A doce tarefa de ensinar aprendendo e aprender ensinando

Eu era hilário, senão bizarro, tentando implantar no cocuruto da gurizada todo aquele palavrório marinheiro…

As nossas aulas teóricas de marinharia aos nossas Escoteiros do Mar era pedagogicamente corretas, mas monótonas é preciso reconhecer. Tentávamos levar aos Escoteiros do Mar os tradicionais falares marinheiros e escoteiros, que fugiam do linguajar diário e, por isso, eram difíceis de memorizar e ao mesmo tempo entender. Eram, porém, indispensáveis quando se passava da teoria para a prática. Era nos nos marzões das baías norte e sul da Ilha Encantada que cada um tinha que mostrar a sua capacitação individual para não pagar mico na hora de demonstrar habilidades e conhecimentos.
Assim,”adriça” não era cordão… “Cabo”não era corda, pois quem tem corda é relógio… “Amura” é cabo que se prende ao punho inferior de uma vela para a segurar do lado donde sopra o vento, ou como nós dizíamos é a parte inferior do “pano” porque barco não usa vela e quem usa vela é defunto… No meio daquele palavrório eu era hilário e cômico tentando implantar no cocuruto da  gurizada todo aquele palavrório marinheiro como dizia, brincando o nosso “almirante” Guy.
Então vinham os “ajustes de contas” nas saídas da Escola de Marinheiros naquelas manhãs de “Papo Amarelo” representadas pelo nordestão barbo que vinha assobiando de alto mar.

Aí, aqueles que foram negligentes no aprendizado ou fingiram ter aprendido alguma coisa, sofriam… Era vento de través… Manobra de arriba… Caída para orçar… Vento de amura… Usar o croque (gancho de açougueiro) e não a palamenta do remo como croque, para escorar  abordagem…

Os mais calejados pela antiguidade, estes já não caíam na esparrela… Mas aqueles “ladinos” como o Tonico Cunha, o Malafaia e outros “mais lisos”, pagavam o novo e o velho… Para treiná-los na respiga, lá ia o Tonico Cunha como proeiro na velejada… O Malafaia ia na escora de boreste… O Boabaid na escora de bombordo… o Negão Luiz na sota voga, o Leonel na voga, o Marcos Noronha na sota proa e o Messias na proa…

Remos três vezes mais compridos que eles, pesados, molhados… e dá-lhe ventania de empolada quando os malandrins estavam em pleno gozo do passeio “raspando as sapatas da venerável ponte Hercílio Luz”, o susto provocava um grito de alerta e o comentário com um “elogio” à minha  Santa Mãezinha: “quase me arrancas as pernas”. É que proeiro não opera de pernas abertas ao mar…tem que ir de cócoras, agarrado ao “stay” ou algum  “brandal” mais próximo…

Então o “Coro dos Fraternais Amigos” ecoava na plácida baía Sul… E do comando do chefe Timoneiro soa como uma ordem: “Guarnecer bancadas”, “Ferra os panos”, “Avança em Arriba a Sota Vento”, e montávamos a Enseada da Rita Maria…os mais delicados tinham um suspiro de alívio… Mas, logo vinha a nova ordem: Bancadas, guarnecer toletes… Armar remos, remos em palamenta… Bancada de boreste… Remos à proa…  Um…  Dois… Três…  Quatro…

– Mas Chefe, não íamos desembarcar e tomar água no Riachuelo (Clube de Remo)? Negativo… Vamos voltar para a Escola de Aprendizes… Quem se levantou, levou a pior… Com os panos ferrados, a  retranca ficara livre e acertou o Tonico Cunha bem no cocuruto…. Água com ele, calado pequeno… alguém queria usar o croque como gancho de açougueiro… Mas o “náufrago” por força própria reembarcou… Sem camião, mas feito um frango molhado, endereçou ao seu querido Chefe Feijão um olhar de “Sete Facas”.

Naquela navegada, o monstrinho Tonico Cunha, pagou o mico… É assim mesmo: pedagogicamente, existem certos aprendizados que exigem muito cocuruto e cuidado com a mudança de amura… Não era à toa que nos jogos noturnos, eles se transformavam em cruéis guerrilheiros, em relação ao seu “amado chefinho”… Era assim sua formação de seniores: firmes, elevados, dignos, mesmo na malvadeza…

No “Plenário do Roda Bar”, a execração do “Ditador Chefe  Feijão” virava audiência pública. Eram autênticos tribunos em formação. Mas, nenhum foi político…

Pano acochado também navega, e o gosto pelas navegações aumentava cada vez mais, à medida que pegavam experiência  e compreendiam que a vida é luta renhida.. E viver é lutar…

Tributo ao chefe escoteiro Paulo Roberto Guimarães

1 responder
  1. Joaquim says:

    Caro Sr. Eno: como ex-membro do Grupo Escoteiro do Ar Hercílio Luz, onde meu filho e filha estão participando ativamente, tomei a liberdade de publicar o link para este post, pois considerei oportuna leitura para nossos jovens.
    Muito obrigado por compartilhar com sábias palavras esta experiência curiosa.

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