A arte de negar

Envolvi-me, juntamente com um grande amigo, numa atividade de beneficência. Juntos, temos peregrinado em busca de ajuda financeira para um hospital. Pois bem, caro ouvinte ou leitor, envolvidos nisso, temos visto, a cada dia, grandes demonstrações da arte de negar.

O que observamos, de início, é como as pessoas são afáveis. Já poderíamos, a esta altura, ter nos afogado em cafezinhos, tantos nos são oferecidos. Sorrisos de secretárias, contamos às centenas, com aqueles dentes branquinhos no rosto bonito de moças simpatissíssimas e, geralmente, de corpos igualmente belos.

As cadeiras e os sofás das antesalas estão bem mais gastos por estarem recebendo, às vezes por horas e horas, nossos traseiros cansados. O “posso ajudar?” quase sempre vem acompanhado da enganadora frase “Ele – ou ela – vai recebê-los daqui a pouquinho”.

Muitas vezes, quando conseguimos chegar a quem desejamos, somos reconhecidos por alguém que nos conheceu de vista tempos atrás, e que nos trata como se tivéssemos estado há pouco tempo juntos, almoçando e jogando conversa fora.
“Mas que prazer em revê-los! Como está a família?” Expressões como estas, vindas de gente que absolutamente não se lembra de nós, e nem sabe se temos e como é nossa família, são recorrentes. A forma como os braços se abrem, ou os apertos de mão são calorosos, deixam-nos quase com o sentimento de culpa por não ter procurado antes aquela pessoa tão atenciosa, que muitas vezes só vimos uma ou duas vezes no passado.

No momento em que mencionamos o real motivo de nossa visita, a coisa muda completamente de figura, e as reações são as mais diversas, quase sempre na direção da negativa. Quando falamos no patrocínio em dinheiro, então, tudo piora, e o empenho em negar recrudesce.

Algumas das pessoas procuradas simplesmente fecham a cara, num impressionante contraste com segundos antes, em que eram só sorrisos e afabilidade. Então, geralmente, mal conseguem esconder sua impaciência, olhando deseducadamente o relógio, ou mesmo dizendo que terão uma reunião importantíssima daqui a pouquinho.

Aliás, andamos descobrindo que o mundo é feito de reuniões. Pelos menos essas, que só servem ao ato de negar, acontecem a toda hora: pela manhã, à tarde, à noite. Muitas vezes, a notícia da sua realização, acompanhada da referência à sua urgência, chega ali mesmo – “coincidentemente”, na hora em que estamos conversando com esses contumazes negadores – trazidas por uma secretária pressurosa ou por um auxiliar zeloso, que aparecem do nada, mas com a evidente cara de que estão bem treinados para ajudar a despachar esses “chatos que vêm pedir”.

Impressionante também é a quantidade das empresas mergulhadas “na crise”. A despeito das evidências dos números, da exuberância empresarial inegável, com muito movimento, muitas vendas, excelentes negócios; apesar do fausto das instalações, das roupas elegantes das donas, dos carrões dos proprietários e gerentes; mesmo diante de todas as inegáveis exibições de sucesso e riqueza, vários desses empresários tentam insistentemente agredir nossa inteligência, demonstrando penúria, dificuldades extremas, terminando sempre no bordão da “crise mundial”.

Incríveis também são as interpretações artísticas desses negadores. Transformam-se, quase todos, em atores e atrizes de uma peça que poderia ser intitulada “A arte de negar”. Seus semblantes se mostram compungidos; alguns se mostram tomados de emoção, tentando convencer-nos de seu estado quase falimentar. Há casos em que seus olhos se mostram rasos d´água!

Inúteis são nossos irrefutáveis argumentos, sobre crianças cancerosas sem acesso a medicamentos, equipamentos obsoletos, móveis caindo aos pedaços, instalações precárias e mesmo, algumas delas, completamente inadequadas para atendimento médico, e nada acolhedoras para quem já carrega consigo o sofrimento, a dor ou a perspectiva da morte.
Nada disso adianta.

À falta de coragem para dizer que não querem mesmo ajudar, que pouco ligam para o sofrimento de quem quer que seja, esses artistas da negação contrapõem a tal “crise”, que a todos afeta, enfraquece e prejudica; ou, com veemência indignada, culpam o governo, que tem a obrigação de resolver o problema, que “nos cobra extorsivos impostos”. Como se não soubéssemos disso tudo, mas não desconfiássemos também de que vários desses negadores devem ser igualmente contumazes sonegadores…

Apesar de tudo, os poucos, relativamente muito poucos, que exercitam a outra bela arte – a de dizer sim – nos encantam, além de fazer brotar em nós a semente dessa linda plantinha chamada esperança.

Oxalá, prezado ouvinte ou leitor, os empedernidos corações desses insensíveis artistas da arte de negar acabem por se amolecer um pouquinho, de preferência antes que a lei do destino – caso ela exista mesmo – não os obrigue a ser atendidos, numa cruel emergência, em um desses hospitais tão necessitados, tão carentes de tudo. Num momento assim, seu desempenho na arte de negar será completamente inútil.

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