os foguetes rompiam no ar, numa explosão de alegria coletiva.

– Vamos também – disse ela, puxando Turíbio. – Vamos atravessar a ponte. passaram a percorrê-la em toda a sua extensão, amontoados à eufórica massa humana das mais diferentes classes e raças. No meio da travessia, com a ampla visão das duas baías – uma agitada, outra plácida – ele sentiu-se simultaneamente, minúsculo (em contraste com as gigantescas torres negras) e grandioso (por viver um momento histórico da cidade, ao lado da mais bela mulher que já encontrara).

Mas só agora, 40 anos depois – quando a memória lhe trouxe de volta, de uma forma tão intensa e vívida (como se estivesse acontecendo hoje), um acontecimento que parecia definitivamente soterrado em sua mente -, ele compreendeu que aquele foi o dia mais iluminado de sua vida, mesmo com a forte chuva que os ensopou da cabeça aos pés.

Ao retornarem da ponte, ele, quase instintivamente, conduziu-a ao modesto quarto de pensão onde morava, numa velha rua próxima ao porto, e amaram-se até o dia morrer.

***

Às 10 horas da noite, Turíbio acompanhou-a até o Trapiche Municipal, de onde ela seguiria para o navio. Não muito longe, seresteiros e chorosos violões impregnavam o ar de melancolia. Quando já estavam se despedindo, ele lembrou-se de que ainda não sabia o seu nome. Ela, então, revelou:

– Meu nome é o mesmo da sua ilha: Catarina. (1996)

***

© Raul Caldas Filho – Direitos reservados  | (Conto publicado originalmente no livro “O Vendedor de Diabos”, Editora Garapuvu, 2005. E publicado pelo DC no Caderno de Cultura, com ilustração de Rodrigo de Haro no dia 13 de maio de 2006).

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