A Estrela Dalva: seu drama pessoal, virou músicas inesquecíveis

Publicado em: 06/03/2006

No livro que acaba de ser publicado, Minhas Duas Estrelas, Pery Ribeiro narra a barra que foi a separação de seus pais Herivelto Martins, compositor, e Dalva de Oliveira, cantora rainha do Rádio em 1950.

Dalva,  foi considerada nos anos 50 e 60, dona da mais perfeita técnica vocal da música brasileira – a nossa “Maria Callas”. Sem o desejar, é óbvio, seu drama pessoal é, de certa forma, precursor do fenômemo  Reality Shows, exemplificado no Big Brother, líder de audiência na Televisão.

Dalva de Oliveira é uma legítima representante  de uma época que se convencionou chamar de A Era de Ouro do Rádio Brasileiro que abarca, em especial as décadas de 40 e 50.

 

Dalva começou sua carreira em 1934, na Rádio Ipanema do Rio de Janeiro, mas a sua carreira deslancha mesmo a partir de seu casamento com o compositor  e cantor Herivelto Martins em 1939.

 

Dalva, Herivelto e Nilo Chagas formavam o Trio de Ouro, um dos mais importantes conjuntos musicais da história da música popular brasileira – eles cantaram juntos até o ano de 1949.

 

Em 1950 começa sua carreira solo e, ao mesmo tempo, sua desdita conjugal. Os ciúmes de uma mulher fulgurante começaram um pouco antes e precipitaram um desquite não amigável (não havia divórcio na época).

 

Minhas Duas Estrelas
Herivelto Martins, Dalva De Oliveira

ISBN: 8525036102
Editora: GLOBO
Número de páginas: 357
Encadernação: Brochura
Edição: 2006

A carreira solo vitoriosa de Dalva e cheia de brilho potencializou ressentimentos do parceiro conjugal. Algo que se agravou com outro fato: Dalva se casa em 1952 com Tito Clement. Para darmos uma mostra do sucesso da carreira solo de Dalva: ela personificou a primeira cantora brasileira a fazer sucesso na Europa onde, inclusive, chegou a gravar discos.

 

Acontecimento antológico em sua carreira: Elizabeth II, dois dias antes de sua coroação como Rainha da Inglaterra (2 de junho de 1953) foi  ouvir a nossa  “Maria Callas” no Teatro Savoy de Londres.

 

Mas, voltando ao cerne da questão, a separação conflituosa, ao lado de gerar um grande sofrimento para todos os diretamente envolvidos – Dalva, Herivelto e filhos  Pery Ribeiro e Ubiratan Ribeiro, teve na mídia, em especial através das músicas inspiradas no drama  do ex-casal, um componente novo e explosivo.

 

Em suma, a mídia da época, através do noticiário corrente e das músicas tocadas no rádio devassaram a vida privada dessas pessoas. E o público, sem dúvida, participava ativamente desse “Big Brother” embrionário, verdadeiro exercício de “Voyeurismo” sem imagens, mas alimentado por algo  tão  ou mais poderoso que é a imaginação, principal característica  do radio – mídia dominante da época.  E os  caros ouvintes – fãs ou não, participavam e torciam ardorosamente  para que um  ou outro membro do ex-casal fosse para o “paredão”, como ocorre hoje no Brig Brother da TV, mídia dominante dos nossos dias.

 

Resumo da ópera, a meu ver: tanto o drama Dalva-Herivelto dos anos 50 como o Big Brother da Televisão de hoje só revelam uma coisa: o interesse inato e incontido do ser humano em espiar (voyeur) a intimidade das outras pessoas, as chamadas intimidades caseiras, o segredo que rola entre quatro paredes.

 

E o que já está ocorrendo nessa área em nossos dias em que a Internet vai se tornando,  rapidamente, a mídia dominante?

 

A resposta é que a Internet está promovendo o casamento entre o exibicionismo e o voyeurismo – a fome com a vontade de comer…

 

Veja este depoimento, extraído do site: http://www.altiplano.com.br/Exib.html:

 

“Uma das mais expressivas manifestações que soma Internet, Webcams e Correio Eletrônico nos últimos tempos tem sido o perfeito e sonhado casamento do exibicionismo com o voyeurismo. São centenas de mulheres de toda as idades e perfis, que explícito ou escondidamente, realizam a fantasia de se exporem a desconhecidos ou conhecidos mesmo, através de câmeras conectadas à rede [Internet],  normalmente instaladas em seus quartos, onde fazem streap-tease parcial ou total, se masturbam, ora fazem sexo e às vezes simplesmente tomam sorvete”.

 

Voltando ao rádio e à Dalva de Oliveira.
Selecionamos duas músicas  do período crítico da separação de Dalva e Herivelto, cujas letras parecem retratos vivos do drama que ambos viviam.

 

Primeiro, a acusação de Herivelto na música Caminho Certo
(letra de Herivelto Martins e David Nasser):

 

Eu deixei o caminho certo
e a culpa foi dela
Transformava o lar na minha ausência
em qualquer coisa
abaixo da decência

 

A resposta de Dalva veio de forma contundente em É Calúnia
(letra de Marino Pinto e Paulo Soledade)

 

Quiseste ofuscar a minha fama
e até jogar-me na lama
Só porque eu vivo a brilhar
Sim, mostraste ser invejoso
Viraste até mentiroso
Só para caluniar

 


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