A mediocridade e o poder

A cena era solene: O presidente George W. Bush discursava para os formandos de uma das mais conceituadas universidades dos EUA.

O cerimonial estabelecia que os melhores alunos ocupassem um lugar de destaque, como distinção por seu esforço e desempenho. Todos aguardavam, ansiosos, por um merecido elogio, e não era sem motivo: caberia a eles, provavelmente, assumir a responsabilidade pelos próximos passos tecnológicos e estratégicos da maior potência da atualidade!

Por revelarem potencial desde cedo, foram exortados pelos professores e observados por uma sociedade extremamente competitiva e cruel. Por compromisso e obstinação, se empenharam a fundo – às vezes com sacrifício pessoal – para atingirem as metas e superarem desafios propostos!

Bush não os decepcionou:

Ao dirigir-se ao grupo, confirmou o motivo pelo qual eles estavam ali: a excelência de seu desempenho acadêmico!

“Well done!”, afirmou, em tom sério e professoral.

No entanto, esse “bálsamo” se transformou em ácido, quando o, então, mandatário mais poderoso do mundo voltou-se para os demais formandos e proclamou cheio de entusiasmo e satisfação, que, embora sendo medíocres, eles poderiam acreditar na real possibilidade de um dia serem presidentes dos EUA… Foi aclamado por todos, sob o olhar estupefato dos demais!

Pois é… O rancor é realmente um sentimento poderoso e duradouro, sobretudo numa sociedade baseada na exaltação de uns e humilhação de outros, segundo critérios bastante volúveis, solúveis e voláteis.

Assim, a apologia da mediocridade proclamada nesse discurso e ovacionada pelos que foram habilmente levados a assumi-la, conduz a um sério e oportuno questionamento: Qual é a efetiva relação entre a mediocridade e a política? Será um destino preferencial dos medíocres, por abrigar tradicionalmente mais “espertos” do que “experts”?

Em alguns casos, sem dúvida!

Entretanto, o simples fato de buscar aprendizagem já faz com que uma pessoa não mereça a alcunha de medíocre. Além disso, a moderna psicologia considera várias “inteligências” ou aptidões, todas importantes!

Mas, só o uso sábio delas promove a evolução da humanidade. O desprezo e o comportamento arrogante, de onde quer que venha, caracteriza fraqueza intelectual e de espírito. Indivíduos que tem poder e agem desta forma, erguem barricadas, em vez de ampliar horizontes.

Então, qual é o papel reservado para os que se esmeram em aprender e buscam ampliar seus conhecimentos e fazer descobertas, nesse contexto contraditório? Será que é estar ao serviço da “mediocridade” desdenhosa e rancorosa, mas poderosa?

Bem, é óbvio que sem financiamentos não existiriam recursos para a ampliação do saber. Também é fato que não existem melhores fermentos para a ciência do que a dúvida e o desafio.

Porém, é igualmente insofismável que não há armadilhas mais temíveis e sedutoras do que a vaidade e a arrogância. Graças a elas, a inteligência se distancia do povo e abre espaço para que a “mediocridade” carismática conduza os destinos da humanidade. Além disso, está cada vez mais arraigada a cultura de que o importante é “se dar bem”, não importa a que preço, inclusive moral!

Essa “lógica” tolera que se obtenha pela força, pelo ilícito ou pelo subterfúgio o que não se consegue pelo uso da razão, da inteligência e da sabedoria. Fruto disso, quando a “mediocridade” esperta – e ela existe em todas as classes sociais! – assume o controle, seus adeptos passam a se julgar modelos de sucesso, desprezando e humilhando a inteligência, mas contando com ela para atingir seus propósitos. Mesmo os “medíocres” mais poderosos não ignoram que o saber é uma fonte inesgotável de poder!

Também é interessante observar que a “mediocridade” chega ao “topo” normalmente pelas mãos do poder econômico socialmente insensível, embora eleitas pelo voto popular “marketeiramente” iludido! Será por competência ou por que os “medíocres” são mais propensos a manipulações?

A ciência busca o saber, que é instrumento de poder. Só que o poder nas mãos erradas torna-se um terrível veículo de opressão, subversão, alienação e ignorância. A posse de ambos, sem embasamento ético e humanista, tem sido o “princípio ativo” da tirania.

Como alguém que faz apologia da “mediocridade” pode exortar um filho, uma equipe ou uma nação a buscar excelência em ensino e pesquisa, indispensáveis ao desenvolvimento, quando ele próprio os despreza, com desdém?

Saber e poder são inseparáveis, não há dúvida!

Porém, para que seus benefícios sejam amplos é imprescindível que sejam amigáveis, cooperativos e motivadores da evolução da sociedade. De outra forma, a inteligência arrogante, desengajada ou cegamente à disposição do poder econômico, continuará a ser desprezada, enquanto a “mediocridade” esperta, oportunista e truculenta continuará a desgovernar a humanidade, com as bênçãos alienadas de uma maioria manipulada com “pão e circo”.

Adilson Luiz Gonçalves | Membro da Academia Santista de Letras | Mestre em Educação | Escritor, Engenheiro, Professor Universitário e Compositor | Ouça textos do autor em: www.carosouvintes.org.br (Rádio Ativa / Comportamento) | Caso queira receber gratuitamente os livros digitais: Sobre Almas e Pilhas, Dest’Arte e Claras Visões, basta solicitar pelos e-mails: [email protected] e [email protected] | Conheça as músicas do autor em: br.youtube.com/adilson59 |  (13) 97723538 | Santos – SP

2 respostas

Trackbacks & Pingbacks

  1. […] e cruel. Por compromisso e obstinação, se empenharam a fundo – às vezes com sacrifício pessoal – para atingirem as metas e superarem desafios […]

Deixe uma resposta

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *