A alma das praias

Que me perdoem as cidades sem mar, mas o beijo das praias é fundamental.

praia

Toda cidade é linda: as das serras e montanhas, as das planícies, as situadas nos prados. Umas quase tocam os céus; outras olham de cima as imensas distâncias; outras ainda aninham-se nos acolhedores mantos de florestas.  Mas as que têm praias… Ah, as praias…

O sol é um artista caprichoso. Durante grande parte do ano, reduz seu poder de iluminar e aquecer. Parece que está guardando e potencializando sua energia para criar os dias de intenso calor.

Cúmplice, o oceano recebe do astro-maior o lento, cuidadoso, elaborado presente que faz com que suas águas se tornem cálidas, nesses dias de pleno sol. Então, mesmo o vento, buliçoso e brincalhão, que adora esfriar dias e noites, se rende à majestade solar e, aos poucos, vai-se amornando e transformando-se na brisa que aquece gente, bichos, vegetação – tudo enfim.

As areias são simplesmente terras. Mas, nas praias, em dias de sol, transformam-se em grãos de ouro. E cada grãozinho ganha sua cota de luz e calor, que generosamente será partilhada com o corpo dos banhistas.

Cidades com mar e sol são verdadeiras beldades vaidosas. A cada momento, nos dias ensolarados, miram-se no espelho das águas que as banham. E se renovam: as casas se iluminam; os edifícios rebrilham, da base às suas alturas; as ruas e avenidas parecem, em dias assim, criadas para levar todo mundo em direção às praias.

O ar marinho penetra fundo, nos pulmões, na vegetação, em todas as coisas. A maresia torna-se onipresente, com seu cheiro inconfundível.

Nas praias, apinhadas, a mesma gente, acinzentada, dos dias sem sol, transforma-se. Cada um ganha seu dourado. Até mesmo os turistas branquelos, irremediavelmente condenados a manter a pele leitosa, por viverem em cidades sem praias, recebem uma cotazinha de dourado, em meio à vermelhidão da pele queimada pelo sol.

A gente que nasce e vive nas cidades com praias já foi presenteada, desde o nascimento, com a luz do sol, com o cheiro que se desprende das águas, com o calor que aquece corpos e almas.

Mesmo quem vive em bairros distantes quilômetros do mar não escapa a esse clima de praia. Muitos detestam banhos de mar, reclamam da areia colada ao corpo, da maresia, dos burburinhos praianos. Porém, mesmo estes são envolvidos pela alma das praias, uma alma sutil, luminosa e calorífica, que está presente em tudo nas cidades com mar.

Curiosamente, para viver a alma das praias, não é preciso frequentá-las ou mergulhar nas águas. Essa alma vem, invade a cidade de ponta a ponta, penetra em tudo, mesmo contra a vontade. É uma alma luminosa, que faz com que tudo pareça mais leve, mais solto, menos sujeito a compromissos, horários, itinerários, formalidades no vestir, no jeito de olhar, andar, de ser, enfim.

Nas praias, tão decantados em prosa e verso, estão os corpos sarados e belos, todas as “garotas de Ipanema”, sejam de que bairro forem; todos os caras sarados, justificando o esforço da malhação pesada nas academias. Mas está também a gente normal, de verdade, com corpos comuns, em sua beleza intrínseca, quase nunca condizente com os padrões impostos pela moda e pela mídia. Todos, sem exceção, comungam dessa alma das praias.

Escrevo esta crônica, caro leitor, deitado nos esplêndidos braços da primavera, estação que, todo o ano, embora mantendo sua essência de suavidade, namora o verão, onde as praias reinarão absolutas. Imagino que isso seja, mais que um namoro, uma cumplicidade, que prepara a gente para os meses de calor e praia.

O sol, o mar, a areia fazem sua parte. Tomara que os humanos também façam a sua nesses próximos meses de praia, juntando à alma das praias o espírito da paz. E que isto seja verdade, intensa e prodigiosamente, no nosso Rio de Janeiro, que nasceu para ser um belíssimo corpo onde mora, natural e profundamente, a alma das praias.

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