A injustiça dos tempos

Manhã de junho, 1961. Na casa sem pintura, sem banheiro, deitados em camas muito macias preparadas pela “velha” Amarfilina, nossa querida mãe, Aimberê e eu acordamos.
Por Aderbal Machado

O sol entrava pela janela, aberta naquele momento pelo Aimberê, ainda cheio dos vícios e dos viços da Marinha, de onde viera pouco tempo antes, e ele cantava: “A luz do dia, traz alegria…”.
Ele havia recebido um convite do Aryovaldo, nosso mano, para ir trabalhar em Criciúma, na prefeitura.
Naquele dia, acho que 20 ou 19 de junho, não lembro bem, ele – Aimberê – resolvera não ir. Queria estudar.
Terminar o curso normal (segundo grau, hoje ensino médio) e seguir adiante.
Olhou para mim, interesseiro e interessado: “Negrão, quem sabe você vai falar com o Aryovaldo e você pega o emprego?”
O choque inicial me pegou fundo. Eu? Senti um calorão. Ele insistiu, tentando me convencer: “Patati, patatá, coisa e loisa, vira e mexe”.
Quando eu comecei a absorver a idéia, veio a tirada fatal e o real motivo: “Você trabalha e me ajuda a pagar meus estudos.”
Legal, ele, não? Nos estranhamos por um tempo, porque eu não queria trabalhar e “ajudar” o Aimberê a pagar seus estudos. Achava isso uma malandragem inominável. E era.
Todavia, ele não queria era ir para Criciúma e não queria desagradar o Aryovaldo. Afinal, eu fui. Era um dia 22 de junho de 1961. Cheguei à prefeitura (Nery Rosa havia sido recentemente eleito, quebrando uma hegemonia de muitos anos do PSD de Addo Caldas Faraco, avô da atual deputada Ada Lili Faraco de Luca).
O Aryovaldo ficou surpreso, mas não titubeou: me admitiu (ele era Chefe de Gabinete do prefeito e mandava em tudo) como Auxiliar de Almoxarife, fichado, tudo direitinho, embora eu estivesse na flor dos meus 17 anos (aliás, aquela ficha e aquele tempo de serviço foram vitais na minha aposentadoria por tempo de contribuição, em 2001.
Ficha original, encontrada pelo RH da Prefeitura e anexada ao meu processo).
Naquele período conheci pessoas extraordinárias, principalmente mulheres que trabalhavam na prefeitura, nos gabinetes, muitas solteironas simpaticíssimas, algumas até hoje por lá.
Em 1962, o Aryovaldo entrou num projeto de uma emissora – a Rádio Difusora, por convite do vice-governador Doutel de Andrade, seu amigo particular. Me chamou para ser locutor. Ali trabalhei até servir ao Exército, em 1963. Nesse ínterim, a emissora mudou de rumo e de mãos – o Doutel e o PTB se desfizeram dela, que acabou nas mãos do PSD. Da água para o vinho. Nessa, eu sobrei.
Então o Aryovaldo me arranjou trabalho na Câmara de Vereadores (ele era vereador, também). Fui nomeado Secretário Executivo. Só fazia atas e correspondências. Ali passei por presidentes como Wilmar Zózimo Peixoto, Pedro Guidi, mais tarde Edi Tasca, Nereu Guidi (filho de Pedro), Eno Steiner, Miguel Medeiros Esmeraldino.
Quebrei o galho para sobreviver, mas não foi o melhor momento da minha vida.
Em 1967, novamente o Aryovaldo: foi trabalhar na Rádio Eldorado e me levou para ajudá-lo a fazer o jornal falado do meio dia. Acho que mais atrapalhei do que ajudei.
Só sei que aprendi um monte.
Ah, sim: de novo o Aryovaldo. Desta vez, antes um pouco (1964), ele me arrumou um cargo na Carbonífera Próspera (era muito amigo do dr. Mário Balsini, então todo-poderoso da Próspera). Fiquei por lá até 10 de dezembro de 1970, quando saí e entrei, em definitivo, na vida de rádio. O Antônio Luiz me propôs trabalhar fichado na Eldorado e eu fui. Do grupo só saí em 1992, portanto 22 anos depois, passando por emissoras da rede em Criciúma, Araranguá e Florianópolis.
Ali foi um tempo bom, de aprendizado e bom salário.
No último reduto da Rede Eldorado, Florianópolis, terminei a minha “faculdade da vida” profissional. Com pós e mestrado.
Aí foi uma sucessão rápida: Jaraguá do Sul/Criciúma/Balneário Camboriú, onde estou há mais de 10 anos.
No meio desta narrativa, pulei muita coisa. No entremeio dos tempos, irei separando e contando. Não é fácil lembrar tanta coisa assim, depois de tanto tempo.
Uma coisa que me deixa triste: em Criciúma, tirando Mário Belolli, parece que somos detestados.
Nem falo de mim – mas de meus manos César e Aryovaldo, principalmente eles, que foram figuras exponenciais na história do rádio na cidade, desde a sua fundação.
Muitos históricos publicados sobre o rádio simplesmente os ignoram, como se não tivessem existido.
Por isso todos nós, sem exceção, não guardamos de Criciúma boas lembranças.
Não é nem uma questão de mérito, mas a história e a realidade não podem ser apagadas por recalques mal guardados.
 


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4 respostas
  1. Aimberê Araken Machado says:

    Como essa “malandragem” minha, lembrada e mencionada pelo Aderbal, não é muito favorável à minha imagem, faço de conta que a esqueci… Mas lembro com clareza de uma certa vez em que lasquei um tiro de chumbinho no beiço do Deba, só porque fiquei com raiva – ou inveja, sei lá – ao vê-o em cima de uma mesa, vestindo um pijama de pelúcia, em nosso quintal da velha casa da praça Hercílio Luz, em Araranguá.
    Éramos crianças, é claro, mas às vezes crianças fazem malvadezas. Como o Aderbal era o caçula, recebia muitos mimos e atenções de nossa mãe, que o chamava de “Pindeco” ( vejam que absurdo ! ). Ora: eu era o irmão que fora “destronado” por ele. Daí meu despeito e minha tendência freudiana a, sempre que podia, vingar-me dele. Depois, quando me alistei na Marinha aos dezessete anos, o Aderbal tinha doze. Daí por diante, creio que passei a ser o ídolo dele, envolvido numa aura de heroísmo e aventura: afinal, eu estava no Rio de Janeiro que, naquela época – 1957 a 1961 – , merecia, verdadeiramente, a denominação de Cidade Maravilhosa… Belos tempos !

  2. Antunes Severo says:

    Você estava tecnológicamente muito avançado, eu na sua idade andava atazanando os gatos lá de casa com bodoque e muitas sementes de cinamomo.

  3. Aimberê Araken Machado says:

    O nosso amigo Severo é muito modesto. Creio que ele deveria contar a estória inteira, ao invés de resumí-la a duas linhas. Eu, por exemplo, lembro-me de outro episódio interessante (com a participação do Aderbal, é claro). O velho Telésforo – nosso pai – não tolerava que seus filhos fumassem ou consumissem bebidas alcoólicas. Um certo dia, esqueci um maço de cigarros “Liberty” (lembram dessa marca ? ) no bolso de meu casaco. Papai tinha a mania de colocar nossas roupas ao sol ( com certeza, para diminuir o fedor de suor …). Quando ele fez isso, os cigarros se esparramaram no assoalho, e o Aderbal veio correndo me avisar. Fugi desabaladamente pulando a janela, pois, lá na porta de saída, papai me esperava furioso. Subi num grande abacateiro e fiquei lá, no galho mais alto … até a noite ! O Aderbal tratou de levar-me comida lá em cima, durante aquele dia… Foi assim que escapei de levar uns tapas do “velho”…

  4. Antunes Severo says:

    Olá Aimberê, também creio que nossas “histórias” de infância e adolescência precisam ser contadadas. Menos pela nossa glória, mas mais, muito mais por justiça aos jovens de hoje – que como nós – “aprontam” as suas.

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